renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

The Room – O Filme Mais Memorável do Século XXI

Você sabe qual é o filme que define este século? Se não, tente um filme que certamente não vai sair da sua cabeça.


room.jpg

Você lembra o filme ganhador do Oscar do ano passado? E dos anteriores? Em caso positivo, tem algum entre eles que você elegeria como o filme da sua vida? Ou, no mínimo, que queira rever? Pois é, o século já começou há algum tempo e até agora não nos trouxe nenhum novo Casablanca, Cidadão Kane ou Vertigo. Mas, parafraseando Einstein e Chabrol, o talento humano tem limites, sua falta não. E por isso este novo tempo não nos negou uma obra a altura de Plan 9 from Outer Space, que até então reinava isolado como pior filme da história, imortalizando seu autor e diretor, Ed Wood. Seu título é The Room, de 2003, esforço de Tommy Wiseau, que herculeamente acumulou as funções de estrela principal, autor, diretor e produtor. Originalmente, o drama The Room era um livro de 500 páginas que Wiseau não conseguiu publicar e – sabe Deus a razão - decidiu condensar em um filme.

Nele, Wiseau interpreta Johnny, um executivo do mercado financeiro apaixonado por sua noiva, Lisa (Juliette Danielle). Apesar do amor incondicional de seu parceiro, Lisa se envolve com o melhor amigo de Johnny, Mark (Greg Sestero). Com o avanço do caso secreto entre os dois, Lisa passa a fazer falsas acusações a Johnny, incluindo uma pérfida agressão física. Há tramas paralelas, como as que envolvem o garoto vizinho Denny (Philip Haldiman), que pode ou não ser retardado mental (Com Wiseau é assim. Nada é dado de graça. Há que se ler nas entrelinhas a complexa estrutura das personagens). Ou a de Claudette (Carolyn Minnott), mãe de Lisa, entusiasta apoiadora do romance da filha com Johnny, que nos informa ter câncer. Mas não se preocupe. Ninguém na trama se preocupa muito com isso e o assunto desaparece imediatamente depois de ser inserido na estória. Aliás, não se preocupe com nada do que foi informado acima sobre o enredo. Ele não tem a menor importância. O que é importante não é o que é contado, e sim a forma como o filme é conduzido – as interpretações, as falas, as nuances.

A rasgada crise de Wiseau ao perceber que Lisa não é digna de seu amor (“You are tearing me apart, Lisa”); seu apego paternal a Denny (que confessa querer transar com Lisa – crise edipiana? Quem sabe? Quem liga?); sua boa educação impecável (refletida no hábito de saudar pelo nome cada entrada em cena dos demais personagens – TODAS as vezes que eles aparecem).

The Room virou objeto de culto. Em algum lugar do mundo – Nova York, Los Angeles, Londres – a qualquer momento deve estar ocorrendo uma das concorridas exibições do filme com a presença de seu realizador. Ele aparecerá, cumprimentará os fãs, recitará sonetos de Shakespeare com seu sotaque indecifrável e ouvirá seu público repetir cada frase projetada na tela. Alguns estarão vestindo smokings para jogar bola, recriando uma das mais célebres cenas do magnum opus do autor.

Dentro do cinema, Tommy Wiseau - que realizou o filme com os seis milhões de dólares que ganhou importando jaquetas de couro da Coreia (Verdade? Lenda? Existem tantas jaquetas de couro assim na Coreia?) – provavelmente estará sorrindo. Contra todas as possibilidades, ele criou aquele que talvez seja – até agora - o filme mais memorável deste novo século. Ou, como ele mesmo definiu: "The Room é um lugar onde você cria as regras. Você pode ficar nu, pode ficar confortável, não toma multa por ultrapassar a velocidade... o que quer que seja”. Entendeu? Não? Tanto melhor. Wiseau é para ser sentido, não compreendido. Assista The Room. Este – eu garanto – é um filme que você não vai esquecer.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/// @destaque, @obvious //Renzo Mora