quimera

Sem leão, cabra ou serpente

Ricardo Burgos

é ator, dançarino, redator no Conexão Mundo e integrante do grupo musical Dzi Croquettes.

Quando há inveja

Uma boa parte do meu tempo é dedicada à inveja, esta, direcionada às tardes de Itapoã, às ladeiras da Jardim Paulista e à beleza do Arpoador.


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Não sou, nunca fui e me parece que nunca serei uma dessas pessoas que possuem álbuns de fotografia, que guardam, com carinho, artigos de jornais, glórias de outrora e cartas de amor. Mas não é por falta de vontade, eu as invejo. E é pelo simples fato de não ter sido virtuoso o bastante para guardar um trevo de quatro folhas dentro do meu diário - de não ter tido um diário - e por não ter feito uma cápsula do tempo aos dez anos de idade.

Na maioria das vezes, invejo os que passam anos estudando e se formam em universidades de prestígio; os que tem mestrado e doutorado; os que formam famílias; os que passam anos apaixonados e os que se apaixonam diversas vezes; os que colecionam vinis e os exibem em suas vitrolas; os que tocam instrumentos e os que cantam; os que dançam; os que escrevem livros, poesias e roteiros de cinema; os que possuem relógios de pêndulo e obras de arte; os que calçam seus mocassins vermelhos, verdes e azuis; os que já assistiram a mais filmes do que se podem lembrar; os que leram mais livros do que toda a universidade de Yale e os que, inclusive, possuem bibliotecas maiores do que a do Congresso.

Sim, sinto inveja, que mal há nisso? Sinto porque gostaria de tomar café no Upper East Side três vezes ao ano; de entrar e sair das pâtisseries do 5º arrondissement; de velejar no Mar Egeu a cada verão; de tomar sorvete de creme todos os dias e de ir à Lucca toda primavera. Gostaria de fotografar mulheres nuas, silhuetas no Porto da Barra e minhas amantes na luz da alvorada - gostaria, também, de ter amantes - de discutir política com propriedade; de entender os discursos políticos; de entender economia.

Sinto ainda mais inveja dos que sabem de tudo; dos que amam assistir ao pôr-do-sol; dos que caminham todos os dias na praia; dos que remam de manhã cedo na lagoa; dos que fazem yoga e meditam; dos que possuem coberturas, duplex e triplex; dos que fazem festas e tem muitos amigos. Invejo os que passeiam com seus bulldogs franceses; os tatuados, os que tatuam e os que vivem em São Francisco; os que tem disciplina; os que leram toda a obra de T.S Eliot, assistiram à todos os filmes do Woody Allen e cantam todas as canções de Chico Buarque; os sarados de Ipanema e os jogadores de futevôlei; os que abandonam seus empregos e viajam o pelo mundo. Invejo os que sempre citam Sartre em momentos oportunos; os que saem do armário e os que ficam lá dentro; os amantes nas praças e nas mesas de bares; os vegetarianos, veganos e os que comem carnes sem remorsos.

Invejo também os que trepam; os que gozam; os que se molham na chuva; as pedras que se movem no Vale da Morte; os deuses do Olimpo; os felizes; os sadios; os solitários; os psicanalistas; os cultos; os fanfarrões; os inteligentes; os burros; os cabelos grisalhos; a juventude; os monges tibetanos; os yuppies e os hippies.

Eu me invejo, te invejo e invejo quem não tem inveja.


Ricardo Burgos

é ator, dançarino, redator no Conexão Mundo e integrante do grupo musical Dzi Croquettes..
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