questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

O valor da mão na massa

Era da informação é diferente de era do conhecimento. Hoje a informação é uma realidade pulsante: imagens, vídeos e notícias se espalham de maneira praticamente instantânea pelo globo. Mas e então? O que de fato aproveitamos dessa grande bola de neve a nos comprimir mais a cada segundo que passa? Saber o que fazer com esse monstro cotidiano faz parte do essencial desenvolvimento de nossa capacidade crítica. Pois enquanto a avalanche de informações soterra, o conhecimento liberta.


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A magia está no ar. E a sua presença já é tão normal no nosso cotidiano que nem nos damos conta dos seus assombrosos poderes sobrenaturais.

Basta observar ao redor: quando você precisa do item principal para uma festa de aniversário é só entrar em qualquer supermercado para encontrar aquele bolo bem lambuzado de chocolate prontinho a seu dispor. Para chegar em um endereço desconhecido apenas informe o destino ao seu GPS que o carro já quase te leva sozinho para lá no caso dos automáticos. Para imprimir o mundo você tem que simplesmente apertar o botão de uma impressora 3D. Não precisa nem dizer sinsalabin, abracadabra e que a mágica se faça. Basta possuir os recursos financeiros necessários para que o espetáculo do seu interesse comece a se apresentar de um trato diante dos seus olhos.

Cake_slice_-_original.jpg Voilà!

Isso tudo não deixa de ser sensacional: é a grande prova de como a humanidade evoluiu a ponto de deixar simples as tarefas inicialmente mais complexas do seu cotidiano. Economia de tempo, esforço, desperdício. Ganho de competitividade. O conhecimento é a alavanca que nos propulsiona para o progresso. Contudo, ainda tem um detalhe um bocado nebuloso por aqui: propulsiona o progresso de quem?

Desde os primórdios de sua existência o homem buscou promover artefatos cada vez mais sofisticados para garantir o seu maior bem-estar na natureza. E a revolução industrial representou o apogeu desse desejo inato. Passamos pelo fogo, eras dos metais, pelo nascimento da escrita e chegamos às máquinas. A solução encontrada para aumentar a produtividade global foi alocar máquinas que realizassem atividades repetitivas de maneira padronizada em larga escala, eficiência com a qual nenhum ser humano seria capaz de sonhar trabalhando individualmente. É óbvio que isso não isentou as pessoas de serem elementos fundamentais para o bom andamento dessa grande engrenagem, qualquer equipamento precisa ser programado e criteriosamente monitorado por olhos bem atentos para funcionar bem. Afinal, máquinas não podem pensar sozinhas (ainda).

O problema é que isso fez com que a automatização criasse ilhas de conhecimento: se antes um sapateiro dominava todas as etapas para a criação de um sapato, agora uma fábrica de sapatos possui vários especialistas em um determinado processo. Existe o cara que sabe tudo sobre a sola, o outro sobre o couro ou o cadarço. Mas dificilmente algum desses especialistas consegue sair minimamente do mundinho de seu respectivo processo. Nenhum deles é capaz de realmente produzir um sapato.

Mens_brown_derby_leather_shoes.jpg E olhando assim o negócio parece tão simples...

Onde eu quero chegar com tudo isso? Pensa comigo: se essa defasagem interfere no aprendizado particular dos próprios empregados dessa fábrica nem um pouco fictícia, imagine como não vai interferir nos consumidores desse sapato, aqueles que nada viram de todo o processo de produção? As ilhas de conhecimento vão se tornando arquipélagos de desconhecimento à medida que avançam até o consumidor final. É quando efetivamente se chega ao cliente que o preço da ignorância se torna evidente, literal a partir do valor monetário exato a ser desembolsado para que um sujeito use sapatos mesmo sem nunca saber fabricá-los. A sociedade do saber simplesmente se curva aos ideais dominantes de mercado para se tornar uma sociedade de consumo irrefreado.

A comodidade em excesso provoca uma séria preguiça mental. É preciso parar para pensar, refletir sobre tudo aquilo que nos rodeia. Mas como vislumbrar uma saída desse marasmo coletivo? Quebrando a comodidade e nos forçando a conceber novas soluções para determinado problema.

Por que não estudar um pouco sobre o assunto e se arriscar a produzir os próprios calçados ou então a preparar uma refeição sem conferir nenhuma receita pronta de vez em quando? Por que não?

Ah, vai demorar muito, não vai ficar bom, vou estragar tudo... Sim, você está certo. É verdade: isso tudo vai acontecer. Ninguém disse que seria fácil. Assim como qualquer aprendizado da vida também não é. O erro é uma parte natural do trajeto até o acerto, levando-se o tempo que for necessário até finalmente demonstrar resultados positivos. Qualquer construção demanda bases sólidas para se erguer. E é só botando a mão nessa argamassa que realmente nos tornamos capazes de valorizar cada tijolo utilizado.

Ainda assim eu sei que pode soar pouco produtiva essa sugestão. Afinal, para que perder tempo montando algo que já foi montado com sucesso? Para que reinventar a roda? Simples: a felicidade nunca está no alcance de seus objetivos, mas no caminho que leva até eles. É só partindo do zero que se podem conhecer todas as dificuldades para se fabricar uma roda. Todos os problemas estarão à sua frente e você terá que resolvê-los de alguma maneira, testando e errando para enfim acertar. E a satisfação por criar soluções vindas do seu próprio raciocínio é impagável. Quem sabe, após muitas experiências, você não consiga fazer um aperfeiçoamento que ainda não existe na roda? Seria sensacional. Apesar de esse não ser exatamente o propósito aqui: independente dos resultados, o que realmente vale é o conhecimento que permanece após essas iniciativas. O aprendizado que fica pelos atos de parar, refletir e construir.

Artigo inspirado na palestra Talkescola de 13/07/2017, organizada pela Comnaction e a Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa para apresentar os benefícios e tendências do mundo maker através das apresentações de Márcia Sacay e Fábio Zsigmond.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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