Allannderson Sales Aguiar

Jornalista, leitor e cinéfilo.

O Vagabundo e A Cegueira Universal

"Luzes da Cidade" é a história de um amor impossível que explora as variantes do ato de ver e expõe a maneira como julgamos o indivíduo. Charles Chaplin transforma a jornada do personagem numa crítica ao nosso comportamento social de aparências, futilidades e interesses.


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Quando Luzes da Cidade foi lançado em 1931, a indústria do cinema tinha passado por grandes transformações e filmes falados já eram realizados há 3 anos. No começo, Chaplin pensou que a novidade seria um modismo, mas logo percebeu que sua carreira estava ameaçada, mesmo assim permaneceu convicto das qualidades artísticas de suas produções mudas, por isso, investiu seu próprio dinheiro para realizar o projeto. Com os Estados Unidos vivendo a Grande Depressão, os riscos eram enormes e dúvidas pairavam no ar: Como o público iria encarar algo que já nascia em tese ultrapassado? Poderia o cineasta igualar o nível emocional de um filme falado? O longa ficou pronto após 2 anos e 8 meses de roteiros modificados, sets remontados, complicada seleção de elenco e 180 dias de gravações constantemente interrompidas. Apesar de uma pré-estreia desastrosa em Los Angeles, a campanha de divulgação se mostrou eficaz, a obra alcançou o merecido sucesso e confirmou definitivamente a genialidade do autor.

O título do filme lembra o letreiro de um espetáculo, a pergunta que está implícita e que talvez não se perceba de início é: Que tipo de lugar é uma metrópole? Uma questão que começa a ser desvendada quando o protagonista surge dormindo nos braços de uma estátua, essa sequência envolve a inauguração do monumento e o discurso de figuras públicas que Chaplin ironiza usando ruídos ao invés da voz, mas ele não para por aí, observe que o nome da escultura é Paz e Prosperidade, no entanto, o personagem é um sujeito de roupas esfarrapadas que é escorraçado do local, ou seja, as autoridades preferem varrer para debaixo do tapete os problemas sociais, camuflando a má administração com gastos desnecessários em obras e eventos que visam promover uma minoria.

O diretor não se limita a criticar os poderosos, ele deixa claro que a sociedade como um todo julga o status e a aparência de um indivíduo, o Vagabundo é normalmente ridicularizado e visto com indiferença ou desconfiança por crianças, adultos, patrões e subalternos. Em uma cena bastante ilustrativa, o filme brinca com o conceito da exclusão, o personagem olha uma vitrine e não percebe que está prestes a cair no alçapão de um elevador de cargas, o ambiente parece conspirar contra o pobre coitado. A condição de pária é reforçada pelo fato de ser aceito somente por pessoas que não podem enxergá-lo: uma florista cega (Virginia Cherrill) pela qual se apaixona, mas que o confunde com um cavalheiro rico e um milionário (Harry Myers) que vive alcoolizado, porém estando sóbrio o ignora.

02.jpg A classe dominante: Milionário megalomaníaco sentado em seu trono.

A figura interpretada por Myers é um estereótipo do homem moderno, a partir do momento que planeja se suicidar e é impedido pelo protagonista, as sequências mostram características de uma pessoa inconsequente, depressiva, insatisfeita, afetivamente fracassada (encerrando um casamento) e cheia de vícios; ainda que demonstre generosidade quando está fora de si, voltando ao normal não passa de uma criatura egocêntrica. Já nosso amigo maltrapilho é o oposto, ele exala otimismo, bondade, altruísmo, mesmo não tendo um centavo no bolso, e por essa razão, há um suspense que é mantido até a parte final: A vendedora de flores irá corresponder ao seu amor quando souber a verdade?

Esse romance inusitado funciona desde o primeiro instante, o encontro dos personagens é construído de tal forma que somos cativados pela ingenuidade dos sentimentos do protagonista, encantamento que não muda nem mesmo quando ele percebe que ocorreu um mal-entendido, e note que a explicação é feita num simples movimento de câmera. Aliás, nossa identificação aumenta quando conhecemos melhor a garota que se mostra gentil, sorridente e delicada; encontramos semelhanças entre os dois que apesar das adversidades são os únicos que assumem uma postura apaixonada, sonhadora e quase poética pela vida. Cada vez que o casal surge em cena, o drama é aprofundado e o ingrediente emocional é alavancado de tal maneira que passamos a torcer por um final feliz, mas logo em seguida, o filme destrói as expectativas do espectador como se afirmasse que não existe conto de fadas. 03 - Cópia - Cópia.jpg Simplesmente Feliz: O Vagabundo desfruta da companhia de sua bela florista.

A dinâmica do relacionamento é intercalada pelas passagens que mostram o Vagabundo acompanhado do seu “amigo” rico, há também outras em que busca dinheiro para que sua amada faça uma cirurgia e pague o aluguel atrasado. Nas duas situações existem momentos hilariantes que expressam toda a inadequação social e incompreensão daquele modo de vida por parte do protagonista. A burguesia é retratada como se vivesse eternamente em festa, voltada ao supérfluo e para o desperdício, enquanto o proletariado é uma classe carrancuda que oprime os próprios membros e humilha quem está abaixo, eles estão destinados a servir e limpar a sujeira dos abastados. Contemplativo em seus passeios e disposto a ajudar, o personagem principal é um estranho no ninho entre os habitantes de uma grande cidade, local onde todos estão sempre indo de um ponto ao outro para cumprir seus compromissos, incapazes de enxergar quem está ao seu lado.

Além de atuar, escrever, produzir, dirigir e ser um dos editores, Chaplin incluiu uma partitura de sua autoria, e diferentemente da maior parte dos compositores da época, o cineasta entendia que a música não deveria competir com a ação. De fato, ele realiza um feito surpreendente para um estreante, pois a trilha não só é belíssima, mas dita o ritmo e oferece o tom das cenas. Outra novidade foi a utilização de efeitos sonoros em momentos pontuais, por exemplo, o instante em que o protagonista engole um apito e atrapalha o andamento de uma festa, ou quando surge enforcado pela corda do sino numa luta de boxe. Em ambos os casos, a mensagem parece bem clara, é uma alfinetada em todos que buscam moldar ou determinar o fim de um artista. Charlie não escondia seu incômodo com as notícias e comentários a respeito de seu futuro cinematográfico, ele lamentava a decadência das fitas silenciosas, pois considerava que havia espaço para todas as formas de expressão.

04.jpg O agitado mundo da burguesia: Alienação, diversão e costumes excêntricos.

ATENÇÃO: Não passe desse ponto se você não assistiu ao filme. Nas linhas abaixo, discuto o desfecho do longa.

A cena final é bastante ambígua e marca o reencontro do casal após uma longa separação, a jovem é agora dona de uma floricultura e teve a visão restaurada graças a uma operação paga pelo protagonista. Quando ela descobre que seu benfeitor é na verdade um morador de rua, o filme apresenta como única certeza a felicidade do Vagabundo em vê-la bem, já que seu amor pela florista nunca dependeu de retribuições, sentimento exposto no close-up que encerra a obra. Com relação à personagem de Virginia Cherrill, há diversos pontos de interrogação, minutos antes de se deparar com a realidade, ela aparentemente idealiza a figura de um príncipe, por esse motivo, algumas questões são inevitáveis: Eles ficarão juntos ou serão amigos ou nenhuma das alternativas? O olhar dela é de compaixão, gratidão ou carinho? Ao provocar tantas perguntas, Chaplin nos leva a refletir sobre o peso e importância das coisas em nossos relacionamentos, ele deixa tudo isso em aberto para que o público diga o que faria nessas circunstâncias.

Se a interpretação de Cherrill (uma atriz inexperiente) merece aplausos pela composição envolvente e sutil, o que podemos dizer do fascínio que o Vagabundo exerce sobre o espectador? A mímica pode ser compreendida por pessoas de qualquer idade ou país, o comportamento lúdico misturado aos trejeitos exagerados provocam risos e simpatia, revelando certa fragilidade e inocência que imediatamente nos faz temer por sua integridade física. Confiamos em suas atitudes mesmo quando algumas decisões são erradas, pois sabemos que não há maldade ou segundas intenções, ele é sujeito sincero, honesto e generoso. É uma vítima das injustiças que permanece autêntico, pois disfarçado de cavalheiro, ele não nega suas origens como notamos no trecho em que persegue uma bituca de cigarro. É o contraste das piores facetas da nossa espécie, um aglomerado de criaturas individualistas, corruptas, gananciosas, falsas e sedentas por violência, basta observar o cenário e o contexto em que se desenvolve a famosa luta de boxe do longa.

05 - Cópia.jpg Combate Mortal: Nosso herói tenta fazer amigos num ambiente muito hostil.

Emocionante, divertido, melancólico, satírico, dramático, Luzes da Cidade é um olhar atual e profundo sobre nossas imperfeições e desigualdades, uma análise contundente dos valores distorcidos que a humanidade teima em seguir. É também um guia dos caminhos corretos que fingimos não enxergar.


Allannderson Sales Aguiar

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