questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

A raiz da maldade

O que faz uma pessoa se tornar uma psicopata?
Um fator genético, uma infância conturbada ou uma conjunção perversa de ambos os fatores?
Iuri acredita na humanidade. Crê que o mal ao nosso redor só ocorre por causa de alguma motivação específica que provoca uma reação disforme das pessoas que o originaram. Mas uma série de assassinatos locais pode lhe levar a novos pontos de vista...


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Aquilo que nos mata nos faz sentir mais vivos.

Assim segue o ciclo vicioso da humanidade: sabemos muito bem que o proibido é prejudicial, perigoso. E de que adianta? É essa adrenalina do risco que parece nos alimentar. À medida que a costumeira segurança entedia, mais o prazer com a incerteza vibra. E incomoda. E assanha. Até que o ciclo volte a acontecer e a chance de cometer algum ato precipitado se torne cada vez mais iminente. É sobre essa inevitável interação com o perigo que se trata o livro “A raiz da maldade”, de Claudia Mina.

O jornalista ligou seu notebook no intuito de achar Ramiro ou a estagiária online, no entanto, a primeira coisa que viu em seu painel de notícias foi que a polícia havia localizado outra vítima do serial killer de Alexandria. Então Iuri teve certeza de que não teria paz naquele dia.” (pág. 77)

Iuri é um falante e sociável universitário da cidade de Santa Rosália. Sempre curioso em descobrir a verdade oculta por trás de qualquer história, sentia-se no lugar certo estudando jornalismo e participando do grupo de redatores do jornal da faculdade. Mas quando as matérias deixam um pouco de lado os festivais de música e os resultados dos jogos estudantis para ganhar um clima policial é que o seu sossego tende a terminar.

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Era 11 de agosto de 2010. Iuri se levanta para um dia comum de aulas quando lhe chama a atenção um grande grupo de pessoas reunido próximo à entrada da faculdade. Santa Rosália era uma cidade demasiado pacata do interior, qualquer aglomeração era coisa bastante rara de se ver. Porém, o que havia ocorrido certamente também não fazia parte daquele bucólico cotidiano: o corpo de uma estudante do local jazia ali, como que propositalmente colocado em uma posição estranha. A aparência da garota indicava uma morte por esganadura e o seu dedo mínimo havia sido cortado.

A morte abalou toda a comunidade. Quem seria o responsável por uma atrocidade dessas? A jovem não possuía inimigos, era tranquila e recatada. Todas essas dúvidas fazem Iuri reviver uma antiga questão que o aturdia: de onde vem a maldade? Qual seria a sua origem, qual o seu fator propulsor? O rapaz estava certo de que o assassino seria movido por alguma crise ou trauma de infância que motivasse uma ação como essa tão permeada de crueldade.

Todavia, as buscas da polícia se tornam gradualmente infrutíferas. Não há provas suficientes para incriminar alguém. Iuri fica desapontado, bastante abatido. As pessoas passam a esquecer da garota morta e alimentam apenas o nascimento de uma nova lenda urbana, o misterioso “estrangulador de Santa Rosália”. O jovem se revolta com essa veneração ao delito e o descaso com a vítima. Os papéis não podem se inverter. Por que temos tanto fascínio com o mórbido? Por que o próprio Iuri não descansava enquanto não solucionasse o caso já que nem conhecia a garota assassinada?

Só que talvez esse não fosse o verdadeiro problema de Iuri: em um dado momento o rapaz está certo de que tem a solução nas mãos. A questão é que ele não tem condições de comprovar a sua tese.

Iuri sabia. Soube no mesmo momento em que viu um jovem de olhos azuis e lisos cabelos escuros ser interrogado pela polícia. Iuri o reconheceu.

Na busca de uma resposta para a origem da maldade, Iuri havia estudado muito o perfil de pessoas psicopatas. Decerto conseguia descobrir um quando o encontrava. Ainda mais quando esse mesmo sujeito já era um velho conhecido de seus tempos de escola.

Iuri e Max estudavam juntos. Iuri sempre elétrico e conversador em um canto e Max calado e retraído do outro. Não tinha nada especificamente contra Max, porém desde o início havia percebido algo de estranho no garoto de certo ar superior que parecia conseguir garotas e notas altas sem muito esforço. Mas foi numa noite em um bar que Iuri definitivamente notou que Max não era completamente normal depois que se divertiu a empurrar bêbados pelo caminho, quebrou o nariz de um deles e espancou um mendigo que não oferecia perigo algum.

Só podia ser ele. Mas como provar?

Vencido pelas impossibilidades, o tempo passou sem que surgissem respostas. Cinco anos mais tarde Iuri já estava formado e tinha se mudado para a cidade de Alexandria, onde trabalhava em um jornal local. Era uma cidade bem mais dinâmica que Santa Rosália, mas ainda guardava um charme da segurança do interior bem como Iuri gostava. Existiam notícias de crimes e assaltos para a redação, mas nada que realmente alarmasse a movimentada cidade.

Até que um dos casos claramente lhe assustou: era uma jovem morta por esganadura que havia tido a orelha cortada. Ao ver as fotos o espanto ainda bateu mais forte: ela havia sido deixada na mesma posição da garota de Santa Rosália.

A partir daí os casos começam a se multiplicar drasticamente. Várias jovens são assassinadas em condições semelhantes e parecem haver ainda menos indicações do responsável.

Enquanto isso, Iuri sofre calado: tudo porque ele sabe e se sente culpado por não poder evitar novos casos. É um pesadelo que o acompanha constantemente, um tormento que o perturba a cada nova manchete ensanguentada.

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Iuri nunca mais tinha visto Max. Contudo, está disposto a encontrá-lo para provar que ele é o grande causador disso tudo.

A vontade pode se tornar cada vez mais forte. E então virar obsessão. Lidar com um serial killer soa tentadoramente desafiador, mas requer cuidados de mesmo tamanho. Não se pode pisar em falso, não podem haver precipitações.

O fascínio pelo mórbido.

Aquilo que nos mata nos faz sentir mais vivos.

Agora Iuri terá somente que se atentar para que a sua busca pela Raiz da Maldade não lhe cobre um preço muito alto pela resposta.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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