renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Johnny Hartman – O Sinatra de Bronze que não aconteceu

Johnny Hartman, um dos maiores cantores do século XX, só foi descoberto depois de sua morte. O que aconteceu com o segredo mais bem guardado do jazz?


1946. A boate El Grotto, na parte sul de Chicago, contratou um cantor da Louisiana que havia vencido seu concurso de calouros – e que em breve ficaria conhecido como o “Bronze Sinatra”. Em 15 de Setembro de 1983, aos sessenta anos, ele morria em um hospital de Nova York, vítima de câncer de pulmão. No intervalo entre essas datas, nada de muito espetacular aconteceu na vida Johnny Hartman. Sem romances de tabloides, sem internações para se livrar de álcool ou drogas, sem escândalos (a não ser uma prisão por roubo em 1972, em Los Angeles. E mesmo esse episódio foi esclarecido rapidamente: Hartman não tinha roubado ninguém, apenas pedido ao caixa da boate um adiantamento de seu cachê para uma viagem ao exterior). Sua vida, comparada a de outros artistas de jazz, como Chet Baker, Charlie Parker, Stan Getz ou Billie Holiday e outros, é de uma monotonia absoluta. Pelo menos isso é o que se conclui da leitura de “The Last Balladeer”, de Gregg Akkerman, lançado há pouco. 2012akkerman.jpg Teria essa invisibilidade contribuído para que ele morresse relativamente pobre e ignorado? Não há explicação fácil. Para começar, Hartman podia estar fora do radar do grande público, mas nunca dos músicos de jazz. Vejamos John Coltrane, por exemplo. Ele tinha lançado suas primeiras experiências com o free jazz, que alguns críticos haviam saudado como “anti-jazz” e “horríveis”. O executivo da sua gravadora, a Impulse, Bob Thiele, o estimulou a gravar álbuns mais palatáveis. Foi daí que vieram o Ballads e o seu encontro com Duke Ellington. Mas Coltrane achava que era necessário gravar com um vocalista para selar definitivamente as pazes com a audiência. Coltrane rejeitou todos os nomes apresentados por Thiele – incluindo Sarah Vaughan. Finalmente o saxofonista escolheu um nome que “tinha ficado grudado em algum lugar de sua mente”: Johnny Hartman, o cantor que Trane julgava “ser a voz mais próxima do som de seu sax”. Não que Johnny fosse uma unanimidade absoluta. Alguns críticos diziam dele o mesmo que de Bill Evans: que ele não tinha swing suficiente. Mas, se ele era bom o bastante para John Coltrane... O álbum foi uma experiência literalmente única: O único álbum que o saxofonista jamais faria com um cantor, marcando a primeira e última vez em que ambos se encontrariam. Hartman ficou inicialmente relutante com o convite. Ele nunca tinha ouvido Coltrane tocar baladas. Mas qualquer hesitação desapareceu depois que ambos se reuniram no Birdland, onde Hartman estava se apresentando, depois que o local já tinha fechado, e tentaram algumas canções juntos – em 1º. de Março de 1963. Uma semana depois entraram em estúdio para registrar aquele que foi o álbum mais vendido de Hartman e uma presença permanente nas listas dos especialistas como um dos mais importantes álbuns da história do jazz (O autor Will Friedwald o chama de “O Kind of Blue dos álbuns com vocalistas”, comparando-o ao grande sucesso comercial de Miles Davis, ou seja – o disco que mesmo os que não gostam de jazz têm que ter). coltrane5.jpg A presença de Hartman na mídia foi explorada com o rápido lançamento de dois novos álbuns – “I Just Dropped By To Say Hello” e “The Voice That Is”. Mas talvez o público e as rádios não estivessem preparados para uma avalanche de canções de Hartman e as vendas foram ruins. Ele mudou de gravadora para a ABC- Paramount, que tentou reposicioná-lo como uma cantor mais comercial, com canções mais acessíveis. Muitos cantores caíram nessa armadilha – incluindo Tony Bennett (que, ao que consta, chegava a vomitar depois de gravar materiais que ele julgava aquém de sua talento). Não funcionou. As novidades não comoveram nem o grande público nem a limitada audiência cativa do jazz. Hartman estava, em suas próprias palavras “aprisionado no jazz” – e isto reduzia suas possibilidades comerciais, impossibilitando temporadas em Las Vegas ou em grandes estádios. Sua carreira dependia cada vez mais do circuito dos pequenos clubes, com poucos espectadores e cachês baixos. O Japão – talvez o último bolsão de bom gosto musical no planeta – lançou um bote salva-vidas e o acolheu (como, aliás, vem fazendo até hoje com muitos artistas brasileiros de bossa nova) em shows e mesmo para a gravação de novas canções. Mas os músicos japoneses que o acompanhavam estavam pouco familiarizados com as músicas que Hartman queria gravar, o que aumentava o tempo de cada sessão e limitava o número de takes aproveitáveis. Eis que o final dos anos 1970 parecia abrir novas possibilidades para os cantores como Hartman. Tony Bennett tinha saído da falência e estava se reerguendo, voltando a se apresentar em Nova York. Sinatra tinha lançado “New York, New York” e estava tocando como nunca nas rádios. Hartman recebeu sua mais que merecida fatia do bolo. Seus cachês e o perfil de clubes onde ele se apresentava começaram a melhorar. Em 1982 ele ganhou um Grammy como melhor vocalista masculino de jazz. Quando parecia que ele finalmente poderia estar escapando do ostracismo, foi sua voz que começou a fugir. Em um ensaio em Londres, em 1983, sua voz simplesmente desapareceu. O diagnóstico dos médicos foi o pior possível: câncer de pulmão, provocado por anos de consumo de cigarros. Seus amigos organizaram um concerto no Blue Note para levantar fundos para seu tratamento – meramente paliativo, aliás, já que não havia nenhuma chance de recuperação. Tony Bennett, fã de primeira hora, foi um dos que cantaram de graça nesta noite. Frank Sinatra – com quem ele foi comparado desde o início - aparentemente cuidou para que ele tivesse um quarto exclusivo no hospital (consta que ele assinou um cheque e teria dito: “não quero nem saber quanto vai custar”). Sua morte não provocou grande comoção, exceto entre os músicos e sua pequena legião de apreciadores. Tudo mudou em 1995, quando Clint Eastwood incluiu quatro de suas canções no filme The Bridges of Madison County, que ele dirigiu e estrelou ao lado de Meryl Streep.

BOfMadisonCounty.jpg Subitamente, Hartman foi descoberto. Desde o lançamento do filme de Eastwood, dezenas de gravações de Hartman voltaram ao mercado. Em 2011 uma de suas músicas foi usada em uma campanha da marca Victoria’s Secret. Hartman não ficaria surpreso. Uma vez ele disse para sua mulher Tedi que sentia que sua música só seria apreciada “depois que ele partisse”. Bem, como dizem, better late...


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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