questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

O vírus da discórdia

Além de higienizar o corpo, é essencial limpar a mente de preconceitos aflorados por conta do medo que possuímos frente a cenários adversos.


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É assim desde o princípio: o desconhecido gera medo. O ser humano primitivo tinha mais medo do escuro, das matas cerradas, dos lagos profundos. Estas eram as situações em que se sentia mais vulnerável às feras e por isso a maioria dos monstros do imaginário popular moram em lugares de pouca luz ou de difícil acesso. E quando sentimos medo, o nosso instinto de sobrevivência não vê muitas opções: é questão de lutar ou fugir.

Apesar de muito ainda ter passado hereditariamente, hoje em dia vários desses medos arrefeceram. A urbanização permitiu a criação de espaços protegidos do mundo selvagem que nos cerca. As áreas verdes são cuidadas de modo que nenhuma ameaça ao bem-estar humano possa surgir dali, as dedetizações afastaram as pragas do nosso convívio. A tecnologia nos capacitou a explorar regiões inóspitas e a conhecer os terrenos onde antes imaginávamos seres fantásticos. Em compensação, criamos novos medos com algo que está muito mais próximo do nosso cotidiano: o próprio ser humano.

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Pelas metrópoles o medo que predomina é do mal causado pelo próximo. A violência faz com que o outro se torne fator de desconfiança, uma potencial ameaça maior do que qualquer monstro do lago. O que alimentou o preconceito e a discriminação com a criação de estereótipos que definem os perfis mais ou menos “suspeitos”. O medo nos desuniu, solapou as nossas relações. Atualmente ele faz com que percamos gradualmente a característica gregária da espécie.

O homem é o lobo do homem, dizia Thomas Hobbes. Porém, como citado acima, a violência é apenas uma das facetas desse mal causado pelo próximo que realmente nos assusta. Outra faceta é a das doenças.

O instinto de sobrevivência é irracional e, se deixado aflorar sem filtros, destruirá qualquer representação associada à doença. Foi assim que vários macacos foram caçados e mortos durante o surto de febre amarela mesmo que fossem simplesmente sinais de alerta para o avanço do Aedes aegypti. É a torta decisão de se matar o mensageiro. Que ao ser aplicada para hospedeiros humanos não é muito diferente. Pode ser que não haja morte, mas certamente há exclusão. Pode não haver luta, mas não deixa de haver fuga.

Isso ocorre desde a antiguidade quando as pessoas com hanseníase, ainda conhecida como lepra, eram enviadas a leprosários para viverem reclusas ou então viviam errantes pelas ruas a pedirem esmolas em sacos amarrados nas pontas de longas varas para evitarem qualquer contato, além de serem proibidos de entrarem nas igrejas e carregarem sinos para anunciarem sua presença. Será que isso mudou muito hoje?

No Brasil, a política de internação compulsória em leprosários só deixou de ser regra em 1962 mesmo que a doença já tivesse sido inicialmente mapeada desde 1873. E ainda assim o preconceito se mantém devido à desinformação e à associação da doença a determinado “perfil”. A hanseníase agravou a discriminação contra os mais pobres pelo fato de se disseminar entre as regiões com piores condições sanitárias. Assim como o ebola aumentou o preconceito contra os negros por ter o seu epicentro na África. E assim como agora os asiáticos são discriminados pelo fato do coronavírus ser originário da China.

As pessoas têm um novo medo. E um novo mensageiro para utilizarem como alvo: multiplicam-se relatos de ofensas contra o povo chinês e contra descendentes que podem nunca ter pisado em solo asiático. Na Itália, um bar proibiu a entrada de chineses e em muitos outros locais as pessoas estão recusando serem atendidas por empregados asiáticos.

Tudo isso é praticado contra aqueles que não possuem nem suspeita de possuírem o vírus. Pois, independente da ascendência, as pessoas efetivamente contaminadas com o coronavírus vêm sofrendo constantes ataques pelo mundo como se também fossem culpadas por espalhar a doença. E essas visões tortas auxiliam a difundir cada vez mais pânico insensato.

Curar uma doença viral é perfeitamente possível. Vacinas já estão sendo estudadas e quando bem testadas ficarão disponíveis à população. Uma hora ou outra o surto de coronavírus irá passar. Mas e o preconceito? A chegada de um surto futuro de uma doença ainda desconhecida tende a apresentar os mesmo erros do passado e do presente ao culpar vítimas e acusar mensageiros por conta de fake news intolerantes ao invés de atacar a raiz do problema.

O medo nos isola. A empatia nos une e nos fortalece.

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Estamos todos no mesmo barco. Estamos passando por isso juntos e só venceremos juntos também. Os males são passageiros, mas a conexão que fazemos um com o outro é eterna ainda que extrafísica. A verdadeira doença da discriminação só poderá ser resolvida se o próximo deixar de gerar temor e inspirar a nossa sincera empatia.

Pois com todas as suas diferenças ele também é um ser humano, também é um ser vivo cheio de sonhos que merece respeito e acolhimento. O benefício mútuo sempre vale mais a pena para todos. Foi esta a vantagem que salvou a nossa espécie das feras primitivas e permitiu que nos multiplicássemos. E é o resgate desse ideal gregário que nos permitirá continuar evoluindo.

Somos todos um.

Fontes:

https://istoe.com.br/chineses-sofrem-xenofobia-na-italiavoces-tem-coronavirus/

http://www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1182&sid=7

https://exame.abril.com.br/mundo/ebola-deixa-rastro-de-tristeza-e-preconceito-na-liberia/


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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