Entrevista Gonçalo Tocha, na órbita do cinema português

Depois do Corvo, e a convite do produtor responsável por “Guimarães – Capital Europeia da Cultura 2012”, Gonçalo e Dídio passearam-se por Guimarães para realizar "Torres e Cometas". Guimarães, cidade berço da Nação Portuguesa onde se pensa ter nascido D. Afonso Henriques, aquele que seria em 1143 o primeiro rei de Portugal. Com a câmara e o microfone às costas, coisa que lhes começa já a ser característica, descobrem e contam um pouco da história (das estórias) do lugar, do país e daquela que é a cultura portuguesa.


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Começas a ser um caso sério de sucesso do verdadeiro “do-it-yourself”...

Eu na câmara, o Dídio no som. Nós e as pessoas. Foi uma opção nossa como autodidactas que somos, uma forma que encontrámos para nos protegermos. É assim que sabemos fazer as coisas. Não passámos por nenhuma escola onde aprendêssemos a gerir uma equipa de filmagens e todas as suas componentes. Somos realistas em relação ao conhecimento que possuímos, e gostamos de aplicá-lo com a noção do que estamos a fazer. É engraçado como isso acabou por nos trazer vantagens: o facto de ser mais económico aumenta o tempo que podemos estar embrenhados em cada projecto. O “Torres e Cometas” segue um pouco na linha do “É na terra, não é na lua”, é realizado com o mesmo material técnico. Mas tem uma premissa completamente diferente: Guimarães não foi um desejo meu, tal como foi a Ilha do Corvo. Foi um convite que aceitei como uma experiência. Um fechar de um ciclo de trabalho, e uma oportunidade para explorar novas coisas que poderei aplicar em novos filmes. No entanto nunca esquecemos que estávamos a trabalhar em Guimarães e que devíamos à cidade toda a justeza e glória. Acho que conseguimos um filme que fala sobre Guimarães, sobretudo com o espírito guimaranense que os próprios reconhecem.

Havendo essa linha condutora entre os dois filmes, como é que explicas a diferença na duração dos dois filmes e no tempo em que demoras-te a realizá-los?

Inicialmente o Ricardo Areias propôs-me fazer uma curta, que rapidamente se tornou uma “curta-longa”. Eu sabia que não tinha tempo para fazer uma longa metragem, no sentido em que já tinha outro projecto a avançar e não queria perder-me entre os dois. Daí os 60 minutos do filme, que acabam por ficar no meio da curta e da longa. Foi engraçado que quando comecei a pensar e a decidir esta coisa do tempo, apercebi-me que a maneira como gosto de filmar tem sempre um pouco que ver com a questão da duração, com a multiplicação dos acontecimentos. Na curta é difícil encontrar espaço para isso... E por isso decidi que um mês seria o tempo suficiente, queria ficar entre a “meia – profundidade” e a “pouca-profundidade”. Um meio-termo com uma profundidade que é assumidamente pouca. Parece que estamos de passagem, daí o cometa, estamos de passagem por caminhos de Guimarães onde não permanecemos. Caminhos que não vivemos em profundidade.

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No corvo destróis muralhas, em Guimarães constróis muralhas. Toda a questão da história, que existe e não existe, que é alterada e recontada... O que andamos a fazer à História é algo que te preocupa?

No Corvo deparei-me com a falta do registo da história, um buraco que havia, deparei-me com uma missão: preencher essas lacunas na história daquele lugar e daquelas pessoas. E dediquei-me a essa tarefa de tentar contar a história que não estava contada. O facto de não estar contada, faz com que acabe por se tornar quase ficcional. Existe no etéreo, naquilo que imaginas que possa ter acontecido, que alguém te contou.

Em Guimarães, passa-se exactamente o oposto: há demasiada história contada. Há imensos livros sobre Guimarães, cidade, berço da nação, 9 séculos... E com isso deparei-me com o facto de toda a história ser parcialmente recriada, adaptada conforme a conveniência da época. Eu acho que é interessante perceber isso, afinal nada é estático. Nem a própria história é estática.

Acho que o facto de haver tantas pessoas com mais de 50 anos nos meus filmes, demonstra o meu gosto pela memória. E em Guimarães havia a questão da recriação histórica. Deparei-me com uma cidade simbólica, com um simbolismo muito recente. E é curioso observar que ao longo desse tempo e dessa história que são recentes, a cidade mesmo assim foi sendo alterada. As estátuas mudaram de sítio, o Castelo foi reconstruído, o Paço dos Duques foi adaptado a uma ideia do Salazar… E por isso a cena em que os dois senhores discutem a possibilidade de reconstruir uma das torres que falta, é uma cena que encaixa no filme e na mensagem que pretendo transmitir. Aquele sonho messiânico de que a torre seja construída, acaba por simbolizar o facto de a força humana acaba por ser muitas vezes superior à da própria história e do nosso desejo de a contar. Torres, a parte estática da terra e das raízes, torres que crescem ou desaparecem como a gente quer e decide. Cometas, as pessoas que passam, a história e as estórias que passam.

O facto de teres encontrado o grupo musical Minhotos Marotos e o tema “No Cometa” foi um acaso?

As coisas aconteceram mais ou menos como aparece no filme. Nós estávamos a filmar no Santuário da Penha, e havia um encontro de municípios no qual houve um baile com música tradicional. O grupo Minhotos Marotos estava presente e tocaram o tema “Guimarães 2012”. Aquilo chamou-nos a atenção pelo exotismo que é ter uma música tradicional que fala de Guimarães como berço de Portugal. E quando perguntei qual era o nome do grupo, e me disseram “Minhotos Marotos” fiquei maravilhado e decidi procurá-los. Eu estava à espera de encontrar uma banda com membros entre os 40 e os 50 anos, e afinal deparei-me com pessoal jovem com 4 álbuns editados. Ofereceram-me o último álbum deles, eu ouvi, e percebi que não se tratava apenas de temas populares. Os Minhotos Marotos tinham também uma vertente mais “marota” com duplo-sentido que segue na tradição das letras do Quim Barreiros. O “No Cometa” foi um tema que achei interessante, especialmente pela maneira como nos transporta para o mundo da ficção. Filmámos o tema para o filme, e no final da rodagem andávamos a procura do título… O Dídio é que acabou por juntar este puzzle: “aquelas duas pessoas a falarem de construir uma torre… isto é tudo um bocado espacial… e há um cometa… Torres e Cometas!”

381745612_640.jpg O cinema, que começa como hobbie na tua vida, ganhou uma seriedade e uma dimensão “astronómica” neste último ano…

Quando comecei com o Balaou não era nada evidente que as coisas acontecessem como aconteceram. Eu fiz aquele filme, porque era uma necessidade grande para mim explorar a questão da memória da família. Havia um desejo latente de começar um novo caminho... Entretanto o “É na Terra, não é na lua” tomou conta de tudo. Foram quase 5 anos de Ilha do Corvo, e isso trouxe-me o convite para o Guimarães – Capital Europeia da Cultura e para o projecto “Estaleiro” que estou a desenvolver em Vila do Conde… Coisas que não tinha planeado, mas que acabaram por surgir na sequência do trabalho que desenvolvi ao longo deste tempo. E é pelo trabalho que me guio. Trabalho que me tem ensinado muito, sobretudo na questão de aprender a trabalhar com mais pessoas, a enfrentar novos desafios que me obrigam a desbravar novos caminhos. Tem sido muito interessante a nível de aprendizagem pessoal e profissional, e por essa razão o Cinema tem estado um pouco a tomar conta disto tudo… Enquanto o desejo persistir, vou continuar a fazê-lo. Mas tenho pena de isso implicar que não haja tempo para dedicar a música… Tenho dois álbuns na gaveta que gostava muito de editar. No entanto acho que as coisas não podem ser forçadas, não faria sentido parar agora com o cinema para editar os meus álbuns, não faria sentido forçar o destino do que está a acontecer.


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