questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

O jogo final

O ser humano é um animal social. Resistiu como espécie a partir do apoio mútuo de seus grupos. Mas diante de uma ameaça evidente a sua atitude não é muito diferente dos demais: lutar ou correr pela própria sobrevivência em primeiro lugar. Ao ser acuado, a razão foge e dá lugar ao instinto. A ânsia feroz, inconsequente. Destruidora de tudo o que vê pela frente.


O jogo final.jpg

Uma segunda chance. Quem já não implorou por alguma? Aquela oportunidade perdida, aquele erro que não se pode mais apagar da história... E que tal uma nova chance para viver? Ter a possibilidade de superar a própria morte?

O ganho é alto, mas o custo também. A mitologia grega já nos traz o caso de Orfeu que conseguiu convencer Hades a libertar a sua amada esposa Eurídice do mundo dos mortos. Sob uma condição: Orfeu retornaria à Terra andando à frente da mulher, de nenhuma maneira poderia olhar para trás e conferir se ela de fato o acompanhava.

Contudo, à certa altura do caminho Orfeu não resiste à possibilidade de ter sido enganado por Hades todo esse tempo e se vira para trás, para então selar Eurídice definitivamente no mundo dos mortos.

raven-988218_1920.jpg

Lidar com vidas é algo extremamente valioso. E por isso pode suscitar os instintos mais baixos para que se agarre com unhas e dentes essa oportunidade única. É a respeito dessa luta ferrenha para retornar à vida que se trata o livro “O jogo final”, de Camila Bonifácio.

“Naquele quarto, que nunca estava claro o suficiente para ser considerado dia e nunca ficava escuro o suficiente para ser noite, eu conseguia ver os enormes olhos de cada um que ali estava. Eram olhos curiosos e, ao mesmo tempo, desconfiados, avaliando cada movimento por menor que fosse.” (pág. 128)

Após a morte alguns esperam alcançar o paraíso, fugir do inferno, partir para uma reencarnação ou simplesmente acreditam que seja o fim absoluto. Ninguém nunca sonharia que iria parar num mundo estranho para participar de um jogo cruel entre mais quinze candidatos recém-falecidos.

As regras são explicadas à medida que são necessárias. Seria muita informação de uma vez só.

O que se sabe é que todos serão colocados à prova em desafios cada vez mais perigosos. Torturas físicas e psicológicas capazes de estimular o pior que há dentro de cada um e provocar o aniquilamento uns dos outros. Por isso apenas os fortes resistem ao jogo final.

Sem dúvida é um golpe duro para pessoas que provavelmente tanto sofreram para terem chegado até ali. O jogador de futebol que não aproveitou a fama devido a uma overdose, a garota sonhadora assassinada pelo namorado, o suicida vítima de bullying... Todos têm seus motivos para voltar, mas nem todos conseguirão. Afinal, eliminar outros candidatos facilita um bocado a própria sorte...

woman-3959676_1920.jpg

É um mundo cinza, uma atmosfera pesada. Entre dezesseis mentes diferentes existe muito companheirismo e boa vontade, mas também muito egoísmo e falsidade. Como realmente confiar? Como saber se o comportamento humilde do padre não possui segundas intenções? Como comprovar que um psicopata não durma na sua cama ao lado?

Muitas perguntas se acumulam. Contínuas dúvidas pairam tanto sobre a índole dos demais participantes quanto sobre as regras do jogo. Contudo, é preciso mais do que nunca saber usar a cabeça. Desvendar as ideias do criador desse novo mundo insano pode ser o diferencial entre viver ou morrer. Entre voltar para sua família ou ficar aprisionado no mundo dos mortos para sempre.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// //Leandro Dupré Cardoso