relatos míopes de uma jornalista cega

Porque não somos estranhos o suficiente...

Andréa Mota

Jornalista por formação e comunicóloga sem estante.
Paraense de sangue, carne e saudade.
Comendo o próprio arroz e cozinhando a própria roupa.
Sonho: Perder o juízo.

Uma garrafa de Vinícius

De muito, ele não coube em si. Para desafogar seu caos, Vinícius de Moraes amou nosso amor, chorou nossa sofreguidão e riu nossa saudade. Mesmo assim o tal sujeito transbordou o gargalo, embebedou as ladeiras e nos deu a honra lhe ver assim, tão poeta.


Uma tarde em preto e branco. Pés sem rabiscos apressavam o contorno passivo das ladeiras que, sem lágrimas, amavam, sorriam, calavam. Eram meados de 1950. Uma década de muitas histórias para manchetes, mas que diziam pouco da (in) sensatez da vida. Quando “Chega de Saudade” atravessou aquelas ruas, uma lata de tinta vermelha embebedou paredes e amantes, antigos e novos, futuros amores.

Não era o começo de nada. Nem se pode prescrever sobre esses versos um rótulo, uma alcunha mais bem elaborada que fosse. Com mais de quarenta anos de uma vida sua, Vinícius já tinha amado o amor e transbordado de seu contrário algumas vezes. Era natural querer falar sobre. O que lhe conferiu a história o status de poeta exemplar foi, acima de tudo, a intensidade de seus sussurros que, sem compromisso, alcançaram cada estação, barulho, murmúrio. Ele amou, abriu a garrafa e nos ofereceu o mesmo uísque.

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Vinícius era da Gávea, no Rio. Parece ter nascido com arranjos e estrofes ao invés do bom e velho sangue e suor. Mesmo seguindo a vida de diplomata, o que aliais não deixa de ser cômico, o poeta nunca conseguiu pendurar a ‘poetice’ e seguir de terno e gravata por ai. Apesar do desarranjo, formou-se em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade de Direito do Catete (atual UERJ). Em suas incursões pelos paletós, colheu algumas rosas e conheceu muita gente interessante. Seu trabalho mais longo foi no Itamaraty, com 26 anos nas costas.

Paralelo a esta vida, Vinícius de Moraes não deixava seu caderninho levantar poeira. Era cativo em seu exercício de poeta e músico, crítico e agregador. É que ele tinha um angu diferente, desses que quando se rotula parece sangria desvairada. Seu primeiro registro como letrista, em 1928, apresentou aos poucos atentos um sujeito de democráticas preferências e, principalmente, leveza e textura. (Loura ou Morena, de composição de Vinícius com Haroldo Tapajós, gravada por Haroldo e seu irmão Paulo em 1932).

Daí desembestou. Sobre seu primeiro livro de poemas, “O Caminho para a Distância” (1933) ele disse: “São cerca de quarenta poemas intimamente ligados num só movimento, vivendo e pulsando juntos, isolando-se no ritmo e prolongando-se na continuidade, sem que nada possa contar em separado. Há um todo comum indivisível”. Não era difícil vislumbrar desregras em sua mesma vida. Congregou os principais poetas, deu-lhes as chaves de casa e não parou mais de publicar.

São destacadíssimas as parcerias musicais de Vinícius com sujeitos como Carlos Lyra, Toquinho, Chico, Baden Powell e, claro, o Tom. Quando amor ou desamor, o poeta atravessava seus cômodos com uma garotada de talento indiscutível. E era só juntar aquele povo todo, abrir o uísque – talvez cerveja não descesse tão bem –, um cigarro na ponta dos lábios e seria preciso mais do que gigabytes para registrar os harmônicos desassossegos daquela gente.

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Foi Orfeu que uniu Vinícius e Tom. O primeiro queria alguém para musicar sua peça teatral Orfeu da Conceição e o segundo vivia meio a deriva em notas e arranjos. O que foi aquilo, meu Deus? Sem explicação aparente, o santo de um embebedou o do outro e ambos assinaram parceria na música e na amizade. Sorte nossa.

Finalmente, 1958. Apesar do burburinho de nomes e rótulos, prefiro entender que aquele baião já tinha sido temperado faz tempo. Com o novo rótulo (Bossa), era possível desandar aquela sopa publicando um simples “eu odeio bossa nova” e colocando toda sorte de “bossistas” naquele misturado indigesto. Mas, enfim. A história era que Vinícius e outros viajavam muito e trouxeram na mala registros memoráveis da musicalidade negra por meio do jazz e novos sons. Em viagem para os Estados Unidos, o poeta viu um cenário de segregação racial sem afinamento algum.

Era impossível imaginar um sujeito como Vinícius “ser de um grupo”. A porta aberta de sua casa e seu carisma agregavam todo tipo de “movimento”. Em um mesmo período e na mais intensa originalidade, Vinícius abraçou o clássico e se remexeu ao som do que ele chamou de “afrosamba”. Respectivamente, Pixinguinha e Baden Powell. Na primeira parceria, o poeta realizou o sonho de trabalhar ao lado do mestre do choro. Juntos, criaram “Lamento” e “Mundo Melhor”. Com Baden, Vinícius embriagou de negritude. O branco mais negro do Brasil.

Em 1968, o tal diplomata foi aposentado pelo Ato Institucional nº5. Ele ficou um pouco chateado, mas, pelo menos, ele não precisaria apresentar-se de paletó, não discriminariam seu uísque e sua vida sem regras e, de certa forma, agora poderia receber por seu trabalho de músico, já que, enquanto funcionário do Ministério das Relações Exteriores, ele não podia. Anos após sua morte, a junta diplomática ofereceu ao poeta a insígnia de ministro do exterior. Uma forma de abafar o legado militarista e não sujar a bandeira de cuspe. Apesar de seu encardido quase de origem.

Na década de 1970, Vinícius e Toquinho levaram suas composições para o além sul-sudeste e atravessou o oceano atlântico. Seria uma das mais produtivas décadas do poeta e, infelizmente, seus últimos acordes em vida. Muitos dos artistas falavam do magnetismo e arrasa quarteirão da energia de Vinícius triste ou alegre. Aquele nove de julho de 1980 então, foi um dia, literalmente, morto. O amigo passou mal na banheira de sua casa, na Gávea, e foi levado pela mão por Oxum à moradia de seu eternamente.

Vinícius deixou seis filhos, durante nove casamentos. Amou, desamou, fez sofrer uma pá de gente. Foi dele, de ninguém, de todos. Nosso. Era para ser e foi.

É impossível comprimir uma vida dessas em alguns parágrafos abusados. Que dirá seu legado literário, musical e tantos outros Vinícius que passaram, beberam, amaram, sofreram, choraram, sorriam, transaram com a vida. O cara era uma profusão de verbos em ebulição e sua força é comparada a um cogumelo de explosão, desses que deixam a narina da gente coçando e nos faz lembrar sempre. Para sempre.

Aos amigos,

Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado Tantas retaliações, tanto perigo Eis que ressurge noutro o velho amigo Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado Com olhos que contêm o olhar antigo Sempre comigo um pouco atribulado E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano Sabendo se mover e comover E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica Que só se vai ao ver outro nascer E o espelho de minha alma multiplica...

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E foram muitos...


Andréa Mota

Jornalista por formação e comunicóloga sem estante. Paraense de sangue, carne e saudade. Comendo o próprio arroz e cozinhando a própria roupa. Sonho: Perder o juízo..
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