recanto da desconstrução

Desconstruindo para reconstruir

Bruna Cosenza

Em constante reconstrução e apaixonada por livros, busca se afastar de tudo o que é efêmero e descartável, pois tem uma queda por permanências e pessoas inteiras.

Não fuja do sofrimento. Ele vai te fazer crescer

Temos essa tendência de querer fugir de tudo aquilo que pode causar dor, porém, essa é de fato uma das únicas maneiras de crescer. Sim, sofrimento é sinônimo de crescimento.


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O filme “O Escafandro e a Borboleta” é baseado em fatos reais e conta a história de Jean-Dominique Bauby que, aos 43 anos, sofre um derrame cerebral. Quando finalmente acorda do coma, os médicos contam que ele havia sido vítima de uma paralisia muito rara e o único movimento que ainda restava era o do olho esquerdo.

Completamente lúcido e ciente de tudo o que acontecia ao seu redor, Jean-Dominique se vê, a partir daquele momento, prisioneiro de seu próprio corpo. Com uma equipe médica que realmente acredita na sua recuperação, ele aprende a se comunicar piscando o olho para as letras do alfabeto que eram soletradas para ele. Dessa forma consegue formar até frases inteiras e expressar como se sente para as pessoas ao seu redor. A princípio, ele nega sua condição, afirmando que queria morrer, porém, com o tempo vai aprendendo a lidar com todos os obstáculos que o separam da vida que costumava ter antes do derrame.

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A narrativa é interessante, pois o espectador é capaz de ouvir os pensamentos de Jean-Dominique em relação a tudo aquilo que o rodeia, enquanto os personagens que convivem com ele são obrigados a se contentarem apenas com suas piscadas de olho.

A história é extremamente tocante e, ao longo do filme, além das cenas da vida anterior de Jean-Dominique, também aparecem imagens bem poéticas juntamente de pensamentos profundos do próprio personagem. E é claro que, neste momento em que se sente incapaz, Jean-Dominique começa a se questionar sobre a vida que levava anteriormente.

“Hoje parece que a minha existência foi só uma cadeia de erros. Mulheres que não soube amar, chances que não soube agarrar, momentos de felicidade que deixei passar. Uma corrida cujo resultado conhecemos, mas somos incapazes de ganhar o prêmio. Estava cego ou surdo, ou a luz de uma desgraça era necessária para que eu me esclarecesse sobre a minha verdadeira natureza?”.

O que me chamou a atenção foi exatamente isso: por que muitas pessoas só param para pensar em suas existências quando estão passando por um sofrimento de grande magnitude?

Por que Jean-Dominique não pensou antes nas mulheres que não soube amar, nas chances que não soube agarrar e nos momentos de felicidade que deixou passar? Como o próprio disse, foi preciso uma desgraça para que ele se dispusesse a refletir sobre tudo isso?

Talvez sim. Veja só: não pensamos muito na morte quando com saúde. Caso aconteça algum acidente ou sejamos alvos de uma doença grave, começamos a realmente questionar sobre coisas que antes passavam despercebidas. Não afirmo que precisamos pensar nessas questões constantemente, mas ignorá-las a ponto de nos arrependermos tanto quando estamos diante de uma desgraça também não é o ideal.

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De alguma forma, a tragédia que atingiu Jean-Dominique também foi a luz que o guiou para, de certa forma, crescer espiritual e psicologicamente. Certo dia no hospital recebe a visita de um conhecido que lhe diz o seguinte: “Agarre-se à sua humanidade e sobreviverá.” O que traz de volta a condição humana de Jean-Dominique, ou seja, o que ele encontra para se preencher, é o desejo de escrever e publicar o livro de sua vida. Para realizar este sonho, ele usa o seu único vínculo com o mundo exterior, o seu olho esquerdo. Piscava as letras do alfabeto que eram soletradas e, com a ajuda necessária, tem seu livro publicado.

Jean-Dominique afirma que, além de seu olho, a imaginação e a memória eram os meios encontrados para escapar de seu escafandro. Por mais que ainda fosse uma borboleta em seu interior, seu corpo o aprisionava de tal forma que se sentia sufocado em um escafandro. Mesmo assim, encontrou uma forma de libertar sua borboleta.

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É completamente normal em uma situação como a de Jean-Dominique se questionar mais sobre atitudes e erros passados, mas ainda penso que seria maravilhoso se as pessoas não precisassem tanto da luz de um sofrimento para refletirem sobre questões existenciais.

Acontece que é difícil mesmo lidar com o sofrimento. Temos essa tendência de querer fugir de tudo aquilo que pode causar dor, porém, essa é de fato uma das únicas maneiras de crescer. Sim, sofrimento é sinônimo de crescimento. Porém, mesmo acreditando que o sofrimento é necessário, continuo sonhando com um mundo em que as pessoas também conseguem libertar suas borboletas de seus escafandros à luz de uma felicidade.


Bruna Cosenza

Em constante reconstrução e apaixonada por livros, busca se afastar de tudo o que é efêmero e descartável, pois tem uma queda por permanências e pessoas inteiras..
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