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Você precisa ir além dos seus conceitos pra sair vivo do buraco

Angel Glória

mergulha no mundo abastado da escrita e atreve-se a opinar sobre tudo que é assunto, ainda que não tenha base suficiente em quase nenhum deles.

Chico Buarque, canções feministas e novas ideologias

Que Chico Buarque sempre manteve na maioria de suas músicas uma certa linearidade em temáticas femininas não é novidade para ninguém. Podemos esfolhear suas letras mais a fundo para entender um pouco melhor de que forma isso ocorreu. Seria de Holanda um feminista genial ou um machista reforçando seu ponto de vista superior às mulheres?


Para mostrar a realidade que muitas mulheres viviam logo depois da descoberta da pílula anticoncepcional e do aumento da entrada de mulheres na universidade, o que influenciou diretamente no aumento da mulher no mercado de trabalho, Chico preferiu escrever estando em peles femininas.

Ainda assim, ao lançamento de sua música "Mulheres de Atenas", que fazia referência às mulheres da Grécia, sempre submissas e felizes em similaridade ao que acontecia no Brasil, o cantor foi duramente criticado por movimentos feministas da época que interpretaram a canção como apologia a uma ideologia errada da mulher.

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"Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas Vivem pros seus maridos Orgulho e raça de Atenas

(...)

As jovens viúvas marcadas E as gestantes abandonadas Não fazem cenas Vestem-se de negro, se encolhem Se conformam e se recolhem Às suas novenas Serenas"

Trecho de "Mulheres de Atenas" - Chico Buarque

Talvez, se cantasse os horrores que as mulheres sofriam como eu lírico real, masculino, fosse ainda mais mal interpretado, como alguns cantores "revelação" da atualidade.

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Emicida, por exemplo, recentemente lançou a música "Trepadeira", onde fala das mulheres que apanham ou sofrem agressões mais que verbais quando traem ou não correspondem a idealização feita por seus companheiros. Assim como Chico, o rapper pode ter tido a intenção de relatar a realidade dessas vítimas do machismo em pleno século XXI, mas em grupos de debates feministas e musicais o cantor anda sofrendo forte retaliação.

"Chamei de banquete era fim de feira, estendi tapete mas ela é rueira. Dei todo amor, tratei como flor, mas no fim era uma trepadeira.

(...)

Merece era uma surra de espada de São Jorge, um chá de comigo ninguém pode."

Trecho de "Trepadeira" - Emicida

Mas por que diabos relatar o sofrimento da mulher?

Não só por desencargo de consciência ou pura gentileza visceral são escritas as letras por aí. No caso do Chico, que estourou no período da Tropicália onde eram frequentes os músicos que interpretavam canções de descontentamento com a política vigente e protesto (onde ele também tem presença marcante), era essencial que o cantor tivesse também um outro nicho.

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Um nicho romântico, um nicho subjetivo, que alcançasse um público diferente. E esse público foi encontrado na mulher, nos seus destrates e que mereciam a grande representação. Buarque é, desde sempre, cronista, contador de história, é sentimental. Teve a faca e o queijo na mão para mostrar como a mulher brasileira/carioca era tratada nas décadas passadas e usou isso mais do que bem.

Apoiando ou ridicularizando esses atos machistas, a música sempre influencia o ser humano, em geral, nas suas ações e forma de se comportar perante a sociedade. Nessa nova era, cada música gravada e publicada em vídeo é rapidamente compartilhada e multiplicada nas teias de todas as redes sociais e podem ter um alcance monstruoso.

Outros Chicos hão de surgir. Alguns Emicidas também. Novas ideologias, éticas ou não, estão sendo difundidas a todo o momento. A consciência e atenção do ser humano é o que faz com que ele propague essas ideologias ou as rejeite. É preciso cuidado.


Angel Glória

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