Allannderson Sales Aguiar

Jornalista, leitor e cinéfilo.

Uma hora você vai ter que crescer

“O Quase Homem” é um pequeno e encantador filme norueguês que fala sobre as responsabilidades da vida adulta.


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Em certo momento do longa, o protagonista encontra um livro que narra as aventuras de Peter Pan, e assim como o famoso personagem de J. M. Barrie, ele se recusa a sair da Terra do Nunca. Aos 35 anos, Henrik Sandvik (Henrik Rafaelsen) é incapaz de estabelecer uma relação madura com outros adultos, vivendo uma época de transformações com a mudança de casa, um novo emprego e a namorada grávida, ele precisa urgentemente encarar as coisas com outra postura.

Ao som de uma alegre versão de Everyday, de Buddy Holly e Norman Petty, o personagem central surge submerso numa banheira. Quando somos apresentados a sua simpática companheira Tone (Janne Heltberg), não só passamos a conhecer a dinâmica daquele divertido casal, mas percebemos que o jeito brincalhão de Henrik é uma espécie de blindagem que busca esconder seus medos e insegurança, isso fica evidente quando sua parceira faz um simples pedido para que dance de maneira normal, uma situação desconfortável, pois precisa sair de seu disfarce.

É curioso observar que um homem de estatura tão alta consiga demonstrar fragilidade até mesmo física só com expressões e olhares, méritos da ótima atuação de Rafaelsen que dá vida a um protagonista desajeitado e dependente das ações de outras pessoas, seja na arrumação do lar ou para resolver dificuldades no trabalho. Aliás, note a falta de iniciativa do personagem ao tentar solucionar um problema de inscrição para um seminário, veja também a maneira como sua chefe se impõe de forma autoritária perante uma funcionária, Henrik não apenas fica incomodado com a situação como fica explícito que ele não pertence a tal lugar.

02.jpg Espelho, espelho meu: Como faço para virar adulto?

O “universo adulto” para Henrik é confuso e ameaçador com regras que buscam padronizar e domesticar seus membros, a falta de traquejo social do personagem só dificulta a política de boa vizinhança. Na cena em que seus colegas de serviço estão reunidos e começam a fazer piadas com nomes que combinariam com ele, a reação defensiva é desproporcional e equivocada para um instante de interação em grupo. Um recurso interessante que o diretor e roteirista Martin Lund faz uso é incluir elementos que trazem um comentário implícito, no caso, o protagonista liga a TV e está passando Tom & Jerry, assim como o gato daquele desenho que tenta a todo custo pegar o rato, Henrik está perseguindo o modelo certo para ser aprovado pelo meio, mas sem sucesso.

A válvula de escape são seus amigos de longa data, uma turma que não deixou a adolescência, ali não há pressão ou julgamento. Algo parecido pode ser dito inicialmente da união que mantém com Tone, ela é um porto seguro, uma pessoa que entende seu comportamento, inclusive participando desse clima lúdico. Muitas vezes sua namorada desempenha um papel materno, uma mulher que está sempre dizendo o que deve ou não ser feito, passando a mão em sua cabeça e censurando alguns erros, atitude protetora que encontra respaldo na criação de Henrik, a mãe (vivida por Anne Ma Usterud) ainda o trata como se fosse uma criança.

03.jpg O abrigo: Após desavença com a namorada, Henrik corre para a casa da mãe.

ATENÇÃO: Não passe desse ponto se você ainda não assistiu ao filme. Aspectos cruciais do enredo serão analisados nas linhas adiante.

Quando Tone organiza uma festa de trabalho em seu domicílio, Henrik se vê deslocado entre os convidados e acaba preferindo o isolamento. Não conseguindo evitar o contato, ele demonstra um claro incômodo em ter que enfrentar conversas rotineiras e o resultando são indelicadezas. Mergulhado numa atmosfera sufocante em seu próprio lar, algo que é ilustrado em um plano que acompanha o protagonista até o ambiente externo abafando o som que vem de dentro da moradia, ele foge dali para se entregar a uma noitada movida a álcool, amassos e confusões.

Até então, criamos certa empatia por Henrik, pois nos compadecemos das fraquezas e compreendemos os dilemas, desculpamos alguns tropeços, mas agora as atitudes extrapolaram os limites. Enquanto o personagem anda cambaleante pela madrugada, veja que o diretor expressa a perda da inocência com a mordida em uma maçã (remete ao mito de Adão e Eva). Afinal, como ele irá encarar Tone? Chegando ao seu destino, sozinho na escuridão da sala, o protagonista assiste My Family (sitcom inglês produzido pela BBC até 2011), o sorriso amarelo denuncia que cometeu um tremendo erro.

Henrik é tipo de pessoa que mesmo ciente das besteiras que fez, imagina que pode ser perdoado a todo hora com uma gracinha ou outra. Se o modo desengonçado, a hesitação na fala, a ausência de malícia parece ter algum encanto para a namorada, o mesmo não pode ser dito da falta de respeito e consideração. Ela está ficando cansada e cada vez mais consciente da necessidade de uma transformação na rotina do casal, a continuidade do relacionamento começa a ser colocada em xeque, principalmente se considerarmos a pergunta: “Você se sente à altura do desafio?”, Tone realmente não tem certeza do compromisso de seu parceiro com a paternidade ou vida a dois. Bela interpretação de Janne Heltberg que expõe as nuances da personagem em um diálogo que nasce leve e ganha intensidade com pequenas sutilezas, o rosto da atriz não só revela todo o afeto como cede lugar ao desapontamento, a mágoa e a tristeza, sentimentos devidamente marcados pela entonação e o silêncio.

04.jpg Momento crítico: Impaciente com a infantilidade do companheiro, Tone aponta o problema crucial de Henrik.

Apesar de reconhecer suas falhas, Henrik não consegue externar seus pensamentos de maneira clara e madura, ele está sofrendo ao ter que lidar com uma realidade onde seus hábitos não são aceitos, buscar algum tipo de adaptação exigiria acima de tudo vontade própria, porém não é uma tarefa fácil quando é preciso abrir mão de certos itens. Essa incompatibilidade com o ambiente mais sério é destacada de formas variadas, note o desconforto do protagonista em seus novos trajes e no ambiente de trabalho tedioso onde as pessoas evitam sua companhia; seu escritório é tão silencioso e contrastante com sua personalidade que chega a incomodá-lo; ao pedir desculpas a um colega, ele demonstra toda a inexperiência ao contrário do outro que se comporta de maneira condizente com a idade. O clima de estresse, ansiedade e tensão ao longo do filme são salientados pela câmera sempre instável que é uma representação da conduta e da agonia interna do personagem.

No fim das contas, O Quase Homem (2012) é uma obra que discute escolhas que obrigatoriamente são feitas no decorrer da vida. Preste atenção na passagem onde Henrik tem um encontro inusitado com uma garotinha, o simbolismo da cena resume os temas principais do filme, o protagonista precisa parar de se esconder e assumir as rédeas para expandir as possibilidades de seu mundo, despertar da longa inércia que tomou conta de sua existência.

É possível conciliar suas velhas amizades com suas obrigações atuais? Até que ponto está disposto a se reinventar? Conseguirá superar os altos e baixos de uma relação conjugal? A parte final do longa mostra que a jornada teve um impacto e há um esforço verdadeiro do personagem para mudar, existe uma torcida natural para que encontre um equilíbrio, mas o último quadro deixa dúvidas no espectador sobre a durabilidade e evolução daquele amadurecimento.


Allannderson Sales Aguiar

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