questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

Entrevistando o demônio

Um método terapêutico que utiliza a empatia nos tratamentos. Um psiquiatra especialista, professor da Universidade de Londres. E uma missão: curar um psicopata em 28 dias.
Nicholas Flamme não gostava da ideia de ter um dia limite para criar toda a empatia que precisava com o assassino Haryel Kitten, mas o prazo do tribunal era esse. Agora lhe resta conhecer e reabilitar o quanto antes o frio indivíduo com quem interage. A não ser que ele próprio seja envolvido com as lições que o psicopata pretende lhe impor...


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O que efetivamente move o ser humano? Um sonho, a esperança de um mundo melhor? Ou simplesmente as suas próprias vontades e desejos particulares? A frenética batalha entre Id e Superego sempre causa atrito suficiente para alimentar a energia de desenvolvimento do ego, o caminho do meio.

Para se alcançar esse equilíbrio pessoal é preciso colocar na balança os próprios impulsos e confrontá-los com a aceitação deles pelas normas da sociedade e também com nossos princípios individuais. Porém, se esses princípios nossos não são dos mais edificantes como fica essa balança? Um psicopata estará cumprindo fielmente os seus ideais de vida quando mata pessoas seguidamente? É acerca de tais questões morais e muitas outras implicações sociais e religiosas sobre o julgamento das ações humanas que se dedica o livro “Entrevistando o demônio”, de Tony Ferraz.

“Segundo o Gnosticismo, demiurgo era um Deus criador do mundo, cuja natureza era má. Não soberanamente bom como em Platão, mas efetivamente mau. Muitas vezes representada pelo Deus cruel e caprichoso do Velho Testamento, em oposição ao Deus misericordioso do Novo Testamento. Eu sabia que uma das traduções para essa palavra, demiurgo, era artífice. (...) Isso me dava uma ideia do que se passava na mente de Haryel.” (pág. 147)

Nicholas Flamme ministra aulas de psiquiatria forense na Universidade de Londres. Apesar do reconhecimento obtido como professor, entretanto, a sua maior notoriedade é ocasionada por ser um profundo conhecedor do método de Eric Russel, famoso psiquiatra capaz de curar a psicopatia de quatro pessoas alguns anos antes, mas que agora sofria com uma grave doença degenerativa. Inapto para acompanhar pessoalmente novos casos, foi então proposta a Nicholas a incumbência de tomar a frente do tratamento psiquiátrico de um dos réus mais presentes no noticiário popular: Haryel Kitten.

Haryel era um detetive de inteligência aguçada que àquela época atuava sobre o caso do Artífice, um assassino em série que estranhamente matava pessoas com nomes de anjos. Afinal, mais tarde se suspeitou que o próprio Haryel era o responsável pelas mortes. Ao se entregar, o ex-detetive deu um tiro em si mesmo que passou apenas de raspão. Logo após isso, quando era encaminhado para ser prontamente internado, Haryel simplesmente paralisou-se por completo: entrou em tamanho estado vegetativo que não mexia mais um músculo, somente mantendo um frio e longínquo olhar à frente.

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Muito mais que alguma complicação física, acreditava-se que algum problema psicológico acarretasse a sua repentina perda de personalidade e falta de motivação para a vida. O que só tornava a tarefa de Nicholas duplamente complexa: precisava não só compreender a origem da paralisia do assassino como também, uma vez sadio, adquirir uma relação de profunda empatia com o indivíduo a fim de reabilitá-lo a viver em sociedade assim como prega o método de Eric Russel.

Claramente inspirado na figura de Nicolas Flamel, o renomado alquimista que teria sido capaz de criar a pedra filosofal para transformar qualquer metal em ouro e o elixir da longa vida para atingir a eternidade, a principal missão de Nicholas se torna transmutar: fazer com que os ideais torpes de Haryel sejam substituídos por ideais conectados com o bem comum assim como uma peça em latão pode virar ouro ao toque da pedra de Flamel. A empatia seria o grande segredo para o paciente de fato acreditar no novo modelo mental que se pretende estimular. O problema é que a empatia também sempre é uma via de mão dupla.

Haryel possui um instinto dominador feito leão: fazê-lo renascer para a vida não funcionaria caso ele se sentisse como um mero rato de laboratório diante dos interesses alheios. Ele precisa ser o cientista. Precisa manipular, testar e comprovar os experimentos com suas próprias cobaias. Essa perigosa mudança de papéis lhe conferiria poder. A capacidade do próprio Haryel ser astuto o bastante para transmutar os ideais de Nicholas naquilo que ele bem quisesse...

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Nessa intrincada disputa de influências serão necessárias as melhores estratégias de persuasão: aproveitar pontos fortes, explorar pontos fracos, despertar vaidades que cegam o raciocínio, blefar para se mostrar o dono da situação.

Pois Nicholas sabe que, mesmo algemado e sob forte escolta, Haryel continua a ser um sujeito muito hábil para tomar a iniciativa e surpreender a qualquer momento. Ou talvez nem tenha ainda tanta noção do que o psicopata seja realmente capaz de fazer...

Bem ou mal? Anjos ou demônios? O que vale mais: salvar o mundo ou salvar-se a si mesmo?


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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