questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

O devorador de almas

A vida não se acaba quando termina. Ainda que de forma diferente, a mesma energia que vibrava continua presente, pulsando. No caso, fervilhando. Pois um matador de aluguel não iria parar os seus serviços só porque passou desta para pior. Uma nova e instigante posição o aguarda. O pós-vida será capaz de reservar surpresas que só um coração escaldado pode desvendar.


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O orgulho cega. O rei Minos que o diga: sôfrego por tomar o trono de Creta no período da Grécia Antiga, Minos fez um pacto com Posêidon, Deus dos mares, para enfim se consolidar como rei. O desejo lhe foi concedido e o homem pôde governar a cidade em uma época de grande abastança. Entretanto, o pessoal esquece que não existe almoço grátis: em troca do pedido, Posêidon solicitou que Minos sacrificasse o touro branco que havia sido enviado das águas para sacramentar a sua conquista do trono. Mas Minos não o fez. Aquele valioso touro não podia ser desperdiçado assim, ele ainda poderia render muito dinheiro à cidade. Resultado: Posêidon fez com que Pasífae, a esposa de Minos, se apaixonasse pelo mesmo touro. O que depois fez com que ela viesse a dar à luz ao Minotauro, terrível monstro que passou a assombrar a ilha de Creta.

O prazer imediato é extremamente sedutor. Mas é preciso estar atento para as consequências que um instante pode trazer para toda uma vida. Ainda mais quando se lida com entidades assumidamente mais poderosas que nós, reles mortais. É sobre esse tipo de trato que se desenrola a trama do livro “O Devorador de Almas”, de Paulo Dumi, em que é relatado como o demônio cobraria os pactos realizados com ele.

“— Simples. Tem almas que realmente me interessam. São gananciosas, violentas, persuasivas. São ótimas escravas aqui no inferno. Mas tem outros que... — ele fez uma pausa, suspirando entediado. — Bem... não valem nem a pena trazer para cá.” (pág. 40)

Carlos era um frio matador de aluguel. Não tinha receio de aceitar qualquer tipo de serviço sujo caso fosse devidamente recompensado por isso. Contudo, mexer com grandes máfias acabou não sendo uma boa estratégia por muito tempo: após concluir um de seus trabalhos, Carlos é enganado e morto por um dos seus clientes. Era o fim da linha. Ou melhor, somente o início da sua tormenta: o homem estava fadado a ter o inferno como o seu mais novo lar.

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Todavia, chegando ao local, Carlos se dá conta de que não terá uma estadia comum. Um mensageiro do demônio logo o encaminha para conversar com o próprio dono do inferno. Estava interessado que realizasse um serviço. Que seria justamente o de apagar qualquer rastro das almas consideradas fracas e inúteis a terem feito um pacto com o diabo alguma vez. Não valia a pena perder tempo com elas, que ficassem presas no limbo da existência sem atrapalhar ninguém. Foi assim que Carlos foi admitido para o cargo de devorador de almas.

Sua tarefa era simples: o homem retornaria para a Terra e estaria sempre incumbido de cumprir uma determinada missão, ou seja, devorar uma alma. Sendo assim, Carlos continuamente recebe informações sobre a próxima pessoa que deve atacar e então tem de bolar algum plano para matar a sua vítima o quanto antes dado que a sua intensa fome só seria satisfeita quando se alimentasse da alma em questão. Era a maneira pela qual o diabo obrigaria o rapaz a não desvirtuar de seus serviços.

Até então não há tantos problemas, Carlos estava mais do que acostumado a eliminar qualquer sujeito que fosse preciso. Era uma avançada máquina de extermínio, disto não havia dúvida. Mas é nesse momento que novas artimanhas do demônio começam a exibir diferentes faces das regras do jogo: e se Carlos tivesse como missão devorar a alma de uma pessoa com quem mantivesse algum laço de afeto? E se tivesse que assassinar justo a pessoa amada que mais tinha sofrido desde a sua partida?

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As histórias serão cruzadas, os pontos serão ligados. Carlos irá ter noção da intrincada enrascada em que se meteu. E agora terá de buscar uma saída ao menos razoavelmente mais aceitável para o seu caso.

Pois o Minotauro já está criado, mesmo o herói Teseu não pode apagar o estrago que o monstro já tenha causado em seu propósito único de destruir. Assim como Carlos já está fatidicamente condenado à expiação eterna, seja como devorador de almas ou em qualquer outro cargo que o demônio queira colocá-lo.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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