Lars von Trier, a obsessão pela incapacidade humana

A obsessão pela incapacidade humana, gosto de lhe chamar assim. Afinal somos isso mesmo, incapazes. À partida devotos a reprimir instintos em prol de uma civilização que nos alimenta as necessidades supérfluas. A verdade é que quando são básicas, o devotismo perde-se e a besta desperta.


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Lembro-me do dia em que vi pela primeira vez O elemento do crime, a verdade é que nunca me poderia esquecer da cor hipnótica daquela alheia viagem que acompanhei através do ecrã. Um estilo muito próprio, em que cada plano é pensado em seguimento do anterior.

A epidemia alastrou-se rapidamente e trouxe-nos à Europa. É com ondas de paixão que von Trier faz as estórias ao mesmo tempo que (nada subtil) desmancha o Homem, e mostra o que dele pensa. O realizador dinamarquês nunca se privou de nos esfregar nos olhos a maldade humana, o instinto, o animal que se interpõe tantas vezes entre o ideal de sociedade a que, bem comportados, obedecemos.

Lembro-me de chorar ao dançar no escuro. A violência não física, o horror refinado, o egoísmo e o instinto de sobrevivência que se sobrepõe a todos e qualquer um. Ausência de compaixão. Amor? Apenas pelo próprio. Dogville, e a vila de cães esfomeados que Nicole Kidman ousou habitar. Em Manderley fala-se de escravidão. Já sabemos! Sabemos? Anticristo, e Charlotte Gainsbourg mostra-se.

O fim do mundo quando a melancólica interpretação das palavras do realizador diz que ele é, afinal, um Nazi. É? Ou será que somos?

Acabei de ver a segunda parte de Ninfomaníaca. Tenho pena que por circunstâncias inadequadas, mas economicamente viáveis, o filme tenha sido dividido em dois. Mais uma vez, o filme não me deixou. Lars von Trier é sempre assim: cola-se. E todas as vezes duvido, haverá mais? Como se no fundo tivesse a esperança que algum dia lhe pudéssemos tirar um bocadinho de razão.


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