recanto da desconstrução

Desconstruindo para reconstruir

Bruna Cosenza

Em constante reconstrução e apaixonada por livros, busca se afastar de tudo o que é efêmero e descartável, pois tem uma queda por permanências e pessoas inteiras.

Nossas digitais não se apagam das vidas que tocamos

A existência humana é tão frágil que pequenos sopros já são capazes de destruí-la. Viver é uma intensa caminhada rumo ao desconhecido e a única coisa que permanece intacta até quando nosso corpo já virou pó são as marcas que deixamos em outras vidas.


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“Lembranças”, filme estrelado por Robert Pattinson, discute questões que considero muito relevantes, trazendo personagens pesados e cheios de significados. Abrange temas como o perdão, a família e a superação. E eu, como tenho uma queda por tudo aquilo que pesa no psicológico, rapidamente me apaixonei pelo filme.

Tyler é um jovem de 21 anos, aparentemente amargurado e rebelde, mas se analisado mais profundamente, é possível perceber que toda a sua revolta tem raízes bem significativas. Depois do suicídio do irmão, sua família se desestruturou e é visível o sofrimento que o atormenta. A interpretação de Robert, na minha opinião, coloca o ator em um patamar muito acima do que estávamos acostumados a ver em seus filmes anteriores.

Tyler é o tipo de personagem que costuma atrair a minha atenção, pois há algo de sombrio e indecifrável em sua pessoa. Durante a história toda, o vemos confrontar o pai, lutando por aquilo que julga certo. Enquanto isso, vive um romance intenso com Ally, mulher com quem ele escolhe partilhar suas dores. Ambos sofrem com a perda de entes queridos – Ally testemunhou o assassinato da mãe no metrô quando pequena e Tyler foi o último a ver o irmão antes do suicídio.

De certa forma, os personagens da trama me transmitem cada um da sua forma, uma espécie de tormento, sendo que todos estão intrinsicamente conectados e a conclusão de tudo parece só se dar ao final do filme, quando uma frase de Gandhi é proferida por Tyler.

“O que quer que você faça na vida será insignificante, mas é muito importante que faça, pois ninguém mais fará. Como quando alguém entra na sua vida e metade de você diz: ‘você não está preparado’. Mas a outra metade diz: ‘torne-a sua para sempre.’”

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Quantas vezes nos julgamos insignificantes no meio dos bilhões de seres humanos que habitam o planeta Terra? E de fato, como Gandhi diria, considerando a imensidão do universo e sua magnitude inexplorada, realmente tudo o que fazemos é insignificante, mas nem por isso quer dizer que não deva ser feito. Cada ação simples realizada no dia a dia tem sua importância, nem que seja para um grupo pequeno de pessoas ou só para você mesmo. Como ele mesmo diz, se você não fizer, ninguém o fará… E o mundo precisa de pessoas que fazem.

Gandhi está certo e realmente somos seres minúsculos nesse universo. Entender isso é difícil. Talvez este seja um dos motivos pelos quais muitos irmãos de Tylers estejam se suicidando por ai… Talvez seja dai que vem tanta agonia.

Ao longo de nossa trajetória aqui, muitas pessoas cruzarão nossos caminhos. Almas serão marcadas, corpos serão atingidos e vidas serão tocadas. E nem a morte, nem nenhuma outra força maior do que nós é capaz de apagar as marcas que deixamos em vidas alheias durante o tempo em que vivermos. Posso morrer hoje, mas todo o meu legado ficará aqui. Não só em registros materiais, mas em almas, em corpos e em vidas. E quem sabe tudo isso não seja levado para uma outra dimensão também.

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O final surpreendente do filme – que não vou contar para que quem se interessou vá correndo assistir – me fez refletir mais ainda sobre a questão de que tudo o que fazemos é insignificante, mas extremamente importante que seja feito. Cada ato, cada luta de Tyler durante a história promoveu reviravoltas interessantes nas atitudes de outros personagens. Portanto, se Tyler nada tivesse feito, a trama jamais teria se desenrolado… E o mesmo para todo ato de qualquer pessoa. A vida não é nada além de uma sequência de “ações insignificantes”, mas ter consciência disso não implica em nos prendermos ao fato de que estamos andando em direção a um buraco desconhecido sem sentido nenhum – a morte –, pois dessa forma viver se tornará um fardo.

Por mais irônico que pareça, as mortes são necessárias para dar continuidade à vida. Somos todos parte de uma instância superior da qual não temos controle e que decidiu por nós que quem nasce, obrigatoriamente deve morrer. A única coisa que podemos controlar é como tocaremos as vidas que chegam até nós, pois estas são as únicas marcas que continuarão intactas mesmo quando nossos pés já não pisarem mais este chão e nosso corpo se tornar uma mera lembrança.

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Bruna Cosenza

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