relatando

remar contra a corrente, desafinar o coro dos contentes...

Renata Souza

Tenho jornalismo como profissão e gosto de pensar que também como vocação. Acredito na escrita como forma de desenhar o mundo e na música como uma infindável fonte de inspiração.

Sobre o tamanho extragrande de nossos preconceitos

De que forma o padrão estético e a valorização da auto-imagem tem transformado nossa visão de mundo e influenciado nosso convívio social? Até que ponto o nosso ideal de bem-estar está ligado a um corpo magro, musculoso e eterno?


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Mischa Barton, conhecida por interpretar Marissa Cooper no seriado The O.C (2003 -2007), estampou manchetes este mês, cujas informações se resumiam em: “Atriz é fotografada com quilinhos a mais”. Muitas das pessoas que acompanhavam a série mostraram espanto com as mudanças no corpo da atriz e comentários como “Tenho medo de ficar gorda depois de ver como a Mischa ficou”, foram recorrentes.

O fato de uma celebridade ser manchete por ter engordado e os inúmeros comentários sobre o assunto revelam muito sobre o tempo em que estamos inseridos. Dizem muito sobre a mulher e a relação com o seu corpo, com a sociedade e com o conceito de beleza.

Em 2011, um documentário produzido pela HBO realizou um experimento, onde mulheres com lindas fotos no Tinder marcavam encontro, nos quais compareciam com maquiagem que as deixavam gordas. Dada a reação dos homens quando as viam, os pesquisadores constataram: “No mundo do namoro virtual, as mulheres têm medo de se envolver com um serial killer, enquanto os homens temem encontrar uma pessoa gorda”.

Em um período histórico onde somos cercados, envolvidos e bombardeados o tempo todo com reportagens sobre dieta, conversas sobre dietas, amigos fazendo dietas, propagandas de academias, conversas sobre academias e frases que começam ou terminam com fitness, não é de se espantar a reação das pessoas quando se deparam com uma celebridade que era magra e de repente aparece com um corpo fora do padrão.

A valorização da imagem eternamente jovem e magra trouxe uma expansão na busca da beleza estética em diversas áreas da atividade humana. Mas, o maior impacto está muito além do nosso reflexo no espelho, está na construção de nossos preconceitos e na relação do ser humano diante do outro.

Quando conhecemos alguém, quase que instantaneamente, nosso primeiro olhar avalia se a pessoa é gorda ou magra. Bonita ou feia. Bem vestida ou desarrumada.

Conheci a Clara* há pouco tempo, em um bar de São Paulo. Em algum momento enquanto conversávamos, ela me disse, numa espécie de auto defesa, que já tinha se acostumado a ser sozinha, porque ninguém queria ficar perto de uma mulher gorda. Em suas palavras, ela estava 42 quilos acima do peso. Comparando com a Gisele Bundchen, uns 50.

Enquanto contava sua história, o nascimento da sua filha, o laço bonito que as duas tinham, a sua rotina no trabalho, a sua paixão pelos Beatles, ficou claro para mim o quanto justificamos nossos preconceitos em um discurso de saúde. Temos a ideia de que gordos são engraçados, mas infelizes; porque gordura é doença, é falta de disciplina alimentar e no nosso tempo fugimos de doenças,de doentes e de gente acima do peso que julgamos saudável.

O ideal da nossa época é estar feliz em um corpo magro, saudável e eterno.

Em certo momento da conversa Clara chorou e eu entendi que ela não estava tão à vontade com a solidão, como havia dito. Entendi naquele momento que por mais estruturada psicologicamente que uma pessoa seja, a rejeição tem sempre um papel devastador. Clara não é apenas um acumulo de massa. Os quilos a mais são apenas uma característica, em meio a tantos outras. Assim como Micha Barton. Mas em nosso tempo o corpo tem o poder de destacar, incluir e excluir.

Discursos dirigidos às mulheres ainda tem o intuito de mandar a mensagem: “fechem a boca, façam uma plástica, vão malhar e não virem a Micha Barton”, reforçando o papel de que para ser aceito e feliz é necessário um corpo belo e bem visto socialmente.

A indústria joga com as inseguranças e incertezas humanas, plantando a ideia do que é ou não saudável, do que é ou não correto esteticamente e de como é preciso conservar uma beleza jovem e eterna. E, o fato de muitas mulheres atualmente estarem insatisfeitas com os seus corpos é uma demonstração de que a estratégia funcionou.

A repercussão da mudança no corpo de Mischa fala não só dela, mas de todos nós. Expõe e nos confronta sobre nossa visão e aceitação. Sobre como nos enxergamos e como enxergamos o outro. E nos questiona sobre nosso papel na complexidade de um período histórico marcado por distúrbios alimentares, academias, cirurgias estéticas e fobias sociais, causadas pelo medo e pela frustração. Frustração por não alcançarmos um padrão estético que achamos necessário e medo de sermos apontados como “alguém com quilinhos a mais”.

Hoje, vivemos uma busca por tudo que seja esteticamente perfeito, mas, felizmente ou infelizmente, a vida é muito mais complexa que isso e há inúmeras maneiras de medir sua importância e o manequim 38 não é, ou pelo menos não deveria ser, o que há de mais importante.

*O nome verdadeiro foi trocado para preservar sua identidade.


Renata Souza

Tenho jornalismo como profissão e gosto de pensar que também como vocação. Acredito na escrita como forma de desenhar o mundo e na música como uma infindável fonte de inspiração..
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