recanto da desconstrução

Desconstruindo para reconstruir

Bruna Cosenza

Em constante reconstrução e apaixonada por livros, busca se afastar de tudo o que é efêmero e descartável, pois tem uma queda por permanências e pessoas inteiras.

O Homem do Aeroporto

Quem é ele? Por que estava no aeroporto? Como foi parar ali? Para onde iria?


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Sempre me fez bem acreditar que há um motivo muito forte para cruzarmos com determinadas pessoas ao longo da vida. De alguma forma, todas elas ajudam na nossa construção, seja positiva ou negativamente. Indo um pouco além das pessoas que nos transformam por viverem ao nosso lado no dia a dia, também considero de suma importância aquelas que ficam restritas apenas ao nosso campo de visão. Quantas pessoas cruzam nosso caminho pelas ruas todos os dias? Acabamos por não lembrar do rosto de praticamente nenhuma.

Recentemente estive no aeroporto. Sentada no saguão, um homem passou por mim e sentou duas cadeiras ao lado. Senti um cheiro forte e suspeitei que fosse dele. À primeira vista, o Homem do Aeroporto - foi como o apelidei - parecia comum. Vestia uma calça jeans, uma camisa preta meio surrada e segurava uma pasta. Tinha olhos azuis, cabelo preto e pele clara. No entanto, falava o tempo todo sozinho. Foi possível notar que, por mais que ele estivesse lá fisicamente, sua mente vagava por outras dimensões enquanto balbuciava algumas palavras.

De repente, ele se levantou e deu uma volta pela praça de alimentação, que era em frente da onde estávamos sentados. Minutos depois, voltou e se sentou novamente. Comecei a suspeitar que ele estava procurando por comida.

Algum tempo depois, fui me sentar na praça de alimentação. Vi o Homem do Aeroporto rondando o local novamente e fiquei cada vez mais aflita com a situação. De repente, ele pareceu ter encontrado o que queria: restos de comida em pratos largados em uma mesa. Colocou sua pasta na cadeira, sentou-se, limpou os talheres e começou a comer os restos. Infelizmente, havia muito pouco e ele ainda parecia faminto. Logo menos, avistou outra mesa com muito mais restos e foi até lá. Duas mulheres que estavam sentadas ao lado perceberam e não conseguiram disfarçar o espanto. Essa deve ter sido uma das cenas mais difíceis que já assisti.

Fui embora com o coração apertado, do tamanho de um grãozinho de arroz, e fiquei dias pensando nele. Até hoje, quando vejo qualquer mendigo na rua, o Homem do Aeroporto vem na minha mente.

Quem é ele? Por que estava no aeroporto? Como foi parar ali? Para onde iria?

Gostaria de poder responder a todas essas perguntas. Queria ter conhecido o verdadeiro Homem do Aeroporto e não aquele que se apresentava apenas como uma sombra nebulosa para a sociedade. Mesmo sem nunca ter trocado uma palavra com ele, apenas a sua presença provocou um rebuliço dentro de mim.

Quantos mendigos, pedintes e pessoas carentes vemos todos os dias pelas ruas? Passei a vê-los de uma forma diferente. Imagino que todos são Homens do Aeroporto, que todos tem suas histórias de vida e que, se alguém der uma chance, talvez essas histórias se tornem inspirações.

Sei que não vou voltar a ver o Homem do Aeroporto e jamais saberei que rumo sua vida levou. Diante deste sentimento de impotência, ficam apenas as reflexões proporcionadas por este homem que passou rapidamente pelo meu campo de visão. Afinal, me parece que todos são um pouco Homens do Aeroporto... Todos provocam rebuliços em outras vidas sem nem se darem conta. E não é isso que é a vida? Um incrível emaranhado de Homens do Aeroporto, nas suas diversas formas e condições.

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Bruna Cosenza

Em constante reconstrução e apaixonada por livros, busca se afastar de tudo o que é efêmero e descartável, pois tem uma queda por permanências e pessoas inteiras..
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