Allannderson Sales Aguiar

Jornalista, leitor e cinéfilo.

Vida e Morte nas Escolas

“Bullying” é o relato de casos alarmantes de crianças e adolescentes vítimas de violência em colégios americanos. O documentário de Lee Hirsch fala do perigo que se expande para fora dos muros dessas instituições, um reflexo do descaso de autoridades, pais e professores.


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Em determinado momento, um dos personagens descreve abusos físicos e humilhações que sofre diariamente, o desabafo do garoto é ainda mais impactante pela declaração final: “Me pressionam tanto que eu quero ser o agressor”. A pausa no rosto e o silêncio do menino de 12 anos chamado Alex seriam suficientes para uma reflexão, mas para corroborar a ideia de que um mal é capaz de gerar outro maior, o diretor mostra a história de Ja'Meya Jackson, uma adolescente negra do Mississipi que cansada da rotina de ofensas, sacou uma arma dentro de um ônibus escolar que transportava outras 22 pessoas. Não houve feridos, a jovem foi presa e levada para um centro psiquiátrico onde espera julgamento por 45 acusações criminais.

Que tipo de prazer alguém sente em fazer outro sofrer? O prólogo é marcado pelo doloroso depoimento de David Long que resume em poucos minutos a vida de seu filho Tyler, as palavras do pai são ilustradas por vídeos caseiros que enfatizam que famílias são destruídas pelo bullying. Logo em seguida, ao som de Teenage Dirtbag (versão do coral Scala), o cineasta cria uma metáfora visual ao mostrar crianças nas sombras sendo levadas ao seu destino, ele destaca o transporte onde ocorrem muitos dos abusos e parece dizer que nosso futuro como sociedade está em xeque, além disso, os versos da canção falam sobre antigos dilemas como amor, insegurança e o desejo de ser notado, salientando o quanto é difícil amadurecer e criar uma identidade.

02.jpg Alex: “Não querem ficar perto de mim. Sinto que pertenço a outro lugar”.

Com a permissão da família de Alex Libby e a colaboração do conselho escolar, Lee Hirsch acompanhou o menino durante o ano letivo de 2009-2010 no colégio East Middle em Sioux City, Iowa. O documentarista registrou o cotidiano e os eventos do local como se fosse um funcionário, gravar tantas coisas e pessoas distintas não permitiu que seu verdadeiro objetivo fosse descoberto pelos alunos ou afetasse a dinâmica do ambiente, ele também fez uso de um equipamento que para muitos não passava de uma câmera fotográfica, então pôde capturar em vídeo várias agressões. O filme aponta desde o princípio que o processo que leva ao bullying é amplo e complexo, veja o exemplo de Alex, ele é o mais velho de cinco filhos do casal Jackie e Philip Libby, o garoto acaba recebendo menos atenção e mais responsabilidades do que o ideal para sua idade, sem contar as cobranças dos pais e as brincadeiras da irmã que reforçam a discriminação sofrida fora de casa.

Ameaças, xingamentos, apelidos pejorativos, violência física são apenas alguns dos absurdos frisados durante o trajeto da vítima até o colégio e no dia a dia do lugar, esses elementos culminam numa triste realidade de crianças excluídas do convívio social, pois são tachadas como esquisitas, anormais e diferentes. Preconceito que ganha dimensão assustadora quando somos apresentados a Kelby Johnson, adolescente de 16 anos que assumidamente gay, virou alvo de deboche dos colegas e professores, a família caiu no ostracismo da pequena cidade de Tuttle, Oklahoma. Hostilizada pelos os alunos, chegou a ser atropelada por um grupo de atletas que dirigiam uma minivan, e por conta da rejeição se viu obrigada a deixar o time de basquete e perder de vista uma bolsa de estudos. A discriminação fez com que a moça tentasse três vezes o suicídio.

03 - Copia.jpg Kelby: “Eles sabiam que estavam me machucando, mas continuavam”.

A intolerância da conservadora comunidade de Tuttle é tão revoltante quanto a passividade dos funcionários da escola East Middle, apesar de estarem cientes dos acontecimentos e da reincidência dos fatos, eles preferem contornar a situação com conversas evasivas ao invés de agir com rigor. Quando a mãe de Alex cobra que medidas básicas sejam tomadas como forma de prevenção, a vice-diretora Kim Lockwood nega que algo esteja fora do controle. Postura notada em outras instituições que estão mais preocupadas em preservar a imagem do que resolver o problema. Outro aspecto que gera indignação é constatar a hipocrisia dos agressores, capazes de mentir e distorcer incidentes para escapar de punições, descartando assim o mito da ingenuidade e inocência por conta da juventude.

Com relação a Ja'Meya, Hirsch não procura isentá-la do erro, porém expõe a severidade das leis aplicadas, a impunidade dada aos opressores, e colocando sua câmera em uma placa que remonta ao racismo histórico do Mississipi, o diretor não só questiona se a cor da pele teve alguma influência na rigidez das decisões, mas sugere que nossa ignorância e estupidez geraram injustiças ao longo do tempo pelo mau uso da política, do sistema econômico e da religião. A má vontade das autoridades em admitir que o bullying é um problema grave que precisa ser combatido, provoca tragédias que poderiam ser evitadas, daí surgem iniciativas como as de David e Tina Long que motivados pela perda do ente querido que cometeu suicídio, organizam reuniões para debater o tema e buscar soluções no Condado de Murray, Geórgia. Encontros que revelam como a falta de engajamento da sociedade torna a luta ainda mais difícil.

04.jpg Ja'Meya Jackson: “Tentei ao máximo contar a um adulto, mas só piorou”.

Devastador e comovente é observar a dor dos familiares que são obrigados a conviver com o sentimento de culpa, alguns por não terem identificado ou dado a devida importância aos sinais de sofrimento dos parentes, outros por não saberem lidar com a situação. Em Perkins, Oklahoma, Ty Field-Smalley tinha apenas 11 anos e tirou a própria vida por não aguentar os insultos contínuos, seu pai mesmo enfrentando o luto, criou um grupo no Facebook intitulado Stand for the Silent com objetivo de compartilhar experiências, dar voz e organização a um movimento anti-bullying. A ideia de Kirk Smalley, um humilde fazendeiro que mal conhecia a internet, é a prova de que o empenho e o compromisso podem mudar o rumo das coisas. O projeto que nasceu de maneira tão simples, cresceu e virou uma ferramenta de denúncia que oferece esperança para milhões de crianças e adolescentes.

O inconformismo e a cruzada desse homem encontra respaldo nas palavras de Kelby Johnson: “Demorou um tempo para perceber que não se pode mudar tudo de uma vez só. Isso precisará de muitas pessoas de diferentes fases da vida, falando e fazendo a diferença. Isso não precisará só de mim”. É necessário que se aprenda que essas práticas cruéis não são ações inofensivas, os indivíduos provocam torturas físicas e psicológicas que causam traumas que arrasam gerações. A mensagem da obra é que as vítimas não podem ser culpadas pela situação, os pais precisam conhecer melhor seus filhos para ajudá-los, encontrar tempo para conversar e ensinar que não é certo prejudicar os outros. Professores, funcionários devem assumir responsabilidades e fiscalizar comportamentos nocivos, a escola precisa penalizar os infratores e a sociedade como um todo deve se unir.

05 - Copia.jpg Caixão de Ty Field-Smalley carregado por Trey Wallace, o amigo inseparável.

Há uma escolinha na fazenda de Kirk Smalley onde sua avó dava aulas, a antiga construção se chama Progresso, palavra que deveria representar a essência das instituições de ensino, porém a ausência de respeito e a obsessão pela popularidade transformaram muitos desses ambientes em locais onde é preciso sobreviver, algo que fica explícito na declaração de Trey Wallace, colega de Ty e testemunha dos horrores sofridos pelo garoto. Ainda que o filme aponte para o terror e uma condição epidêmica, o cineasta procura expor uma visão positiva ao intercalar a existência das pessoas com imagens de trens cargueiros, o belo simbolismo revela que apesar das intempéries, é possível ser forte, determinado e continuar seguindo em frente. Alex é o melhor modelo disso, nasceu prematuro e os médicos afirmaram que não resistiria 24 horas, mas eles estavam errados.

Lançado em 2011, o documentário Bullying permanece atual e serve de conscientização para que não ocorram novos massacres de Columbine e Realengo.


Allannderson Sales Aguiar

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