questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

Fronteiras da Soberania

Até que ponto a espécie dominante pode reinar sobre as leis naturais às quais deveria estar sujeita? O ser humano tornou-se perito em inverter os papéis da sobrevivência ao adaptar o meio às suas próprias necessidades. Uma habilidade invejável. Tanto quanto perigosa: nosso trono muitas vezes é tão confortável que nem percebemos a fragilidade do castelo que o protege...


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Os tempos de isolamento nos permitem obter momentos de pausa para refletir. Repensar o nosso acelerado modo de vida. Reavaliar as prioridades sobre aquilo que realmente vale a pena. Mas um dos principais legados desse período provavelmente será a percepção de que até o todo-poderoso ser humano tem limites.

Foi assim também no mito grego de Belerofonte. Este era um jovem forte e impetuoso que havia matado um homem e injustamente acusado de cortejar a mulher de um rei local. De qualquer forma estava condenado. Porém, em de vez de ser simplesmente morto, Belerofonte foi enviado para uma missão tão perigosa da qual certamente não voltaria vivo. Ele devia matar a Quimera, monstro com cabeça de leão e corpo de cabra que devorava o gado da região.

Para cumprir tal feito, Belerofonte contava com seu principal aliado: o cavalo alado Pégaso, o qual havia sido domado com rédeas de ouro oferecidas pela deusa Atena em decorrência da devoção aos deuses que o rapaz apresentava. E foi assim que, numa batalha rápida, Belerofonte soltou uma flecha que matou a Quimera logo na primeira tentativa.

Foi o início de uma dupla que se mostrava imbatível. Com todos indignados que ambos tenham retornado com sucesso da viagem, Belerofonte e Pégaso foram mandados para enfrentar sozinhos a tribo dos Solimi, depois para derrotar um grande grupo de amazonas. Nem mesmo uma emboscada para matar os dois funcionou e Belerofonte deixou todos os adversários mortos pelo caminho.

Sua fama se espalhou. E seu orgulho transbordou. Depois de tantas conquistas primorosas, Belerofonte viu-se digno de ir até o Olimpo e sentar-se à mesa com os demais deuses. Contudo, Zeus enfezou-se ao ver o jovem cruzar o céu para esse intento. Mas não jogou nenhum raio, nenhum fogo caiu do céu. Lançou contra Belerofonte simplesmente uma... vespa. Uma mera vespa que picou Pégaso e fez o cavalo se agitar tanto que derrubou o rapaz em pleno voo. Estava terminada a sequência de vitórias de Belerofonte em razão de sua soberba final.

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O ser humano aprendeu a voar sem asas. Aprendeu a ir ao espaço mesmo precisando de oxigênio. E ainda assim um organismo muito menor que uma vespa é capaz de demonstrar toda a vulnerabilidade que a espécie pode possuir.

Em realidade a nossa história sempre demonstrou isso. Com capacidade de defesa ínfima perante fatais predadores, fomos altamente sujeitos a uma extinção próxima. E conseguimos vencer esse desafio por meio do comportamento gregário e do desenvolvimento da racionalidade.

A Terra se povoou. A tecnologia se difundiu para demarcar o avanço humano. Sonhamos com os confins do universo. Entretanto, o potencial das nossas forças não pode nos iludir quanto ao reconhecimento de nossas fraquezas. Pois ainda somos de carne e osso. Temos prazo de validade.

Admitir os próprios limites é o sinal do reinício. É o autoconhecimento mais aprofundado que solidificará as nossas ações diante de desafios futuros. A dura lição que nos permite uma efetiva evolução.

O que se torna o momento ideal para analisar as nossas prioridades cotidianas, nossos hábitos de consumo. Perceber que nosso modelo de vida não se sustenta. Que consumimos recursos naturais mais rapidamente do que a Terra pode repor. Produzimos lixo a um ritmo mais acelerado que o crescimento da população. Não somos só nós que temos limites, a natureza também.

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Teremos mais uma chance para recomeçar de uma maneira mais equilibrada entre as partes. Pois, de qualquer forma, a mudança é irreversível. Nada mais será como antes. E isso é ótimo.

Belerofonte decaiu por achar que poderia se tornar um ser supremo. Porém, bem diferente de supremos, somos seres que se superam. Que apesar de tudo superaram adversidades e continuam a superá-las como forma de garantir a sua existência.

A reclusão da caverna nos faz ansiar pela luz qual um ovo ansioso por chocar. E a libertação que almejamos virá no momento em que realmente conhecermos os limites da nossa espécie e do meio que nos rodeia.

Pois é a compreensão das nossas fraquezas que nos torna mais fortes.

Fontes:

https://deuseseherois.webnode.com.br/products/belerofonte/

https://www12.senado.leg.br/emdiscussao/edicoes/residuos-solidos/mundo-rumo-a-4-bilhoes-de-toneladas-por-ano

https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-08/consumo-de-recursos-naturais-superou-que-o-planeta-pode-renovar-no-ano


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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