relatos míopes de uma jornalista cega

Porque não somos estranhos o suficiente...

Andréa Mota

Jornalista por formação e comunicóloga sem estante.
Paraense de sangue, carne e saudade.
Comendo o próprio arroz e cozinhando a própria roupa.
Sonho: Perder o juízo.

Billie e Lester: o melhor do Jazz

Nos atribulados anos 1930, em que a segregação racial era a mistura indigesta da realidade norte-americana, dois mundos se encontram em um mesmo acorde: o jazz. Há quem diga que, naquele dia, uma nova forma de poesia amorosa foi criada por meio da voz humana e um instrumento musical.


Das esquinas conturbadas de um país em apartheid, duas figuras trariam ao vibrante jazz uma leveza notória. Era 1937. Billie, 22 anos, uma menina. Sentada em uma das extremidades, ela ouvia sem pressa a sucessão de fôlegos em notas, um combinado sublime de instrumentos de marcha. Fazia tempo que o jazz havia ressignificado aqueles acordes. Naquele ano, duas vozes pareciam ter sido feitas para acalmar uma realidade em ebulição.

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No dia 25 de janeiro daquele ano, Lester Young e Billie Holiday entrariam juntos em um estúdio pela 1ª vez. Foi um encontro formidável. Enquanto ela dizia, “sem o seu amor, eu sou como uma canção sem palavras, assim como um ninho sem pássaros, sem o seu amor”, ele...

Vindo de Woodville, no Mississippi, Lester Willis Young era músico por nascimento. Com uma família de músicos, era difícil imaginá-lo em outra história. Quando criança mudou-se para New Orleans e lá aprendeu trompete, violino e bateria com o pai. Logo se tornou membro da banda familiar. Apesar daqueles instrumentos encantadores, nada se comparou ao aveludado modo de ser do sax. E assim o foi.

Enquanto isso, Billie não sabia ao certo porque teria sido posta no mundo. Clarence Holiday e Sarah Fagan tinham, respectivamente, 15 e 13 anos. E não foi uma criança que os daria maturidade suficiente. Não demorou muito para que o pai de Billie abandonasse a família para seguir sua guitarra e sua, claro, banda de jazz. Nascida na Filadélfia, Eleanor Fagan Gough foi criada em Baltimore desde muito pequena por uma mãe que a deixava, constantemente, com familiares.

O resultado da mistura: menina, negra e pobre, todo mundo já sabe. Violentada sexualmente por um vizinho, Billie foi castigada por isso e internada em um centro correcional. Com 12 anos, seu lugar é o chão de prostíbulos, lavando-os e afagando os pés que passam. Não demora muito para encontrar a porta mais próxima.

Em 1929, já em New York, mãe e filha encontram o preconceito racial, moda da época. A situação se agrava (mais ainda): presa por quatro meses por não agradar a máfia do Harlem, Billie chega a 1930 com a porta da rua e 45 dólares para arranjar, a fim de pagar o senhorio. Era matar ou morrer.

Alguns anos antes, a vida de Lester mudaria por conta da mesma moda de pescar preto no rio. Na época, as leis de Jim Crow vigoravam em diversos estados. Em função da “superioridade branca”, os negros eram convidados a frequentar espaços segregados, a não matricularem suas crianças em qualquer escola e a posicionarem-se de joelhos e aceitar tudo calados. Em uma turnê da família, Lester recusou-se a pisar no sul do país, local onde a lei estava em vigor. Em 1927, o saxofonista-tenor deixa a banda.

Com 15 anos e uma vida por um fio, Billie sai um dia às ruas desesperada. Em busca dos 45 dólares, ela entra no bar Pods' & Jerry's oferecendo-se como dançarina. O rebolado não agradou, mas o pianista – com pena – perguntou a garota se ela sabia cantar. Sem ter muito para perder, Billie pediu que ele tocasse Trav'lin' All Alone, de composição do pianista JC Johnson. O resultado todo mundo já conhece...

Billie saiu do bar com 57 dólares e emprego fixo.

Apesar do bom desempenho, Lester destoava do estilo agressivo que vigorava por meio das notas de Coleman Hawkins, saxofonista-tenor mais importante da época. Nesse período, deixou a banda de William Basie, conhecido como Count Basie e se aventurou em substituir Hawkins na Banda de Fletcher Henderson, o que não agradou o público.

Três anos após o início da carreira, Billie foi assistida pelo produtor John Hammond. Assim, a cantora entra pela primeira vez em um estúdio. Logo sua carreira decola e, finalmente, Lester e Billie atravessam a mesma porta. Era a banda de Count Basie. Na verdade, os dois aliaram-se à realeza do jazz da época. Tanto que, Lester foi apelidado de “Prez” (presidente) e Billie Holiday passou a ser lady Day do Jazz. Ao lado deles, nomes como Benny Godman (rei), Duke Ellington (duque) e o próprio Count Basie (conde).

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Mas ainda era 1935. E Billie teve que passar por algumas situações intragáveis em seu período com as Big Bands. Além de sentir certo preconceito em turnês pelo sul do país, o que já era de se esperar, a cantora teve que pintar seu rosto de graxa de sapato porque um empresário engraçadinho achou que Billie tinha uma pele muito clara. O que ela fez a respeito disso? Arrumou as malas e voltou para na New York.

Finalmente, em 1937, Billie e Lester entram naquele estúdio. A combinação daquele sax sem agressões e da aveludada voz de Holiday garantiram a qualidade de mais de cinquenta canções em quatros anos. Junto deles, o trombetista Buck Clayton deixou registradas notas naquela sinfonia de belos acordes.

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A vida seguiu para ambos. E em 1959, o mundo perdia duas notáveis figuras. Billie entregou-se às drogas e morreu de overdose e Lester tornou-se alcoólatra e teve problemas mentais, resultado de maus tratos a negros durante a segunda guerra mundial. Apesar do fardo de suas vidas e o contexto no qual estavam inseridos, vale recordar a delicadeza de seus tons aliada ao bom gosto de seu ritmo.

Não posso deixar essa fora do post (mesmo não fazendo parte da lista)

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Andréa Mota

Jornalista por formação e comunicóloga sem estante. Paraense de sangue, carne e saudade. Comendo o próprio arroz e cozinhando a própria roupa. Sonho: Perder o juízo..
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