questionando histórias

Pois quem nos move são as nossas perguntas

Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo.

As sombras no cantinho da bagunça

Enquanto você não vê, as sombras se expandem.
Varrer para debaixo do tapete não vai mais adiantar. Apenas oculta o crescimento da poeira que se multiplica, toma forma. Até que essa vida de obscuridade não irá lhe bastar.
A criatura esquecida também deseja o seu lugar. E irá prestar contas com o seu criador caso não seja assimilada desde cedo.


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Você sabe do que estou falando.

Mesmo as casas mais impecáveis, em brilho, sem poeira, costumam ter algum quarto ou pelo menos algum canto para depositar os objetos que não se encaixam bem no restante do lugar ou cujo destino ainda é incerto. De qualquer forma, tratam-se de utensílios com função tão pouco usual ou duvidosa que é melhor ficarem escondidos para não comprometerem a imagem dos anfitriões perante as visitas.

Assim, o trecho “visitável” causa admiração por todo o zelo empenhado para deixar o ambiente aprazível a quem quiser entrar. Enquanto isso, o trecho “não visitável” acumula sujeira, mofo e esquecimento. Ele pede socorro, mas preferimos não ouvir.

Para quê remexer o pó que ninguém irá perceber se podemos simplesmente fazer brilhar ainda mais os cômodos que são realmente objetos de reparo? O trecho claro se tornará uma bênção, mas o trecho escuro virará um monstro. O céu e o inferno dentro da mesma casa.

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A nossa mente também funciona com uma lógica semelhante ao quartinho da bagunça: exposta ao mundo está a persona que, para ser aceita no meio social, exibe uma imagem agradável e de sucesso ao passo que os conflitos e perturbações, os “pesos da consciência” são deixados à parte como se não existissem.

Só que nós somos inteiros: nem claros, nem escuros, mas humanos. É preciso cuidar de todos os cantos da casa ou da mente para uma vida realmente saudável. A limpeza geral é essencial.

Tão essencial que até possui um paralelo na mitologia grega, mais especificamente na história de Hércules.

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No cumprimento de seus doze trabalhos, o herói teve de matar ou capturar várias criaturas tão perigosas que se acreditava que nenhum ser humano poderia fazê-lo. No entanto, talvez o mais curioso dos seus trabalhos não envolvia enfrentar monstros ou criaturas místicas. Hércules, precisava, simplesmente, limpar os estábulos de Áugias, o rei de Élis.

Élis era uma região muito abastada. Plena de terras fartas, teve a agricultura e a criação de gado como propulsores de seu progresso.

Porém, ao passo que a cidade acumulava fama e riquezas, também crescia um grave problema: a terra era tão boa que nunca precisou ser adubada. Assim, os seus habitantes nunca se preocuparam em aproveitar o esterco de seus animais para as plantações, deixando-o de lado.

Após alguns séculos com esse hábito, a cidade enriqueceu ainda mais. Entretanto, a quantidade de esterco acumulada era colossal. As montanhas de fezes causavam doenças, começaram a espalhar gases mortais pela população. Só que ninguém tinha coragem de mexer naquilo.

Economicamente o lugar progredia, por que sujarem suas mãos para se afundar naquela imundície? Afinal, era um trabalho que demoraria séculos para ser revertido. E Hércules teve a incumbência de limpar, sozinho, esses estábulos em apenas um dia.

Conhecido pela sua força, Hércules teve que desafiar sua inteligência: nem mesmo ele conseguiria fazer tamanha tarefa nesse tempo. Era uma mudança drástica, precisava proporcionar uma faxina revolucionária, gigantesca. Gigante como os dois rios que passavam pela cidade: o herói teve a ideia de deslocar suas águas de fortes correntezas na direção das propriedades do rei Áugias.

Então, Hércules movimentou grandes rochas para os leitos dos rios. Em poucas horas, foi capaz de desviar os seus cursos rumo aos estábulos do monarca, fazendo o esterco fluir pelas águas que lavaram a cidade por completo.

O ato de limpar estábulos, muitas vezes renegado e visto como inferior, foi equiparado à mesma categoria dos demais trabalhos de Hércules. A podridão era tão ameaçadora que causava mortes assim como um verdadeiro monstro. Por isso, lavar a alma das impurezas pode ser tão ou mais relevante do que matar um leão por dia.

Não esconda os seus estábulos ou quartinhos de bagunça. Antes de tudo, aceite-os. São uma ótima oportunidade para separar as coisas que lhe são de utilidade ou não.

Selecione e cuide. Faz parte da sua casa, faz parte de você.

Todos temos nossas partes claras e nossas partes escuras. Contudo, cabe a nós cuidarmos dos nossos jardins internos e externos para que nenhum monstro resolva ganhar corpo em meio ao descaso.

Fontes:

https://mitologiahelenica.wordpress.com/2015/03/01/vi-o-estabulo-de-augias/ https://leveconsciencia.com.br/limpando-os-estabulos-de-augias/


Leandro Dupré Cardoso

Se você leu até o final eu lhe agradeço. É um bom sinal cujo real caminho desconheço. Mas espero que, afinal, ele te leve a um novo começo. .
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