Oton Luna

21 anos. Natural de Castanhal, Pará. Colunista do Blog Fragmentos (@opsquebrou)

Engolidos e dilacerados

Daft Punk, o grupo de música eletrônica que estourou ano passado com o lançamento de Get Lucky, já se aventurou também no cinema. Em 2006, produziram Electroma, filme que fala sobre automatização e homogeneização social.


Daft_Punk_Electroma_FINAL_low.jpg Ilustração criada por Bruno Miranda

Uma banda de música produz um filme sem exageros na trilha sonora. Sem muitos ruídos, silencioso até o final. Sem diálogos ou narração contados por meio de legendas, como se fazia nos primeiros anos do cinema. Nada, serenidade total. Não há muitas expressões faciais também. Na verdade, os personagens nem rostos têm. Ora capacetes, ora máscaras de cera, são sempre cabeças artificiais, manualmente produzidos, obras do desenvolvimento tecnológico humano. Um filme que fala sobre a humanidade em busca de si. A banda é Daft Punk. O filme, Electroma.

Escrito e dirigido em 2006 pelos franceses Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, o filme contou com a colaboração de mais dois roteiristas, Cédric Hervet e Paul Hahn. Thomas e Guy, os criadores de Daft Punk, um dos grupos mais criativos da música eletrônica, voltaram aos holofotes da cena musical no passado, quando lançaram seu álbum Random Access Memories e o megahit Get Lucky. Suas performances de palco e seus videoclipes apresentam elevado refinamento técnico, sempre envolto ao tema tecnológico, misturando exaltação e crítica a esse mundo cada vez mais robotizado em que vivemos. Fantasiado de androide, o grupo (ou a dupla) utiliza diversas ferramentas sonoras e visuais do mundo moderno para criticá-lo na mesma medida em que o idolatra. Technologic talvez seja sua música mais emblemática, principalmente quando assistimos ao seu videoclipe. A partir de letras extremamente simples, mas bem manobradas, como Buy it, use it, break it, fix it/Trash it, change it... [compre, use, quebre, conserte, descarte, troque], Daft Punk cria um cenário atrativo, dinâmico e enérgico – além de macabro, quando estampa o consumismo e a corrida tecnológica desenfreada sendo representados pela cara de um esqueleto meio robô, meio Chucky, o boneco assassino. A banda é pulsante.

É desse universo lúdico, crítico e artístico que surge a ideia central de Electroma. Mais do que nas músicas, que ainda dialogam com o fascínio causado pelas parafernálias digitais e eletrônicas, esse filme detona algumas ilusões e consequências sociais da modernidade, da globalização e da indústria, as quais afetam o cerne da coletividade, que só faz sentido quando repleta de diversidade. Confesso que setenta minutos vendo dois homens-robôs caminharem do centro urbano ao deserto, da aglomeração ao exílio, da companhia à solidão, das aparências à realidade e da superfície às profundezas da sensibilidade, me provocaram alguns momentos de tédio. No entanto, embora enfadonho, a sensação que tive quando assisti a esse filme paradoxalmente lacônico, prolixo e instigante foi ótima. Minhas divagações acerca da uniformização e automatização de nossa sociedade encontraram uma referência artística relativamente bem elaborada.

Em meio a um turbilhão de olhares inquisitivos, indicando clara pressão da sociedade, os homens-robôs, protagonistas do filme, são induzidos a buscar aceitação social e enquadramento comportamental, seguindo a lógica perversa de adaptação aos hábitos excludentes da maioria, grupo que se torna cada vez mais poderoso e influente quando um resistente cede, adaptando seus modos aos padrões normativos, submetendo suas escolhas à rigidez moralista e às “normalidades” convencionais, abandonando seus ideais ou cometendo suicídio, o que não é raro de acontecer. Portanto, é quase um caminho sem volta, deadline. Nesse sentido, o filme é bastante pessimista.

Os homens-robôs seriam, nesse cenário, a verdadeira representação da sociedade humana moderna, como se realmente houvesse uma sociedade robótica e extremamente automatizada, formada não pelas comunidades androides, que seriam produtos do trabalho humano, mas por nós mesmos, engolidos por nossas próprias criações. Mais do que meramente influenciados, condicionados ou determinados por elas, que são a manifestação material de nossa cultura, somos engolidos, dilacerados. Isto é, ao colocar a inovação tecnológica e o “desenvolvimento” à frente de qualquer outra coisa, como a sociabilidade, o conhecimento “humanístico” e o respeito às diferenças, acabamos por formar (pôr numa forma, modelar nossas estruturas) uma sociedade repleta de robôs humanos, letárgicos, apáticos, indolentes, fatalistas, irreflexivos, indiferentes, insensíveis, homogeneizantes e homogeneizados. Acabamos por rebobinar e reproduzir o vivido, num processo automático, vazio de significado. Acabamos, pois, por lesar o gozo da vida. Com o tempo, vemos artificialidade gerando artificialidade.

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A seguir, transcrevo os comentários de Eduardo Valente, colaborador de uma das principais revistas eletrônicas de crítica de cinema, a Revista Cinética. Concordamos que o filme não chega a ser divertido, mas Eduardo possui uma opinião oposta à minha, ridicularizando a forma como essas questões foram tratadas em Electroma. Vale conferir.

Começa o filme: dois robôs entram num carro, a grua desce, na placa do carro lê-se: HUMAN. Cada um que decida daí por diante se vai levar Electroma a sério ou não. Para dar conta do mínimo de interesse que o filme tem (alguns belos planos do carro no deserto; a engraçadíssima sequência da caminhada pela cidade ao som de Curtis Mayfield), me parece que o único jeito é não levando a sério. Mas, curiosamente, o filme parece querer afirmar ao contrário - e com isso, se torna tão somente irritante e risível em suas "questões" sobre desumanização, uniformização, solidão, e vários outros "ão". Se o Daft Punk é conhecido por ter alguns bons clipes e um show altamente "visual", por este filme não se conseguiria prever uma capacidade de articulação entre som e imagem dos dois rapazes que não passe pela obviedade - inclusive o filme piora consideravelmente todas as vezes que entra em cena a música. O máximo de diversão que se pode ter é brincar de "jogo das sete referências" (Gerry, Brown Bunny, THX 1138, Zabriskie Point...), mas todas elas aparecem aqui ou desvirtuadas ou simplesmente desinteressantes.

Electroma realmente não é a oitava maravilha do mundo, a obra-prima do cinema europeu, mas não acho que esses tantos "ão" são tratados de maneira óbvia ou simplória. Pelo contrário, a produção de Daft Punk merece destaque por ser bem diferente e por tratar sobre um tema que não é tão discutido quanto deveria pelo cinema do século XXI.


Oton Luna

21 anos. Natural de Castanhal, Pará. Colunista do Blog Fragmentos (@opsquebrou).
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