questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

À deriva

"Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar.
Andei por andar, andei
E todo caminho deu no mar.
Andei pelo mar, andei
Nas águas de Dona Janaína.
A onda do mar leva,
A onda do mar traz.
Quem vem pra beira da praia, meu bem,
Não volta nunca mais."


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A bênção das águas. Esse trecho de Dorival Caymmi para a música “Quem vem pra beira do mar” expressa bem o poder curativo do oceano. Largar os sapatos duros e colocar o pé na areia, deixar os problemas de lado e manter a cabeça submersa numa imensidão azul.

Esse sagrado contato com a mãe-natureza é fundamental para nos manter conectados com a mais pura essência da existência. E se torna ainda mais necessário em momentos de alto estresse, angústia e ansiedade no cotidiano da cidade grande. É sobre a importância desse retorno à origem para a renovação da própria vida que se trata o livro “À deriva”, de Fernando Ferrone.

“Isabela era da opinião que nenhum ecossistema da Terra merece ser comparado com uma grande metrópole. Mesmo colônias de insetos ou fungos funcionam mais harmonicamente que os habitantes amontoados das grandes cidades, sejam elas Nova Iorque, Paris, São Paulo ou Nairóbi.” (pág. 31)

Um namoro recém-terminado, um emprego desvirtuado de algum edificante propósito, um dia a dia sem perspectivas. Todos esses fantasmas atormentam a cabeça enfastiada de Isabela. A correria da metrópole parece não a levar a lugar algum, apenas a faz perder-se ainda mais nos rumos que não lhe pertencem.

A jovem paulistana precisa de um tempo. Nada de trabalho, família ou qualquer outro laço emocional a lhe prender. Seria uma fuga rápida, mas muito oportuna. Um fim de semana na Vila de Trindade, no Rio de Janeiro.

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A vista litorânea, o clima praiano. O ideal para relaxar e abandonar quaisquer preocupações. Abrigada em um camping da região, porém, Isabela percebe que ela não é a única que pretende buscar novos ares. Ao tentar se desconectar, na verdade se viu capaz de fazer novas conexões ainda mais fortes.

Dona Odete está com o filho em uma das outras barracas do camping. Seu turbante dá mostras de seu estado, mas ela trata de confirmar em segredo à garota: está em fase terminal de câncer. Por isso quer curtir tudo o que pode enquanto ainda há tempo. Afinal, nossa vida é muito preciosa para ser desperdiçada em momentos que não nos trazem satisfação. Qualquer problema, grande ou pequeno, não pode se tornar empecilho para fazermos aquilo que realmente queremos.

Bruno é certamente o mais obscuro. Havia deixado a esposa e as filhas recentemente e andava atrás de uma nova vida. Em suas palavras o motivo para a separação seria a traição da mulher viralizada por meio de um vídeo íntimo, mas certas evidências colocam à prova tudo o que o rapaz diz.

E Caetano talvez se sinta ainda mais perdido do que Isabela. Criado pelo pai, hoje faz bicos de cidade em cidade para descobrir o paradeiro de sua mãe, rejeitada pela família por ser uma garota de programa. Uma nova pista o leva a ter esperança de encontrá-la entre os habitantes de Trindade. Contudo, Caetano sabe que um novo insucesso na cidade significa somente que sua busca ainda continua. Uma busca que, admite, pode nunca se concretizar. Mas pelo menos não deixou de tentar. Ninguém pode afirmar que alcançará um novo continente, mas decerto não terá deixado de navegar.

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As histórias se cruzam na mesma vila calma e pacata. E Isabela está disposta a auxiliar no que for preciso. Fará companhia a Caetano, quebrará a cabeça para decifrar o novo mistério em que Bruno está envolvido. Mas tudo de forma muito leve, sem carregar pesos maiores do que pode suportar. De qualquer forma o mar ainda está ali, fazendo um irresistível convite aos espíritos cansados para dançarem livremente pelas suas águas claras.

E mesmo que o retorno a São Paulo seja inevitável, Isabela já não o encara da mesma forma. Mesmo longe do litoral, sente-se plenamente revigorada para encarar a selva de pedra com um novo coração acalentado pelo doce balanço e marulhar das ondas.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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