questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

Entre Quixotes e Sanchos

Um sonhador que procura abrilhantar os terrenos mais inférteis que vê. Um realista que encara a vida como realmente é. Essa disputa já é antiga, mas quem tem realmente razão nessa história? Ou será que o conflito entre partes antagônicas, aparentemente o principal problema a ser resolvido, não deixa de ser a própria solução para o caso?


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Todo dia ela faz tudo sempre igual.

Há muito Chico Buarque já alertava em “Cotidiano” para a mecanicidade da vida, a permissão para que o dia te leve num piloto automático que nem foi você quem programou.

Levanta, trabalha, dorme.

A rotina que te enlaça de tal maneira que você perde gradualmente a capacidade de sentir empatia com o que está ao redor, qualquer coisa no entorno da rota refinadamente traçada.

Levanta, passeia, dorme.

Não importa a maneira como a rotina ocorra: qualquer excesso se torna doentio, tanto de se fazer tudo ou não se fazer nada a todo instante. E são desses extremos que perdem o sentido após ficarem tão exacerbados de que tratam os livros “Um homem e um piano” e “O encontro do sétimo dia”, de Adriana Abuassi.

“— E eu tenho medo. Soube que os enfermeiros estão caçando loucos perigosíssimos que se dispersaram pelos jardins... E se os loucos estiverem por perto? Podem nos atacar! — disse Frica, soluçando desesperadamente.

— Já enterrei o seu passarinho, Caren. Mas ele não me parecia mortinho... Gritava muito... Parecia até que estava vivo! — disse a faxineira. — Bem, acho melhor retornarmos ao quarto. Afinal de contas, se for verdade o que disse Frica, estamos correndo sério perigo ficando aqui fora! — acrescentou em tom grave.” (Um homem e um piano, p. 18)

“Um homem e um piano” traz uma série de contos em que a loucura parece se espalhar de modo viral, como a cegueira branca elaborada por José Saramago em “Ensaio sobre a cegueira”. Entre as histórias de funcionários administrativos exageradamente curiosos, enfermeiros que convivem com os pacientes de um hospital psiquiátrico e um homem que larga tudo para se dedicar à música percebem-se divisões iniciais bastante quixotescas entre loucos e sãos. Contudo, essa separação se torna cada vez mais tênue à medida que a racionalidade de Sancho Pança se mostra crescentemente insana quanto mais procura evidenciar a insensatez dos demais. É possível agir coerentemente dentro de uma sociedade que já se desenvolveu de forma errônea desde a criação de suas raízes? Os frutos podem realmente ser culpados por possuírem um gosto estranho mesmo quando a árvore não foi capaz de nutri-los corretamente?

Uma abordagem semelhante é adotada em “O encontro do sétimo dia”, porém aqui as consequências de não agir equilibradamente adquirem contornos mais trágicos, sendo a morte desoladora ou uma vida cheia de amarguras os resultados disso. O pessimismo dos contos é aquele de um Dom Quixote tão cansado de ser incompreendido que já não tem mais vontade de seguir com suas andanças. O sistema é mais duro com aqueles que fogem ao tradicional. Além disso, o sujeito está tão obstinado em seguir por seu caminho diferente que ele mesmo se perde, da mesma forma como acontece com os teimosos em continuar pela mesma trilha comum.

Parece que todos os caminhos levam à perdição. De qualquer maneira a vida se torna um sofrimento visto que a base do sistema já está errada. Mas ao mesmo tempo as histórias permitem vislumbrar algo diferente. Assim como o Yin gera o Yang, o caos gera a ordem e a escuridão gera a luz. É da perdição absoluta que floresce a oportuna orientação: o equilíbrio.

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Dom Quixote e Sancho Pança são faces opostas da mesma moeda, que é o ser humano. A emoção não vive sem a razão e vice-versa. Ambos precisam se completar para que exista plenitude, para que haja uma sinergia saudável. Mas ainda não se resume só nisso: o ser humano é apenas uma das moedas de todo um universo infinitamente abastado dos mais diversos tipos de riquezas. Nós fazemos parte dessa grande coleção. E ao mesmo tempo somos a coleção. Tudo está intimamente conectado, interligado em vários níveis que perpassam escalas micro e macroscópicas para resultarem em um só organismo fundamental. Somos todos um.

Quanto mais Dom Quixote e Sancho Pança se imaginam diferentes, mais se afastam da realidade de que são os pilares do mesmo prédio. Quanto mais os frutos ressequidos assumem a sua enfraquecida posição devido às raízes podres de sua árvore, menos se dão conta de que são eles quem fornecem as sementes das árvores futuras e que antes forneceram as origens desta mesma árvore, caindo num decadente ciclo vicioso. São as folhas e frutos que enriquecem o solo ao redor. São eles quem fazem as raízes serem o que são. É a própria população quem faz o sistema que a permeia.

É preciso parar. Sair do piloto automático para que o ciclo vicioso não continue. O universo nos oferece infinitas possibilidades, sempre dá para vencer a areia movediça. Nem que para isso tenhamos primeiro que ser engolidos por ela.

A resposta vem de dentro, somos nós que moldamos a nossa realidade. A mudança parte de cada indivíduo e é dessa microvisão que se refletirá a macrovisão. Basta compreender isso para que a consciência do eu possa ser interligada à consciência do outro. Não somos seres vivos dotados de consciência e sim consciência na forma de determinado ser vivo. O mesmo organismo universal.

Entre a loucura e a sanidade, o que se destaca nos contos de Adriana Abuassi é a constante busca das personagens pelo equilíbrio perdido. O que não deixa de ser o objetivo de qualquer ser ao nosso redor.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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