relatando

remar contra a corrente, desafinar o coro dos contentes...

Renata Souza

Tenho jornalismo como profissão e gosto de pensar que também como vocação. Acredito na escrita como forma de desenhar o mundo e na música como uma infindável fonte de inspiração.

Só sei que tudo sei

Detemos o título de “Sociedade da informação”. Somos a geração que tem poder de voz e notoriedade, potencializados pela internet e pelas novas tecnologias. Mas, ao mesmo tempo em que avançamos, parecemos esquecer que a primícia do conhecimento é reconhecer que nada sabemos.


Em 469 a.C, Sócrates nascia em Atenas. Considerado o pai da filosofia, ele formulava insistentemente perguntas que o interessavam sobre o mundo a sua volta, desenvolvendo assim uma nova maneira de pensar.

Sócrates questionava toda a maneira de se enxergar o mundo. Para ele, compreender o que somos era a primeira tarefa da filosofia. Acreditava, sobretudo, que para adquirir conhecimento acerca do outro e de si mesmo era necessário compreender os limites da própria ignorância.

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Muitos moradores de Atenas começaram a referir-se a Sócrates como sábio. Ele, desejando saber o que significava ser um sábio e se poderia ser chamado assim, foi à cidade de Delfos, onde havia um santuário dedicado ao deus Apolo, considerado o patrono da sabedoria. Lá, Sócrates consultou o oráculo, que lhe perguntou: “O que você sabe?” Sócrates então responde, com a frase que seria lembrada muito tempo depois de sua morte: “Só sei que nada sei”. O oráculo conclui então que Sócrates é o mais sábio de todos os homens, pois é o único que sabe que nada sabe.

Hoje, mais de 23 séculos depois, ainda cultivamos o questionamento sobre as coisas que acontecem no mundo, da mesma forma que Sócrates fazia em Atenas. Todos nós, em algum momento, nos questionamos sobre a finalidade da vida e o porquê das coisas acontecerem no mundo. Mas, a maior diferença de nosso tempo é que todos nós achamos que somos detentores da verdade. Sabemos demais. Sabemos tudo. Sabemos sobre qualquer coisa.

Basta surgir um assunto e lá vamos nós, prontos para despejar nossos conhecimentos infinitos.

Não acredito que a internet e toda a democratização da informação seja uma coisa ruim. Longe disso. Os avanços são inquestionáveis. Mas, de certo modo, a tecnologia nos emburreceu.

Emburreceu porque criou a falsa ilusão de que somos os detentores de todo o conhecimento. Cada um de nós defende sua verdade absoluta, crente de que já não há nada a saber. Não há espaço para o questionamento. Não há espaço para o debate. Basta ler comentários de blogs (seja Constantino, seja Sakamoto), para perceber que as pessoas usam todo o seu embasamento para se impor. Vencer a discussão. Somos a geração que se assume e se reconhece como aquela que tudo sabe.

Sócrates baseou todo o seu raciocínio em cima do questionamento. Andava pelas ruas de Atenas fazendo perguntas como: “O que é isso em que você acredita?” Questionava sobre a realidade que as pessoas achavam conhecer, para levar os atenienses a descobrir a diferença entre parecer e ser. A primícia de Sócrates, de que para adquirir o saber, o homem deveria reconhecer que não sabe, é uma realidade distante de nossos dias. E quando deixamos de questionar a visão que temos do mundo, quando não reconhecemos que não sabemos tudo, estancamos a possibilidade de entender o nosso papel, como indivíduos e como parte de um todo, que é maior que nossas vivencias pessoais.

É importante retomarmos a consciência da nossa própria ignorância. E, se buscamos entender a realidade complexa de nossos dias, é preciso reconhecer que só sabemos que nada sabemos.


Renata Souza

Tenho jornalismo como profissão e gosto de pensar que também como vocação. Acredito na escrita como forma de desenhar o mundo e na música como uma infindável fonte de inspiração..
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