questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

O Pinheiro e a Semente da Discórdia

Sempre inerte. Preso. Impassível.
Quando a natureza lhe dá raízes que o fincam à terra não há muito para onde correr.
É um grande desafio para os vegetais assistirem calados às calamidades que os cercam.
Mas é no tronco de um desses pinheiros aflitos que a história da Floresta Caduca permanecerá para sempre gravada.


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A natureza é viva. Ainda assim, será que uma floresta pode perceber que o equilíbrio ao seu redor se encontra sob ameaça? E, caso perceba, ela pode tomar alguma atitude para evitar esse risco? Não só pode como deve.

As árvores possuem suma importância tanto na percepção quanto na tomada de decisão da floresta mesmo sem conseguirem sair do lugar. As intensas comunicações e conexões que possuem por meio das raízes no subsolo e do pólen nos ares permitem uma constante troca de informações preciosas a respeito de predadores próximos. O maior problema é quando os próprios vegetais são afetados de tal forma que perdem totalmente a capacidade de se comunicarem entre si... É sobre esse colapso ambiental que se trata o livro “O Pinheiro e a Semente da Discórdia”, de Leandro Dupré Cardoso.

“Queria gritar, mas a densidade daquela penetrante atmosfera sufocava o levante de qualquer rebelde ruído. Queria lutar, mas o adversário era abstrato demais para ser identificado e muito menos atingido. Queria fugir, mas não tinha pernas também.” (pág. 80)

Esse era o dilema do Pinheiro Falastrão. Antigo habitante da Floresta Caduca, a árvore nota como a mata inteira parece estranhamente alienada, totalmente fora de si: plantas que não se conversam e nem se preocupam com o bem-estar do ecossistema, animais perdidos que se atacam uns aos outros sem a menor diligência. O Pinheiro Falastrão sente que precisa fazer algo para reverter esse caos.

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Envia energias vitais que reativem o senso de comunidade aos vegetais e animais mais próximos. Busca estabelecer contato com novas plantas e bichos. Contudo, a mensagem dita se perde se não existe vontade de escutá-la. E, apesar de mandar estímulos que incentivassem a mudança, os habitantes da Floresta Caduca só modificariam seus estilos de vida se realmente o desejassem internamente.

Não que a estratégia tenha deixado de gerar frutos: o Pica-pau Persistente e o Esquilo Peralta foram ótimos exemplos de progresso rumo ao debate do modo de vida pela mata. Só que isso não foi o bastante para evitar o avanço da alienação exploratória praticada pela espécie que se gabava de ser a mais inteligente e evoluída da Floresta Caduca: os castores, apelidados nem tão carinhosamente pelo Pinheiro Falastrão como “dentuços”.

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Os dentuços provocam uma explosão intensa de sentimentos: derrubam árvores para edificarem construções. Arruínam os vegetais para permitirem o progresso da própria ciência.

Os avanços são nítidos. Surge a cidade de Cástria, símbolo da civilização e dominação sobre a mata primitiva. É erguido o Castório, onde os demais animais podem venerar e agradecer aos ilustres dentuços por terem trazido luz e bênçãos para suas existências. Por sua vez, os castores se refestelam com as doações e sacrifícios realizados por seus súditos cada vez mais fiéis.

Até que houve a surpresa. A enorme insatisfação ao verificarem que chegava uma nova espécie interessada em lhes tomar as rédeas da Floresta Caduca: os humanos. Observando a quantidade de árvores propícias na região, os seres humanos constroem a Fábrica Branca no coração da mata para realizarem a produção de papel e celulose. Só que havia espaço para apenas um grande grupo abatedor de árvores por ali.

A guerra estava anunciada. Castores e humanos estavam destinados a combater pela soberania da Floresta Caduca. E a única certeza é que a ambição das duas espécies será a responsável por desnecessárias mortes causadas por mero orgulho.

Entre o fogo cruzado, restará ao Pinheiro Falastrão manter o seu tronco de pé para que possa contar essa história até o seu final.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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