questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

A lua negra

O herói e o monstro são duas faces opostas da mesma moeda da mudança. Seus caminhos são inversos enquanto seus destinos fatalmente se cruzam em algum ponto. Mas e quando você subitamente percebe que você mesmo se tornou esse oponente que tenta combater? Você virou a semente do caos ou o broto da esperança? Muita calma: na verdade ainda vai ser preciso cavar um pouco mais para chegar aos verdadeiros semeadores dessa bagunça...


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Toda causa gera algum efeito de igual potência. Esta é base de qualquer física mais elementar. E mesmo assim parece que o ser humano continua a se esquecer de um conceito tão simples. Na ânsia de resolver um problema urgente, procuramos soluções práticas e rápidas sem medir as devidas consequências ou problemas ainda mais preocupantes que possam decorrer de tal resposta precipitada. É assim que se cria uma falsa noção de segurança para toda a sociedade. E é assim que se cria um monstro no livro “A lua negra”, de Luiz Augusto Pereira.

A trama relata a história de Cleber Brandão, um pesquisador que se muda para o interior do estado de São Paulo, mais exatamente para a região da Caverna do Diabo, a fim de buscar alguma correlação entre o uso do pesticida DDT para proteger os bananais de pragas e um possível agravamento na saúde dos habitantes da área. E será da pior forma imaginável que o rapaz chegará a uma conclusão para os seus estudos: sofrendo as sequelas na própria pele.

Minhas pesquisas ainda estavam engatinhando quando aqueles animais alados me feriram. O que estava me impedindo de ir além? Precisei parar por um tempo e agora estava retomando os estudos com dificuldade, já começando a sentir os efeitos do veneno dentro de meu corpo. Uma mutação genética com certeza estava acontecendo. Só eu não sabia.” (p. 98)

Após sofrer um ataque de morcegos dentro da caverna, Cleber não se reconhecia mais: seus pelos cresciam mais rápido, emagrecia depressa apesar de comer muito mais do que o normal, além de uma estranha melancolia que constantemente o acompanhava. Mas o pior de tudo ainda eram os blecautes: durante noites de lua cheia a sua mente simplesmente apagava, independente do que estivesse fazendo. Tornava-se um período completamente sem lembranças em sua memória apesar de alguma coisa certamente ocorrer logo que, depois desses apagões, o homem sempre acordava nu em alguma região erma da mata.

Ao mesmo tempo em que Cleber padecia de seu angustiante tormento particular, a cidade vizinha passava por um sofrimento ainda mais aterrorizante: frequentes ataques noturnos matavam os seus habitantes com marcantes requintes de crueldade. Amigos de vizinhança eram encontrados com seus corpos dilacerados e a cabeça sempre arrancada a alguns metros de distância. Suspeitavam de que se tratasse de alguma fera com unhas enormes e que se alimentasse de sangue pelo fato de nenhuma gota ter sido encontrada por entre os cadáveres disformes. Mais ainda, suspeitavam de que essa fera não fosse exatamente um animal voraz, mas uma verdadeira aberração dos infernos: os boatos de que o pânico espalhado pelo local fosse provocado por um chupacabras somente agravavam a sensação de que a cidade estava indefesa perante uma ameaça muito mais forte do que pensavam.

Birch_in_the_moon_light_-_Birke_im_Mondlicht_-_Betula_pendula.jpg É só a noite cair para o pesadelo começar

A morte estampava o futuro de um humilde povoado esquecido pelo governo e pela providência. E a incerteza dominava o cotidiano de Cleber: o jovem queria socializar com as pessoas da cidade, fazer novas amizades e quem sabe até novos amores. Porém, o desconhecimento do que ocorria em seu organismo trava um maior desenlace das suas relações. Quer dizer, não era um total desconhecimento: Cleber desconfiava do pior. As indicações levavam a uma só explicação. Mas ele reluta em aceitar a duplicidade da sua alma.

Todavia não adianta mais negar. O dilema está claro: mesmo que diretamente não queira, Cleber está causando a morte de vários colegas seus e esta viciosa sina só tende a piorar com o tempo. Não é fácil, mas o rapaz enfim toma a decisão mais segura para definitivamente exterminar com o medo que assola toda a região: o seu próprio sacrifício.

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Em uma cena que remete a Prometeu acorrentado, o portador de um conhecimento além das próprias capacidades é condenado a permanecer preso a uma rocha pelo resto da eternidade. É uma pena que a ausência de uma entidade divina para vigiar o castigo no caso de Cleber permita que tais correntes possam ser rompidas bem antes disso: o monstro dentro de si não está disposto a ceder e agora tem ainda mais necessidade de satisfazer a sua fome insaciável.

Neste ponto muitos julgamentos podem surgir para avaliar a atitude de Cleber: “Por que não se matou de uma vez? Ele é um covarde, tem a solução nas mãos e não é capaz de dar cabo de toda essa baderna, as mortes vão continuar!” Confesso que esses pensamentos também me rondaram. Até eu perceber que a anomalia de Cleber é apenas a ponta do iceberg. O verdadeiro problema não é a falha no sacrifício do pesquisador.

Vamos pensar um pouco: suponhamos que Cleber morra, a ameaça se dissipe e a cidade fique em euforia. Legal, muito bom. Então outro turista vai visitar a Caverna do Diabo e simplesmente é atacado pelos mesmos morcegos: o ciclo acabou de reiniciar, seja atacando a mesma cidade ou qualquer outra que seja. Por mais boa vontade que tenha, Cleber não irá resolver o problema sozinho porque o rapaz se trata apenas da vítima de uma questão muito maior que é a sofreguidão humana por atuar sobre problemas atuais sem ponderar as possíveis consequências futuras.

Afinal, o uso do DDT começou graças à preocupação da sociedade em prevenir a proliferação de mosquitos transmissores de doenças como a malária até que o uso do inseticida se estendeu para proteger lavouras contra pragas devido à sua ação rápida e barata. Só o que não prestaram atenção é que ao matar os insetos nós também estávamos envenenando os nossos próprios alimentos. Será que esse custo realmente valeu a pena? Quem será mais danoso, o mosquito ou o agrotóxico?

Nunca dá para se ter certeza do resultado real dessa equação, mas fato é que muitos anos depois do início do uso o DDT foi proibido em boa parte dos países devido às suas propriedades potencialmente cancerígenas a longo prazo. As primeiras iniciativas desse tipo se deram na década de 70, porém no Brasil o produto só foi definitivamente vetado a partir de 2009. Não obstante essa evidente negligência, mais ou menos tempo envolvido, o DDT foi aplicado e quem esteve sob os seus efeitos não pode mais negar o contato igualmente como ocorreu com diversos outros produtos retirados posteriormente do mercado por motivos semelhantes. É extremamente injusto culpar Cleber quando produtos novos são liberados para a população sem os devidos cuidados somente para não comprometer a lógica comercial da sociedade.

Mas agora que o estrago já está feito é preciso remediar com bastante urgência: não só os aviões continuam pulverizando DDT para garantir a fonte de renda bananeira da região e os morcegos geneticamente modificados seguem atacando visitantes desavisados como também um monstro contrariado não deixa que as pessoas possam mais sair das suas próprias casas. Qual será dentre estes problemas aquele que a população quer realmente resolver? Pois é. E assim continuamos a tentar matar o mensageiro enquanto uma nova aberração não venha para nos importunar numa próxima “Lua negra”.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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