questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

O chamado dos bisões

O clima frio pode infligir uma solidão avassaladora. Uma angustiante sensação de que a abundância se foi e a calamidade só tende a piorar. Mas o inverno não é o fim do mundo para um bisão: ele só precisa migrar. Mover-se até os lugares mais quentes. Entretanto, no trajeto existirão sempre obstáculos cada vez mais desafiadores. Vai ser preciso perceber de verdade os sinais de seus ancestrais para seguir em frente nessa jornada rumo a uma nova esperança.


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Se você esperar estar pronto para poder fazer qualquer coisa na vida saiba de uma coisa: você não fará nada porque nunca estamos inteiramente prontos para algo. Charles Darwin já ressaltava que não são os seres com mais dentes, unhas mais afiadas ou expressões mais assustadoras que sobrevivem. São os mais adaptáveis. Aqueles que permanecem abertos para as variações do ambiente, dispostos a formar uma simbiose entre si e o mundo capaz de gerar benefícios a ambos os lados.

Por mais que não nos sintamos prontos para a mudança é essencial desenvolver a capacidade de se tornar preparado perante o ambiente que se apresenta. Adquirindo essa habilidade é possível se adaptar a qualquer coisa mesmo que tal problema nem afligisse inicialmente a sua cabeça, assim como ocorre com o isolamento forçado de Mika no livro “O chamado dos bisões”, de Paola Giometti.

Mika batia os cascos contra a correnteza, sentindo-se angustiada e completamente sozinha mesmo em meio a tantos bisões. Agitava as pernas delgadas e levantava o nariz desesperadamente para respirar. Ainda assim, em vão: as correntes das águas a arrastavam para longe de seus pares.” (pág. 27)

Quando é chegado o inverno a natureza pinta de frias cores brancas as suas paisagens como se anunciasse o começo da maior provação na vida dos animais habitantes dos climas frígidos: sobreviver em um ambiente insalubre de estiagem vira o maior desafio capaz de selecionar quem está realmente mais adaptável de quem não está. E para isso os membros de cada espécie definem a estratégia que lhes parece mais adequada. Uns hibernam, outros saem para tirar proveito do frio alheio. E muitos deles migram. Deslocam-se por vários quilômetros em busca de terras mais quentes e provedoras de maior quantidade de recursos para a vida. Neste último grupo se enquadram os bisões. E é essa jornada que Mika, uma jovem bisonte fêmea, terá de cumprir pela primeira vez junto à manada de sua espécie.

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A ingenuidade infantil ainda procura abrilhantar o evento: parece que todos estão saindo para vivenciar uma grande aventura. Também não deixa de ser por causa das conquistas e consequente glória dos vencedores. O problema é que ninguém nunca lembra de contar a história dos perdedores. A grande maioria que ficou pelo caminho, com seus nomes apagados pela neve. Vencidos pela fome e por predadores mais eficientes.

O cheiro da morte os acompanha. E é justo pela pior das formas que Mika aprende a reconhecê-lo.

Quando um misterioso predador se aproxima a manada de bisões se inquieta. Os mais experientes esquecem de suas funções, os mais virtuosos se perdem no meio da multidão ensandecida. Todo o grupo quer somente salvar suas próprias peles disparando para todos os lados possíveis. Nessa corrida desenfreada Mika perde-se da mãe, a bisonte branca que a guiava até ali. Sem poder mais seguir os seus passos, Mika perde também o rumo. O rio de águas gélidas que fluía ao lado da manada avançou pelas suas pernas. Quando se deu conta já tinha sido tragada e arrastada para longe de todo o mundo que conhecia.

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A grande onda. A correnteza. Nem adianta lutar contra a sua força. É melhor admitir o fluxo e seguir em frente tentando ao menos desviar das rochas pelo trajeto. Que ainda serão os menores obstáculos com que Mika virá a se deparar.

Por mais que mantenhamos uma imagem exterior firme, todos estamos propensos a passarmos pela jornada de Mika a qualquer instante. O ser humano criou uma tendência tão dominante sobre o ambiente que deixa de perceber a dependência que tem perante a natureza que lhe fornece todos os subsídios para sobreviver. Adota um estilo de vida tão efêmero e inconsequente que fica incapaz de notar a linha tênue que separa o sucesso do fracasso, o progresso da ruína, a vida da morte.

Nessas horas de provação é essencial mantermos uma Mika bem alerta dentro de cada um de nós. Aquele ser curioso sem perder a cautela, aberto às modificações do ambiente sem perder as raízes de seus princípios.

Ao atingirmos o inverno de nossas vidas precisamos preservar a serenidade, permanecer em equilíbrio. Este é o primeiro passo para alcançarmos nossos objetivos. E assim nos tornarmos mais hábeis para escutar o chamado dos bisões que nos encaminhará pelo caminho certo de volta à nossa manada e rumo a um novo florescer da primavera que certamente se aproxima.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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