quimera

Sem leão, cabra ou serpente

Ricardo Burgos

é ator, dançarino, redator no Conexão Mundo e integrante do grupo musical Dzi Croquettes.

Amor Banalizado

Vamos banalizar o amor, para que a gente possa ser livre, testar encontros, experimentar, nos conhecer, errar, acertar, errar de novo e vivê-lo. Que é melhor que não vivê-lo.


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Numa recente discussão com uma grande amiga minha (a última das românticas) veio à tona, trazido por ela, o termo “amor banalizado”.

Em defesa de sua afirmação, vieram argumentos como a pouca durabilidade das relações, os casamentos efêmeros, a falta de compromisso e o amor descartável. Apesar da presença de veracidade em todos os tópicos citados, não consegui concordar.

O que é a “banalização do amor”? Não seria uma notícia maravilhosa a que “o amor foi banalizado”?? Não no sentido literal do dicionário (frivolidade, futilidade, trivialidade, vulgaridade), mas no sentido de uso absoluto, desgastado, usado, abusado, aproveitado, não importa o quanto tempo dure. Amor. Simples assim. Para todos.

A liberdade que nós (mulheres) e todos conquistamos no século XXI (mesmo no século XX) deve ser aproveitada. Hoje é inimaginável pensar minha família decidindo meu futuro; meu marido ser escolhido através de acordos profissionais/financeiros com meu pai; casar virgem; casar com um homem que não amo e não escolhi, que não conheço. Inimaginável pensar em um mundo sem divórcios. Sem o direito da separação. Do recomeço.

E apesar do apelo intolerante dos que lutam pela “moral e família” estar novamente ganhando espaço por aí (pasmo!); existe algo mais libertador, defensável e bonito do que casar por amor?

Atualmente, por conta destas conquistas (e vitórias) da nossa sociedade, casar é a maior prova de amor. Casar por opção, por escolha, por decisão própria dos envolvidos. Isso porque nem vou entrar na pauta “o que é casar?”, pois considero um casamento o simples fato de morar junto com alguém, dividir rotina e outras cositas más (quem vai falar que não é? Alô? Jesus??).

Mesmo o amor sendo fundamental numa relação (e esse texto nem de longe flerta com o romantismo idealizado), não é só disso que vive uma relação. E justamente por conta destes mil fatores que envolvem e causam as separações (não preciso citá-los), temos que ter o direito de desistir. De não sentir mais. De querer recomeçar. De entender o valor de um juramento (mesmo diante de um padre), respeitar e poder mudar de ideia. A gente jura enquanto quer, acredita, sente e deseja. Não é verdade? Não é porque mudou de ideia que necessariamente o juramento do passado vira mentira.

Quem inventou essa crueldade de não poder mudar de ideia? Para que ser “pra sempre” forçando barra, sem sentimento e até muitas vezes com sentimentos horríveis em relação ao parceiro? Até o fofo do Bolsonaro tá no terceiro casamento (um beijo pra hipocrisia).

O que quero dizer com isso é que respeito as minhas renúncias assim como respeito as minhas escolhas. Escolho não viver num mundo de acertos cobrados. Cobrança de acertar de primeira? Arght!

Samuel Beckett disse melhor que eu (em outro contexto):

“Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor.”

Vamos banalizar o amor, para que a gente possa ser livre, testar encontros, experimentar, nos conhecer, errar, acertar, errar de novo e vivê-lo. Que é melhor que não vivê-lo.

Love for sale.

Escrito por minha prima querida, Bel Sangirardi.


Ricardo Burgos

é ator, dançarino, redator no Conexão Mundo e integrante do grupo musical Dzi Croquettes..
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