relatos míopes de uma jornalista cega

Porque não somos estranhos o suficiente...

Andréa Mota

Jornalista por formação e comunicóloga sem estante.
Paraense de sangue, carne e saudade.
Comendo o próprio arroz e cozinhando a própria roupa.
Sonho: Perder o juízo.

Um Sampaio Teimoso

Artista sublime da Contracultura, Sérgio Sampaio passeou pelo samba, pelo choro, pelo blues. Era um poeta nato e morreu em um anonimato que não lhe é devido. “Triste nisso tudo é tudo isso, quer dizer tirando nada, só me resta o compromisso..."


Naquele dia, a rua em frente à CBS (atual Sony Music) estava pouco movimentada. Carros passando em seu habitual e frenético andar e eu estava ali, do outro lado da rua, pensando na vida, incomodando algumas narinas que, indiferentes, respiravam um pouco menos por conta da fumaça democrática que eu produzia. Foi quando vi um sujeito meio magrelo, com uma papelada confusa nas mãos e um olhar esperançoso. Ele respirou duas vezes e entrou na sede da produtora. Eu não lembro o que fiz logo em seguida, mas algo me dizia que aquele anônimo teria muito trabalho pela frente.

Na verdade, eu não nasci na década de 1970, tampouco tinha pulmões para tragar um cigarro em uma ruela de uma cidade que nem se quer conheci. Mas, daria tudo para ter visto a figura e, mais ainda, noticiado sobre sua genialidade. Estou falando de Sérgio Sampaio.

um sampaio teimoso.jpg

Naquele dia, que eu não sei exatamente quando, ele iria fazer um teste na CBS. Após a apresentação de Odibar, parceiro do cantor Paulo Diniz, foi vez do Sérgio. Ai ele começou...

“Leio, ouço comento e grito que o mundo não tem razão. Nunca mais eu me largo, amigo, na sombra de sua mão. Tanta gente se diz dona da luz, mas eu não to nessa, não me seduz. Fim do século da espera e da comunicação. Eu me ligo é numa rede e num pé de coco verde, eu me amarro é na Tereza, minha amiga, irmã”. (música Coco Verde).

raulsergio.jpgTerminado o balaio, um sujeito barbudo se despede de Odibar e quando é a vez de Sérgio, ele diz: “Volta Amanhã”. Foi o começo para Sérgio, mais do que isso, foi a primeira pinga que ele e Raul Seixas tomaram juntos. Raulzito era produtor musical da CBS na época e os dois ficaram amigos logo de cara.

Mas a estrada de Sérgio Sampaio já tinha iniciado lá mesmo em Cachoeiro do Itapemirim, no Espirito Santo. Seu pai, Seu Raul Gonçalves Sampaio era dono de uma tamancaria e maestro de banda. Além do pai, Sérgio era primo de Raul Sampaio Cocco, compositor de canções que fizeram sucesso na voz de Roberto Carlos. Quer dizer, a coisa toda tava ali, na varanda, numa seresta de domingo. Uma das canções cantadas por Sérgio e, posteriormente, Luiz Melodia, é “Cala Boca, Zé Bedeu”, de autoria de seu pai.

O que ele gostava mesmo era de rádio. E no radinho, ouvia suas inspirações: Orlando Silva e suas melodias e sua voz marcante, Nelson Gonçalves e Silvio Caldas e seu chão de estrelas. Logo ele conseguiu um lugar na XYL-9, rádio da cidade, e lá imitava radialistas como Luiz Jatobá. Com 20 anos corridos, ele resolveu tentar vida no Rio de Janeiro. Ele foi, mas lá encontrou a melodia boêmia das ruelas cariocas: bebeu, embriagou-se de uma cultura fluminense que o deixou a mínguas. Sem trabalho ou dinheiro para manter-se em pensões, ele chegou a mendigar por comida.

Em 1970, já com a vida menos atribulada, demitiu-se da Rádio Continental, onde estava, e resolveu dedicar-se a sua grande paixão: a música, claro. Neste mesmo período, ele cantava em bares da cidade. Quando conheceu Raul e entrou para diversas gravações, ele experimenta algum sucesso com seu primeiro compacto com a música Coco Verde, em 1971. Algum tempo depois, ele inicia com Raul um projeto de ópera rock, censurado pela ditadura. Na verdade, algumas canções foram quase que mutiladas, mas sobrevivem no álbum Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das dez. Uma memorável parceria e o primeiro disco de Raul. Junto deles, Miriam Batucada e Edy Star compõe a Sociedade.

kav.jpg

Ouve ai...

Teve sucesso no carnaval de 1973 com a música Eu quero é botar meu bloco na rua e ganhou, pela canção, o Troféu Imprensa pelas mãos de Silvio Santos, ainda na Rede Globo. Apesar do sucesso da música, o LP com o nome dela foi um fracasso de vendas. Neste período ele escreve a música Meu Pobre Blues, canção escrita para o ídolo Roberto Carlos. Seu sonho era que o conterrâneo cantasse algo de sua autoria, mas isso nunca chegou a acontecer. O resultado do Blues é fantástico. Se Roberto ouviu não saberei dizer.

Em seu segundo casamento com a arquiteta Ângela Breitscharft, nasce João em 1983. Apesar continuar compondo regularmente, Sérgio chegou a se tornar-se relíquia até para seus fãs. Na verdade, o capixaba não teve o espaço merecido: sem músicas no rádio, pouquíssimos direitos autorais e um artista esquecido pela imprensa. Paralelo a isso, Sérgio bebia constantemente. Mas ele não fica nisso por muito tempo. Logo se enamora de uma dona Regina Pereira e vai embora para Bahia. No início dos anos 90 ele renasce. Em 1992, é convidado para participar do show Baú do Raul, do amigo morto em 1989. No aniversário do filho, em 1993, ele anuncia que iria deixar a bebida. E dali em diante passou a fazer mais shows e estava, a convite do selo paulista “Baratos Afins”, trabalhando um repertório de canções inéditas.

Um mês depois de completar 47 anos (em 13 abril), ao lado de amigos como Sérgio Natureza, Chico Caruso e Luis Melodia, ele veio a falecer por conta de uma crise aguda de Pancreatite. Sérgio deixou um filho e milhões de fãs que o conheciam e, particularmente, que deveriam o conhecer. Típico artista da Contracultura, ele foi o primeiro de Cachoeiro, sua cidade. Suas composições são enérgicas, falam com poesia de temas diversos e exalam a sobriedade desse artista nata.

Balaio do Sampaio.jpg

Após sua morte, Sérgio Sampaio foi homenageado em curtas; em Shows, como o Balaio do Sampaio (1996), com a presença de Alceu Valença, Jards Macalé e outros. O CD, Balaio do Sampaio, resultado do show; uma biografia Eu quero é botar meu bloco na rua, por Rodrigo Moreira pela Editora Muiraquitã; Em 2005, Zeca Baleiro, grande fã de Sérgio, lança Cruel com belíssimas canções; A peça teatral Velho Bandido – O bloco de Sérgio Sampaio, em 2009, no Teatro Arena; e tantas outras homenagens. Ele merece não ser esquecido. Vida longa a Sérgio!


Andréa Mota

Jornalista por formação e comunicóloga sem estante. Paraense de sangue, carne e saudade. Comendo o próprio arroz e cozinhando a própria roupa. Sonho: Perder o juízo..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/Melodias// @destaque, @obvious //Andréa Mota