Allannderson Sales Aguiar

Jornalista, leitor e cinéfilo.

Muito além do entretenimento

O mundo das artes e o poder do conhecimento são temas da animação “Os Fantásticos Livros Voadores do Sr. Morris Lessmore”.


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No filme Sociedade dos Poetas Mortos, o professor John Keating (Robin Williams) diz: “Não lemos nem escrevemos poesia porque é bonitinho. Lemos e escrevemos poesia porque somos membros da raça humana. E a raça humana está repleta de paixão”. Em Os Fantásticos Livros Voadores do Sr. Morris Lessmore (2011), os diretores William Joyce e Brandon Oldenburg seguem essa mesma linha de pensamento ao discutir a arte como elemento que inspira, diverte, emociona, reflete e fascina, exatamente por ter como matéria-prima nossos sonhos, medos, dúvidas, paixões e frustações.

O curta-metragem de animação narra a trajetória do Sr. Morris, no início, um jovem que está de passagem por New Orleans quando um furacão arrasa a cidade, num ambiente repleto de tristeza e destruição, ele é conduzido para uma misteriosa casa que irá mudar sua vida. Carregado de simbolismo, o roteiro de Joyce está cheio de referências que prestam um tributo aos trabalhos artísticos que marcaram a memória intelectual e afetiva de gerações, mas é também sobre a necessidade de preservação dessas obras, pois só assim elas serão redescobertas e continuarão a ser apreciadas no futuro.

Não poderia ser mais emblemática a cena que abre o filme, o espectador é literalmente enviado para dentro de um livro que logo saberemos se tratar das memórias do protagonista, ou seja, somos levados a conhecer a mente e os segredos de Morris. Um artifício admirável que remete a obras como Alice no País das Maravilhas, o autor Lewis Carroll criou metáforas com uma roupagem fantasiosa, mas que escondem um dos mais brilhantes estudos de personagem já realizados e que tem a toca do Coelho como porta de entrada.

ATENÇÃO: Não passe desse ponto se você não assistiu ao filme, no entanto, você pode conferi-lo clicando no vídeo acima que possui 15 minutos. Nas linhas abaixo, analiso os significados da obra.

Um centro cultural e turístico dos Estados Unidos, New Orleans foi devastada pelo furacão Katrina em 2005, a tragédia serviu como fonte de inspiração para os realizadores. Uma das mensagens mais importantes do curta é sobre o poder agregador que a cultura exerce mesmo em tempos difíceis, sem ela o mundo ficaria mais sombrio, na sequência onde Morris anda pelos escombros tendo um chão repleto de livros despedaçados, as cores deixam de existir naquele universo. O patrimônio cultural não só enriquece uma comunidade como oferece um caminho, um recomeço, uma identidade.

Quem somos? Qual nossa função na sociedade? Essa busca por autoconhecimento fica evidente pela quantidade de dúvidas e interrogações que surgem nas páginas escritas pelo protagonista. Não é à toa que os cineastas façam tantas referências ao tom alegórico do filme O Mágico de Oz (adaptação do livro de L. Frank Baum), assim como Dorothy, Morris está procurando repostas e um rumo para sua vida, nesse caso, o furacão, a fotografia preto-e-branco e o clima de desolação dos primeiros minutos ganham significados distintos, eles falam sobre o tumulto interior do personagem.

O legado, o registro histórico, a durabilidade do produto cultural são alguns dos temas centrais da animação. Em uma das cenas, Morris tenta recuperar um livro que está caindo aos pedaços, no entanto, tudo que ele precisa é ler suas páginas para que o objeto volte a ter “vida”, os diretores ilustram aquilo que o compositor John Hunter disse ao fazer a trilha: “Concentro-me mais no eixo de não importa qual seja a sua situação, você pode mergulhar em um livro, e ele vai tirar você de onde você está, que irá transportá-lo de alguma forma”.

A sequência faz uma homenagem aos musicais da Warner, MGM e Broadway com destaque especial para as grandiosas e geométricas coreografias de Busby Berkeley. Citação igual é feita a Buster Keaton, o genial ator do cinema mudo que empresta seu rosto ao protagonista, “O homem que nunca ri” tem a face iluminada pelas diversas emoções proporcionadas pela leitura do clássico Da Terra à Lua (do escritor Júlio Verne), livro que influenciou um dos pioneiros do cinema, o também francês Georges Méliès a fazer Viagem à Lua (1902). Aliás, Keaton tinha a capacidade de transmitir através de seu olhar marcante, gestos contidos e expressões discretas, uma quantidade enorme de sentimentos profundos, algo que é visto ao longo do filme.

Keaton já precisou fugir de um ciclone, veja as cenas de Marinheiro de Encomenda, comédia que estrelou e co-dirigiu em 1928.

Menções são feitas ao quadro a quadro que é um dos princípios básicos do cinema e da técnica de animação, Morris é orientado pelo personagem Humpty Dumpty (ovinho enigmático que surge em tantas histórias), representado em formato de livro, ele se comunica com nosso herói através do efeito contínuo das páginas sendo folheadas. A própria evolução do gênero animado está ali exposta, já que durante a convecção do projeto foram usados cenários em miniaturas, o desenho em 2D e a computação gráfica. Há espaço até para críticas sutis à programação televisiva, observe que o primeiro objeto que é arrastado pelo vendaval é exatamente um aparelho de TV fora do ar. Note o excelente design de produção que explora as possibilidades do enredo sobre o mundo das ideias e da imaginação, os elementos mágicos enaltecem o ato de criar e absorver cultura.

02.jpg Viagem Fantástica: Morris encontra seu guia.

Outro aspecto que merece destaque é a bonita trilha, ela tem como base a música Pop Goes the Weasel, Hunter fez variações dessa melodia com velocidades e funções diferentes. Quando toca Summer’s End, composição de Elmer Bernstein e tema de O Sol É Para Todos (baseado no livro de Harper Lee), o filme evoca questões abordadas naquele longa de 1962 que trata do passado, das lições aprendidas e dos modelos a serem seguidos. “Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar sobre as suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte”, escreveu o autor espanhol Carlos Ruiz Zafón. A arte transcende o tempo e todos nós somos guardiões desse tesouro.


Allannderson Sales Aguiar

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