raciocínio paralelo

Uma realidade de percepções sutilmente anômalas

Leonardo Barden

Apesar de tudo, e mesmo assim, afastando-se sorrateiramente da normalidade rumo aos antípodas da mente.

Hermann Hesse: a busca pelo autoconhecimento diante das restrições sociais

Sobreviver a uma existência mecânica e despersonalizada sem aprofundar-se nos precipícios das inexploradas percepções mentais, parece soar como uma derrota ante as perspectivas da vida. Foi assim, atraído pelos mistérios do descobrimento da real situação humana, que Hermann Hesse construiu suas pontes conectivas.


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Desprender-se das expectativas do progresso deteriorante, que se encontram aprisionadas junto às ilusões mundanas do sucesso material, foi desde sempre alvo de inspiração presente no processo dialético mental daqueles destemidos inconformados pensadores que, por determinada razão, negligenciaram e ou negligenciam a atual situação dos acontecimentos e interações que procuram sustentar o condicionamento existencial da civilização humana como sociedade.

Introduzir novos conceitos e visões, incitando contradições junto ao senso comum conturba os até então inquestionáveis teores de normalidade impostos pela máquina social, que de uma maneira um tanto o quanto insensata, passa a olhar para os instigadores de reflexão, como uma ameaça ao atual estado das coisas.

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Perante o vácuo desta angustiante atmosfera opressiva e condicionante do inicio do século passado, Hermann Hesse solidificou seu pensamento e aguçou sua sensibilidade, ao expor publicamente seus ideais e percepções existenciais, escrevendo suas reflexões formuladas e inspiradas por experiências traumáticas decorrentes do ambiente familiar e social que o absorvia. Procurando relacionar a necessidade de conciliação entre as relações humanas e a busca pelas potencialidades latentes que vagam despercebidas nas profundezas da mente de todos os seres providos de telencéfalo "altamente desenvolvido" e polegares opositores; Hesse usou de toda sua capacidade inventiva para difundir aquilo, que talvez, lhe perturbasse o sono.

Apesar das cicatrizes psíquicas ocasionadas pelas ultrapassagens desses obstáculos que se ergueram em seu tortuoso caminho elucidativo - um ambiente familiar ancorado sob uma ferrenha ortodoxia religiosa cristã e ter sido submetido às atrocidades de uma educação calcada na violência física e emocional - Hermann Hesse, mesmo assim, construiu uma extensa e profunda obra, baseada na necessidade da busca do autoconhecimento dentro das restrições impostas pela sociedade, materializando pensamentos através de romances e estudos que mesclam filosofia oriental, ficção e uma autobiografia disfarçada de seus acontecimentos e experiências cotidianas.

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Num mundo cada vez mais despersonalizado, onde os valores humanos e mentais são devorados pela necessidade de satisfação do ego, preocupado mais em aparentar do que realmente entender, as pessoas já não mais são reconhecidas pelo que pensam ou são, mas sim por aquilo que fingem exteriormente. Diante desta superficialidade emocional, condicionada gradativamente pelos atuais sistemas de relacionamento virtual, o desafiante método proposto por Hermann Hesse, a conexão entre a mente e a consciência cósmica, talvez esteja distante da popularidade mundana, porém para aqueles, poucos, ou serão loucos (?), cansados da estafante rotina progressista moderna, parece estar a cada segundo, a cada instante, a cada momento um pouco mais vivo.

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Um pequeno passeio por sua instigante obra:

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Demian foi concebido após um colapso nervoso que acometeu o escritor. O trabalho incansável e chocante na Suíça ajudando prisioneiros de guerra, somado ao casamento fracassado, a morte do pai e uma grave doença em seu filho, conturbaram sua mente. Fez então psicanálise com um J.B. Lang, discípulo de Karl Jung, usando estas experiências para produzir o romance, onde descreve a enorme confusão mental de um jovem que abruptamente toma consciência da fragilidade moral, da família e do Estado.

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Inspirado na vida de Sidarta Gautama (o Buda), e por sua estada na Índia em 1910, o livro trata da busca filosófica de um jovem indiano por si mesmo, fundindo filosofia ocidental e oriental na exploração do autoconhecimento. Na década de 60 o livro foi um dos responsáveis pela disseminação do hinduísmo e budismo nos Estados Unidos, servindo de referência aos poetas da geração beat, como Jack Kerouac e William Burroughs.

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Como característica de sua obra o livro é carregado de conteúdo autobiográfico disfarçado, onde o autor descreve a trajetória de um sujeito misantropo (aquele que desconfia da humanidade) com aversão aos relacionamentos interpessoais corriqueiros e ao senso comum que orientam a maioria das pessoas na sociedade.

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Seu último livro, o auge de sua obra criativa, "O jogo das contas de vidro", escrito entre 1931 e 1942, descreve um futuro utópico habitado por uma comunidade mística que desenvolveu uma espécie de linguagem oculta, altamente evoluída onde encontram-se reunidas várias ciências e artes, preservando ativamente os ideais do espírito.


Leonardo Barden

Apesar de tudo, e mesmo assim, afastando-se sorrateiramente da normalidade rumo aos antípodas da mente. .
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