renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Bryan Cranston – O Melhor Ator em Atividade

Existe um novo grande ator. E ele está vivendo sua melhor personagem neste exato momento.


Houve um tempo em que foi Marlon Brando. Depois veio Robert De Niro, mas ele cansou da profissão. Robert Downey Jr. chegou a ser uma promessa, mas abraçou rapidamente a facilidade dos super-heróis – em filmes nos quais imagens geradas por computador e dublês substituem o ator em 60% das cenas. (Sean Connery, para amarrar sua imagem à de James Bond, exigia que o estúdio financiasse seus filmes mais artísticos e menos comerciais. Downey se limita a pedir mais dinheiro). Daniel Day-Lewis - e sua técnica de imersão completa na personagem - até funciona, mas suas excentricidades confundem o público e a mídia, que as tomam por profundidade, e isto contamina a avaliação de seu trabalho, conferindo uma gravidade adicional que não está lá (ser chamado de Sr. Presidente nos sets de Lincoln não é mergulhar no papel. É apenas uma frescurite infantil. Houve uma história que circulou com muita força quando foi rodado o filme Marathon Man, de 1976. Dustin Hoffman teria passado noites acordado para interpretar uma personagem que não tinha dormido. Chegando ao set, Laurence Olivier perguntou a Hoffman por que ele parecia tão acabado. Hoffman disse para ele e Olivier perguntou: "Por que você não interpreta? É muito mais simples!" Hoffman negou que isso tenha acontecido, mas você entendeu o espírito).

A salvo de tudo isso, existe (Graças a Deus!) Bryan Cranston.

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Ele participava de uma série cômica padrão B chamada Malcolm in the Middle . Nela, conforme revela a GQ americana deste mês, os roteiristas se desafiavam a criar situações cada vez mais humilhantes para ele, que interpretava o pai de uma família disfuncional. O nome do jogo era “O que Bryan não vai fazer?”. Todas as apostas foram perdidas. Os roteiristas desistiram quando ele concordou em vestir uma barba feita de abelhas vivas. Mas nada em sua carreira – exceto a disposição em não correr de nenhum desconforto ou humilhação – indicava que ele pudesse se transformar em Walter White. White, como sabemos, é o protagonista de Breaking Bad, a estória de um professor de química que, ao descobrir que tem câncer, começa a fazer metanfetamina para deixar algum dinheiro para a família.

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A série – que chega ao final em Outubro – foca na personagem mais rica e complexa já criada para a tela - grande ou pequena (vamos deixar os palcos de teatro – e Shakespeare - fora da competição por enquanto).

A transformação do banana típico - que é enganado pelos sócios e humilhado pelos empregadores - em um bandido amoral é lenta.

White não chega a virar um psicopata – o que seria fácil de interpretar por qualquer ator chegado a maneirismos. Heath Ledger é o caso mais conhecido – e o seu Coringa passa por grande arte para os desavisados. O que Cranston faz é infinitamente mais complicado. Ele fica nas bordas, mostrando uma couraça de amoralidade para conviver com as ações mais sórdidas sem se abalar. Uma cena sintetiza brilhantemente sua construção de personagem: Depois de um assassinato particularmente violento – em que ele não puxa o gatilho – a personagem volta para seu laboratório. E, enquanto limpa seus equipamentos, assobia. Não, ele não cai em nenhum momento na caricatura cheia de caras de bocas que a maior parte dos atores sacaria do repertório. Ele é apenas um fulano que saiu de um dia complicado no escritório e está arrumando sua pasta com a papelada para voltar para casa. A morte – por mais brutal e desnecessária que seja – virou apenas um aborrecimento burocrático em sua rotina. Encontrar o tom que separa uma coisa da outra é tarefa para profissionais. E, reprisando o desafio dos roteiristas de Malcolm, as apostas emocionais dos produtores ficaram mais altas a cada episódio. Começou por pequenos jogos sádicos com o filho, que sofre de paralisia cerebral. Nada muito cruel, mas este é um momento chave da série. Depois desta cena, sabemos que as linhas do certo e do errado começaram a ficar levemente embaçadas na cabeça de White. A decisão dos roteiristas de incluírem estes indícios de que a personagem está perdendo as noções mais básicas de certo e errado revela coragem - até porque são cenas pequenas, que quebram o ritmo da narrativa, desaceleram a trama e podem afastar o espectador convencional. Mas, para justificar a coragem de produzir estas passagens, é preciso um grande ator para dar estofo a estes atos, para segurar o tranco. Os canais fechados descobriram que o cinema tinha virado uma terra de adolescentes fascinados por efeitos 3D e telas enormes e que isso tinha exilado os adultos em casa, diante da TV. Neste sentido, mercadologicamente falando, Breaking Bad é filha dos Sopranos, a primeira série a arriscar um anti-herói como protagonista. No vácuo, vieram apostas mais comerciais, como o Dr. House e o Sherlock Holmes de Elementary. Mas nenhuma delas chegou ao ponto de criar um Walter White. Breaking Bad é formada por uma série de acertos – uma tempestade perfeita que combina roteiristas ousados, um elenco de apoio brilhante, uma direção de arte capaz de ilustrar perfeitamente o clima de desolação e decadência vivido pelas personagens. Mas tudo se sustenta graças a um ator capaz de tudo. O melhor ator em atividade – Bryan Cranston.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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