relatos míopes de uma jornalista cega

Porque não somos estranhos o suficiente...

Andréa Mota

Jornalista por formação e comunicóloga sem estante.
Paraense de sangue, carne e saudade.
Comendo o próprio arroz e cozinhando a própria roupa.
Sonho: Perder o juízo.

Frankie and Johnny (1991)

Destituído de pesados adornos cinematográficos, Gary Marshall encontrou na simplicidade a tônica para conquistar admiradores. Era 1990. E eu nem tinha idade de gente. Mas, mesmo antes de saber de suas procedências, concordei que Frankie and Johnny eram bem mais que título de música. Eles eram amantes.


No dia em que me emancipei das novelas globais, eu conheci Al Pacino. Lembro que, na minha meninice, serializava o comportamento social da família Mota com queixo nas mãos e olhos amaciados. Era tão habitual quanto alimentar-se todos os dias. Mas, por razão alguma, sai da frente da televisão e, de uma forma sutil, recebi olhares mal sintonizados, mas compreensíveis. Era o começo de uma nova era.

Pode parecer revolucionário para quem leu até aqui, mas, no final das contas, só fiz trocar de televisão, do sofá para o chão e de canal. Enquanto tossia para tirar o pó da TV de lego, legado de pretensões portáteis, eu parei exatamente no rosto do Al. Quer saber, eu nem fazia ideia de quem era aquele sujeito de olhos pretos e penetrantes.

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Na cena, ele estava saindo de uma ‘instituição correcional’ e uma música¹ segredava de forma amigável o enredo do filme, meio que uma cola fabricada na escola. Como não haviam me contado sobre a Torre de Babel, o bilhetinho passou bem longe de mim e eu ignorei por completo. Se eu soubesse na época da redundância desse tal de Gary, teria mudado de canal me sentindo ofendida e até classificado nos arautos da eternidade o tal Al como um ator mediano. Sábia ou não, a ignorância me rendeu uma boa noite de filme.

Outro dado ignorado por meus poucos predicados era que, “se eu soubesse” da filmografia de Al Pacino teria rido de sua nova e habitual relação com o ilícito, mas, mais do que isso, estaria com dúvidas sobre o reposicionamento dos astros, se o planeta ainda estava girando na velocidade correta e por que diabos Alfredo James Pacino estava protagonizando um filme romântico. Mas a habitualidade do dia já havia perdido seu roteiro em alguma ventania de outono e lá estava eu, sujeitinha de uns 15,16, 17 anos inventando o já inventado.

Enquanto Johnny saia de seus aposentos gradeais para o lixão a céu aberto, Frankie, vivida por Michelle Pfeiffer, já conhecia o caminho dos enlatados há muito tempo. Ambos saiam cada um a seu tempo, de traumas passados e tentavam construir muros sem cadáveres emparedados. Tarefa árdua, mas nada como um “where lovers alright” para amaciar a carne dessa prosa chamada, claro, Frankie and Johnny.

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Originada de uma peça de Terrence McNally, a história era a mais nova aposta cinematográfica do diretor Gary Marshall, autor afiado do gênero romance. Antes deste, lançado em 1991, o cineasta já havia ganhado certa notoriedade com Uma Linda Mulher (1990). Ao que parece, ele tinha roubado da Vó a receita secreta de cativar os românticos (o que não se configurou como trabalho árduo ao longo dos anos). E lá estava ele, em mais uma empreitada, roubando minha juventude.

Mas algo ali cativou minha meninice. Enquanto anotavam pedidos, cultivavam uma vida mediana e cozinhavam abreviadas postas de solidão, um universo saboroso se apresentava em meio às couves. Era uma história de amor de uma cotidianidade exuberante e de uma sobriedade digna de amantes reais. É simples ou confuso, como toda história de amantes pode ser. O grande tempero de Gary foi, definitivamente, a simplicidade. E eu, menina de romances escassos, adorei a economia dos pirotécnicos. E me apaixonei por Al. Até cortando aquela cebolinha como se despedaça defuntos (não tenho conhecimentos sobre isso), este tal de Al me deixava inebriada. E o contato era maduro, saudavelmente possível.

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Ao invés de economizar em cenas aparentemente dispersas, o longa nos presenteia com a brevidade e a riqueza do cotidiano. Um enredo simples, cenário igualmente simples e um amor desses de desbancar qualquer grande produção de notoriedade aparente. Quem admira a película gosta mesmo é da história, do tempero viciante de um bom prato de comida.

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Gary, ao produzir este filme, ganhou minha admiração em relação a ele. Diferente do que se escuta, prefiro simpatizar ou não com um sujeito por momentos de sua vida. Naquele domingo, de um mês de julho, sei lá, Marshall se debruça no roteiro de Frankie and Johnny. Marca de tomar um café com os amigos, escuta Ray Charles e detesta o trânsito da cidade. Ao mesmo tempo, ele pensa nos personagens, na disposição dos lugares, no vento daquela Nova York da década de 1990, nas cenas “frame a frame” e nos oferece um Gary daqueles dias, sem tirar nem por e, muito menos, sem acrescentar o que ainda não existe.

E naquela época ele estava inspirado. Claro. Quem não se delicia ouvindo Clair de Lune? A clássica melodia, saída de algum esconderijo dos amantes, ficou famosa nos acordes de Claude Debussy, foi composta pelo francês Gabriel Fauré e, mais ainda, inspirada nos versos do também francês, Paul Verlaine que, num dia de dedos estalados e brisa lunar favorável escreveu “Sentimental Promenade”, em português indicada como “Conversa/Passeio Sentimental”. Ou seja, não tinha como dar errado. E esta cadeia de representações talentosas só podia dar nisso...

E nisso...

Ficha Técnica:

Diretor: Garry Marshall Elenco: Al Pacino, Michelle Pfeiffer, Hector Elizondo, Nathan Lane, Kate Nelligan, Jane Morris, Greg Lewis, Al Fann, Ele Keats, Fernando López, Glenn Plummer. Produção: Charles Mulvehill, Alexandra Rose, Michael Lloyd Roteiro: Terrence McNally, baseado em peça teatral de Terrence McNally Fotografia: Dante Spinotti Trilha Sonora: Marvin Hamlisch Duração: 118 min. Ano: 1991 País: EUA Gênero: Comédia Romântica Cor: Colorido Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures

¹Som de abertura, clique aqui. ²Frankie and Johnny, música de Elvis Presley em meados de 1960 e trilha do filme de mesmo nome. ²Música cantada por Johnny Cash, atrás de sua Frankie. ³Música Popular Americana ³Restaurante em New Orleans, LA. nº 70115.

et cetera...


Andréa Mota

Jornalista por formação e comunicóloga sem estante. Paraense de sangue, carne e saudade. Comendo o próprio arroz e cozinhando a própria roupa. Sonho: Perder o juízo..
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