questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

O olho do monstro

A palavra "monstro" veio do latim "monstrum". Que por sua vez é derivada do verbo "monstrare", similar ao "mostrar" do português.
Assim, um monstro nada mais seria do que "aquilo que é mostrado, sinal, advertência". Só isso. Não há nada na origem da palavra relativo a algo necessariamente maligno ou perigoso. Trata-se apenas de uma demonstração da mais pura verdade. E ela dói... É essa realidade dura e difícil de engolir que faz com que vejamos um monstro como um inimigo a ser destruído. Ou pelo menos a ser varrido para baixo do tapete bem depressa...


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Encarar a realidade causa espanto. Apesar de necessário, isso nos horroriza.

Já conta a lenda que a Verdade e a Mentira saíram certo dia para nadar num lago. Assim, a Mentira pôde se apossar das roupas da Verdade para enganar as pessoas com sua identidade mascarada. Enquanto isso, a Verdade, nua e crua, tornou-se fonte de eterno escândalo.

O que uma continuação alternativa nos conta é a forma que a Verdade encontrou para amenizar a sua imagem: simplesmente se vestir com as roupas da Mentira. Apenas poucos que não se deixam levar pelas aparências percebem o valor daquela alma cristalina. A realidade por trás da fantasia.

É a partir disso que a ficção científica imagina cenários exóticos para questionar a vivência de nossa própria sociedade. E é dessa forma que os contos fantásticos do livro “O olho do monstro”, de Melissa Barbosa, faz enredos oníricos criticarem os problemas mais que presentes em nossos dias.

Tinha de me cobrir dos pés à cabeça para não levantar suspeitas. Sempre fui pequena e, com a roupa e os óculos certos, podia me passar por uma nativa deste planeta. Mesmo assim, precisava ser muito discreta e nunca, nunca deixar que vissem meus cabelos castanhos. As pessoas daqui têm cabelos verde-escuros ou azuis.” (pág. 61-2)

Não há período para descanso. E muito menos para explicações: como nas histórias de José Saramago, não importam as razões que originam alguma estranha catástrofe. Realmente dignos de nota são os comportamentos humanos que surgem frente a essas novas adversidades. Qual a reação geral? Até que ponto a própria sobrevivência fala mais alto? Até que ponto as regras que regem uma sociedade “normal” continuam valendo?

Fato é que o mundo se transforma rapidamente. Ou você se transforma junto ou acaba transformado por ele.

O conto que dá título ao livro já faz com que uma mera uva verde traga reminiscências de um pesadelo que se prefere esquecer. O incômodo renascido está de volta para atormentar a nossa tentativa de levar uma vida comum.

Tentativa.

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Nos demais contos o mundo também sempre trata de jogar tudo de pernas para o ar. Uma hora lidamos com as travessuras de duendes invisíveis, passamos a vislumbrar o nosso futuro em paredes mágicas, tentamos sobreviver em planetas hostis à nossa espécie, provamos o sabor do elixir da vida eterna.

Em outra hora simplesmente acordamos sem saber quem somos. E quaisquer pistas a respeito parecem memórias que se misturam com as de outras pessoas com a mesma angústia. Eu me vejo no outro, o outro me vê em mim. Nós não nos vemos em ninguém.

A nossa rotina nos preenche de tal forma que não percebemos. O nosso sistema nos aliena de tal forma que nem sonhamos. O cronometrado cotidiano se torna uma ilha rasa rodeada por um oceano de caos borbulhante.

A insustentável leveza da normalidade.

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“O olho do monstro” envereda por temáticas diversas, do misticismo ao apocalipse zumbi, para nos fazer repensar ideias acerca da igualdade, justiça e preconceitos. Simplesmente salienta que precisamos reconstruir o nosso modelo doente de sociedade.

Essa é a mensagem que a Verdade tanto pretende nos passar sob seus disfarces. E, assim como a Verdade, o livro nos permite esse aprendizado de maneira nua e crua: por meio de múltiplos socos no estômago.


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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