Allannderson Sales Aguiar

Jornalista, leitor e cinéfilo.

E a Soberba encontrou a Bondade

“French Roast” é um curta-metragem de animação que mostra a importância das atitudes e a beleza dos gestos.


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Um homem bem vestido em um café parisiense se vê numa situação inusitada, ele perde a carteira e não tem como pagar a conta, entre um cafezinho e outro, as horas vão passando e o sujeito não encontra uma saída para o problema. Trabalho de estreia do diretor e roteirista Francise Joubert, French Roast (2008) é uma história aparentemente banal que se revela uma parábola sobre orgulho, status, falsas aparências e preconceitos. A trama inteira acontece em um dos lados do estabelecimento onde está localizada a mesa do protagonista, nem por isso a narrativa é arrastada ou entediante, pelo contrário, a produção é um ótimo exemplo do uso da linguagem cinematográfica de forma criativa e dinâmica.

O cineasta utiliza de maneira alternada o travelling, o zoom, close-ups e planos mais abertos que dão fluidez à ação, porém mais do que estética, ele procura através desses recursos direcionar o olhar do espectador para detalhes do comportamento das personagens. O design de produção é eficiente ao utilizar um espelho ao fundo que não só dá movimento como oferece profundidade ao cenário, além de mostrar a rua que fica em frente ao local, o utensílio favorece a mise-en-scène ao possibilitar a visualização da fisionomia de figuras que surgem de costas. O elemento também auxilia na percepção do tempo transcorrido através da mudança dos eventos externos, a edição é baseada em pequenos saltos temporais que ocorrem a partir de fades.

A trilha musical de Olivier Liboutry tem um ritmo cômico, porém tece um comentário sobre os atos vistos na tela que são reprováveis, a exceção é o desfecho que carrega acordes mais singelos que buscam refletir sobre a nossa moral, ética e humanidade. Veja como o diretor é sutil ao colocar pequenos efeitos sonoros que indicam o sobressalto de um personagem (o barulho de um carro), a sinalização de algo suspeito (o ruído dos sapatos) e a indiferença diante do próximo (o tilintar de moedas num copo).

ATENÇÃO: Não passe desse ponto se você não assistiu ao filme, no entanto, você pode conferi-lo clicando no vídeo acima que possui apenas 8 minutos. Nas linhas abaixo, analiso os significados da obra.

A lição final remete ao velho ditado “as aparências enganam” e frases do tipo “a ajuda vem de onde menos se espera”, entretanto a pergunta que vem à mente é: Quantas pessoas seriam capazes de tomar a mesma decisão em circunstâncias semelhantes a do mendigo? O homem de negócios poderia ter facilmente encontrado uma solução se não fosse tão orgulhoso, não há razão plausível que o impeça de explicar o que aconteceu ao garçom, esse por sua vez também se omite não ajudando, já que poderia ter perguntado ao cliente se havia algo errado, afinal, o cidadão passou o dia inteiro ali sentado.

Joubert transforma o café numa espécie de microcosmo para criticar a sociedade. Representando a burguesia está o protagonista com seu terno alinhado que pensa ser superior a todos, mas diante de uma adversidade é capaz de uma conduta desonesta para se livrar do problema; o proletariado é o garçom que corcunda e cheio de olheiras é uma figura submissa focada exclusivamente no trabalho, o modo automatizado que presta o atendimento e a insistência em consertar uma lâmpada em detrimento a quem está ao redor é sintomático; há uma cutucada nas instituições, no caso, a polícia é retratada como relaxada e incompetente; o mendigo demonstra as mazelas que são solenemente ignoradas.

02.jpg Entrando numa fria: Como chegamos a esse ponto?

A mensagem desse conto moral é que estamos sempre esperando algo do outro, algum tipo de recompensa, pois fazer o bem sem conseguir nada em troca parece não ter sentido, daí o olhar de surpresa do protagonista ao receber um gesto tão bondoso e gratuito de alguém que para ele nem existia. É sobre como as pessoas julgam os outros por vários motivos e tentam achar justificativas para seus preconceitos. O egocentrismo impede os indivíduos de reconhecer seus erros, cada vez mais nos isolamos e ficamos preocupamos unicamente com nossa imagem perante o meio, acabamos esquecendo o coletivo e criando complicações para nossas próprias vidas por causa de arrogância e insensibilidade.


Allannderson Sales Aguiar

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