rascunhos

Descrevendo a parte em busca do todo.

Jorge A. Barbosa

Existe um tempo da música?

Uma coleção de CD's favoritos pode trazer recordações, mas indica para além do que ouvimos a capacidade de deixar uma mensagem atual. Não se trata (apenas!) de ser imortal, mas de transpor um tempo tão caracterizado pelo utilitarismo e por frases de efeito.


msicaaa.jpgRecentemente, revisitando alguns CD's e pastas de MP3 percebi que 90% dos álbuns de músicas são de artistas que já tinham deixado este mundo. Isso não me deixou preocupado, mas curioso. Seria isso o fato de não está pesquisando novos artistas da música? Estaria '‘ultrapassado’', quem sabe entrando na lista dos saudosistas que pensam que no presente não há nada de bom? Obvio que não. A diferença é que nem sempre àqueles que consideramos bons estão entre nos meios de divulgação na exposição de seus trabalhos. Soma-se isso ao princípio de cultura de massa – conceito muito estudado por Theodor Adorno – num processo de plenitude ao consumo desenfreado. A consequência é a mais obvia: frases de efeito que viram febres ou que chamamos de “vírus da internet” que em duas ou quatro semanas ninguém recorda porque de alguma forma já estão repetindo uma outra.

Não é essa a questão até porque é muito fácil resolver o problema da repetição e daquilo que não que ser ouvir e/ou ver nos meios de comunicação. Bastar desligar. Simples! Sigo por outro caminho: o tempo. A música não tem tempo, aliás a arte não tem um tempo, que a define com prazo de validade. Minha coleção de músicas é um templo da imortalidade – e pasmem! Não é pretensão minha, os caras são bons! Isso faz pensar no tempo do artista, que está muito longe das nossas oito ou doze horas de trabalho – às vezes quase forçado. Quanto tempo foi preciso à Janis Joplin para localizar-se entre as maiores do blues? O grande Raul Seixas, Cazuza, Gonzaginha; todos eles foram muito cedo, mas podemos citar outros como nosso Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Vinícius de Moraes e outros cuja genialidade está pra além de um tempo físico.

A coleção de músicas demonstra que o tempo de criação tem lógica própria e muito poderia nos ensinar. Revendo todos esses artistas reflito o quanto nos equivocados em nosso tempo, em especial com nossos projetos. Empurrados por uma dinâmica produtivista que nos coloca numa lógica do 'ter', das trocas comerciais do velho pelo novo sem nenhum critério e, assim seguimos 'massa-crados' na repetição de frases de efeito. Revisitá-los. Escutar cada letra – muitas escritas muito antes do meu nascimento – traz a importância de um tempo para além daquilo que de fato podemos construir de importante neste mundo, por vezes tão atripulado pela intolerância, pela falta de amor, da capacidade de sonharmos com o mundo melhor. Pra terminar, entre os bons (que graças a Deus continuam entre nós) transcrevo como mensagem 14 Bis, da canção “Bola de Meia, bola de Gude”:

“Pois não posso / Não devo e não quero / Viver como toda essa gente / Insiste em viver / E não posso / Aceitar sossegado / Qualquer sacanagem / Ser coisa normal...”


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