quimera

Sem leão, cabra ou serpente

Ricardo Burgos

é ator, dançarino, redator no Conexão Mundo e integrante do grupo musical Dzi Croquettes.

Mais um motivo para se apaixonar por Woody Allen

Os livros do Woody Allen são tão bons quanto seus roteiros, e se você ainda não os leu, recomendo que leia, pois você terá um novo olhar sobre seus filmes depois que entender a sua escrita. Eu digo isso, porque tudo aquilo que define a personalidade de Allen fica muito mais claro em seus livros. No filme você pode perder uma coisa ou outra, e na verdade dá preguiça ter de “rebobinar a fita” pra buscar uma pista que ficou pra trás, mas no livro não, ele está ali, na sua frente, nu. Agora deixe-o na sua cabeceira, então leia e releia, quantas vezes quiser.


ATENÇÃO! O conteúdo pode conter spoilers (dependendo do que você considere ser um spoiler)

Um dia desses, após assistir a “Meia Noite em Paris, lembrei de algo que me deixou intrigado – um fato interessante aos apaixonados - Dentro do livro "Que Loucura!", escrito por Allen, há um conto que se chama "O Caso Kugelmass".

Trata-se de uma estória sobre um professor de literatura da Universidade de Nova York, chamado Kugelmass, que se encontra sufocado na mesmice de sua vida. Um dia ele recebe uma misteriosa ligação de um mágico, que diz ter em seu poder um armário, que o leva para dentro de qualquer livro - e sem dúvidas é bastante tentador deitar-se com as maiores personagens femininas da literatura. Sendo assim, Kugelmass escolheu ninguém menos do que Madame Bovary. Passou dias e mais dias de romance com Emma Bovary, e assim ele dividia o seu tempo entre suas aulas e tardes românticas em Yonville, enquanto alunos de literatura em todas as universidades do país perguntavam aos seus professores "Quem é esse judeu careca que entrou na história por volta da página 100 e já foi beijando Madame Bovary?".

No momento em que terminei de ler o conto, o armário mágico de Kugelmass e o clássico Peugeot de Gil Pender pareciam se encaixar.

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Vamos ao filme. Gil Pender é um roteirista bem sucedido em Hollywood, casado, que também se encontra numa vida chata e rotineira. Acontece que tanto Gil quanto Kugelmass, além de dividirem a paixão por literatura, estão sedentos por um affair. Tudo bem, vamos colocar um pouco de romance – Paris, uma cidade que está para l’amour assim como Los Angeles está para shoppings.

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Todos os dias, perto do Panthéon, a meia noite, Gil senta numa escadaria e aguarda um Peugeot antigo, que lhe dá uma "carona" à Paris dos anos 20. Lá ele conhece Picasso, Salvador Dalí, Hemingway, entre tantos outros. E passa a ter um caso com Adriana (uma personagem fictícia). E assim ele fica por dias, dividindo seu tempo entre episódios entediantes na companhia de sua esposa e madrugadas com grandes artistas. Gil não para de repetir a si mesmo tudo o que está acontecendo, para verificar se não passa de um sonho - da mesma forma que Kugelmass pensa "Meu Deus, estou trepando com Madame Bovary!".

Numa de suas voltas à realidade, Gil encontra o diário de Adriana em um sebo, e pede para a guia do museu traduzi-lo. Sim, Gil é citado misteriosamente no diário, que fora escrito nos anos 20, da mesma forma em que no conto escrito por Woody Allen, Kugelmass passa a ser notado, por fazer um verdadeiro rebuliço na obra de Flaubert.

Agora repare que Woody escreveu “Que Loucura!” entre 1975 e 1980, e muita gente passou despercebida por esse conto, que pode ter sido a sementinha que um dia floresceu "Meia Noite em Paris".

Cai o pano.

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Ricardo Burgos

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