questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

Bilboquê

Eu necessito de um bilboquê. Ou melhor, ninguém nunca morreu por ter deixado de jogar bilboquê então eu não necessito, apenas quero um bilboquê. Mas haverá realmente diferença entre querer e necessitar? A essencialidade e o valor emocional de algo não acabam sendo definidos de uma maneira muito mais subjetiva do que diz o protocolo?


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“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.”

Oscar Wilde tinha razão: o ambiente que nos rodeia pode ser tão repressor, somos tão exigidos a seguir os padrões de uma sociedade predefinida que muitas vezes deixamos de partir em busca de nossos próprios propósitos. Uma situação tão absurda que soa um absurdo você procurar ser você mesmo. Mas essa energia criadora não pode ficar aprisionada: para isto existe a arte. Libertadora dos afluentes que alagam o ego. Curiosamente, o mesmo Oscar Wilde afirma que o teatro pode ser mais real do que a vida. É lá que a verdadeira alma se expressa. E é nesse palco revelador que se desenvolve o drama “Bilboquê”, de Carmem Toledo.

“Mendigo – Se não queres ser arrancado daqui ao amanhecer, deita e dorme. E acorda antes do sol raiar, pois é aí que chegam os donos e abrem as portas.” (pág. 48)

A história se situa no final do século XIX e retrata o impacto que o crescimento das cidades provoca sobre uma família abastada do campo. O menino, um dos vários personagens sem nome na trama e que é o filho da família, questiona o seu tutor, nomeado simplesmente como “homem”, sobre a felicidade que as pessoas que moram na cidade aparentam ter. Afinal é isso que ele vê correntemente pelos jornais: sorrisos, contentamentos, alegria. A mídia espalhava o deslumbramento diante das promessas de progresso dentro de selvas de pedra revestidas com solo de cimento e elegantemente perfumadas pelo ar de fumaça tóxica.

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O tutor naturalmente procura quebrar esse encanto, fincar os pés do menino na realidade. Se não fosse ele não havia outro que o faria, os pais verdadeiros da criança não aparecem em nenhum momento. Porém, o menino já se encontra no limite de se sentir limitado: o tutor sempre nega suas aventuras e oferece explicações tediosas dos seus motivos, dos quais o garoto quase sempre mal compreende uma palavra. Apenas percebe que o tutor é exatamente o que procura ser, nada mais que um quebrador de encantos.

Não dá mais para suportar, é hora de desgarrar: se ninguém quer acompanhá-lo, o menino se dirige à cidade nem que seja sozinho. Já é tempo de se viver o presente, de possuir tudo o que se quer. Nada mais, nada menos.

Por outro lado, o tutor praticamente surta. É um homem sonhador, que baseia o seu modo de vida em compartilhar com os outros as lições valiosas que aprendeu ao longo da vida para tentar fazer do mundo um lugar melhor para se morar. Pena que ele sempre fracassou: apesar de suas boas intenções, o seu mundo preciso e racional não é muito agradável aos que o veem pela primeira vez. Começou estudando direito, passou pela medicina e terminou na botânica. Pulou de galho em galho para cumprir o seu propósito e no final das contas acaba perdendo o único tutelado que tinha...

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Agora vai restar ao tutor, juntamente com Camila (a única personagem da história que de fato possui um nome, a única mulher e também a única que não possui nenhuma linha de fala em toda a obra apesar de possuir ações importantes para o desenvolvimento) e seu irmão saírem em busca do garoto. E, enquanto isso, uma inevitável transformação irá ocorrer: a partir do momento que conheceu a cidade por seus próprios olhos, a personalidade do menino nunca mais será a mesma. Ele pode até sair da cidade, mas a cidade não sairá mais dele.

Terá sido a cidade que moldou o seu caráter ou o seu verdadeiro ego sempre esteve escondido à espera da melhor oportunidade para brotar e florescer? Este é o principal dilema da obra.

“Você já fez a sua escolha. Agora só resta saber o porquê”, diz a Oráculo do filme Matrix. A razão. A origem do fato. A explicação que pode permitir que gerações futuras não venham a cair no mesmo engano infinitas vezes. Mas... será que as pessoas estão realmente tão preocupadas em pensar nisso? Uma das epígrafes de Carmem Toledo talvez responda essa questão:

“Quando frequentava a sociedade, sempre tinha que trazer no bolso um bilboquê e ficava jogando todo o tempo para dispensar-me de falar quando nada tinha a dizer. Se todos fizessem o mesmo, os homens seriam menos maus, seu trato seria mais seguro e, penso, mais agradável. Enfim, que os engraçados riam se quiserem, mas sustento que a única moral à altura do século presente é a moral do bilboquê.” (Jean-Jacques Rousseau, “As Confissões”, Livro V)


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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