renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Christopher Walker - Shakespeare em Marte

Christopher Walken confronta o bardo


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Alguém já escreveu que não há ator como Christopher Walken. Quando um roteiro pede “alguém como Christopher Walken” a única alternativa dos produtores é contratar o próprio. Steven Spielberg uma vez falou sobre escalá-lo para um papel: “Ele tem o melhor instinto entre todos os atores com quem já trabalhei. Ele gosta de surpreender a si mesmo. Ele vem para o set com algumas ideias básicas sobre o que vai fazer, mas quando as câmeras estão rolando, seus instintos saltam na tela”. O diretor Tim Burton acrescentou: “Não há mais ninguém no mundo capaz de sentar e transmitir tantos sentimentos só de olhar para você”. Mas talvez ninguém tenha sintetizado tão bem quanto outro diretor, Nigel Cole: “Walken é Deus”.

O Top 10 de Walken

Embora seja um dos atores mais imitados do mundo (sua dicção - vá lá - singular, introduzindo pausas e ênfases deslocadas, faz a delícia dos colegas), ele segue único. (Segundo a esposa de Walken, a melhor imitação entre todas é a de Kevin Spacey.

Kevin Spacey faz seu Christopher Walken

Walken acha interessante ser imitado por tantos de seus pares, mas revela que não vê nada de estranho em sua cadência “Eu não sei de onde isso vem. Não me parece que eu fale de um modo estranho”).

Além disso, vale lembrar que Walken é um grande dançarino - como somos lembrados neste solo do clipe de Weapon Of Choice, que torna suportável até o Fatboy Slim. Ele raramente deixa de incluir uma cena de dança em seus filmes, embora não dance em festas e bailes ("dançarinos profissionais não saem dançando por aí" disse ele uma vez - ou, no original de suas fundamentais lições de vida para a Revista Esquire: "Professional dancers don't go dancing".)

Walken é a opção de arma de Fatboy Slim

Por todas estas particularidades, não há outro personagem em que podemos imaginar a seguinte passagem:

O ano é 1982 e o local é o American Shakespeare Theater in Stratford, em Connecticut. A peça, Hamlet. O escolhido para viver o atormentado príncipe dinamarquês é Walken (To be or not – wow!! – to be).

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Walken caracterizado para papel, em 1982.

Vale lembrar que Walken tem uma relação estranha com o bardo. Suas interpretações são sempre polêmicas. “Quando eu fiz Ricardo II as pessoas vinham aos bastidores e diziam: ‘Amei seu Hamlet’”. Sobre as reações da audiência diante de suas interpretações do clássico autor, ele dá de ombros: “Shakespeare sobreviveu a atores piores do que eu. Não sou eu quem vai estragar sua reputação”. Mas voltamos a 1982. O ator escolhido para viver Claudius é Fred Gwynne. Sim, Hamlet era Walken e Claudius era... Herman Monstro.

FRED GWYNNE - 01 HERMAN MUNSTER - duduhamilton.blogspot.com.jpg Para modernizar a trama, a estória é ambientada em Marte. Um crítico do New York Times definiu a montagem como “a coisa mais próxima de um travesti de Hamlet que já vi”., acrescentando: "Ainda mais pertubador que fraseado do Sr. Walken é sua indiferença a certas passagens do texto... O Sr. Walken dá à suas falas algumas leituras espantosamente excêntricas". A audiência ficou dividida. Enquanto alguns não gostaram, outros simplesmente odiaram. Walken relembrou a experiência: “os trajes eram estranhos... era o que eles chamam de montagem conceitual. Eu não fiquei muito feliz com o resultado”. O diretor do festival, Christopher Newton, conformou-se com o que foi levado aos palcos: “(Walken) é muito peculiar. Ele é muito real, e existe um lado muito suave de sua personalidade. Ele é meio maluco, mas existe um alcance genuíno neste ator”. O que quer que tenha acontecido no palco naquele distante 1982 deve ter sido – para o bem e para o mal – inesquecível. O resto – como diria o próprio Hamlet - é silêncio.

Depois de enfrentar Shakespeare, Walken nos dá sua leitura de Lady Gaga


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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