renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Que Diabos Acontece no Final de Taxi Driver?

A quem pertence um filme depois que ele está pronto?


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Você já sabe e deve ter visto uma porção de vezes: Travis Bickle (Robert De Niro) está ficando pior. No terço final do filme, sua trajetória rumo à loucura está praticamente completa. Ele adota um corte de cabelo estilo mohawk - o que não é uma boa ideia nem para jogadores de futebol brasileiros. Depois segue para um comício e tenta matar o Senador Palantine, mas levanta a desconfiança do Serviço Secreto e desiste. Segue em frente. Vai para o bordel onde salvará uma menina de doze anos que se prostitui, Iris (Jodie Foster). Acontece uma carnificina e ele consegue eliminar as pessoas que exploram a jovem. Por fim, ele tenta se matar. Falta munição. Aparece a polícia e ele imita um revólver com a mão, “atirando” contra a própria têmpora.

Depois disso, vemos um Travis recuperado. Ele é tratado como um herói. Ele coleciona recortes de jornal que saúdam seu gesto. Ele recebe uma carta dos pais de Iris o agradecendo. Ele volta a dirigir o táxi pelas ruas de Nova York e reencontra sua paixão, Betsy (Cybill Shepherd). Ela diz que acompanhou sua história pelos jornais e que sabe que ele é um herói – o que ele nega. Ele a deixa em seu destino sem cobrar a corrida. Ele olha nervosamente pelo espelho retrovisor e o filme termina abruptamente.

O crítico Roger Ebert acha que há algo mais nestas cenas e sugere que nada deste segmento final pode ter acontecido. Ele pensa que Travis pode não ter sobrevivido ao tiroteio. Segundo esta linha, tudo o que se segue à cena do bordel passa-se exclusivamente na cabeça da personagem e são seus delírios finais. O reconhecimento de sua amada. A aceitação. A salvação da prostituta infantil e sua reintegração ao lar. “A sequência final segue como música, não como drama. Ela completa a estória em um nível emocional, não literal. Nós terminamos não com uma carnificina, mas com uma redenção, o que parece ser o objetivo de muitas das personagens de (Martin) Scorcese”, escreveu Ebert. Negando esta interpretação, temos ninguém menos do que o diretor. Ele diz que o olhar nervoso do taxista que encerra o filme é uma insinuação de que ele não está curado. Ele pode (e provavelmente vai) explodir novamente. Sua fúria está guardada, esperando apenas um gatilho qualquer para ser detonada novamente. O autor do filme, Paul Schrader, confirma esta visão. Ele nega ter pensado na cena como os delírios de um moribundo. O final, em que o motorista olha inquieto para alguma coisa em sua traseira, seria algo como um retorno ao começo da estória – como se ele pudesse ser incorporado ao início e o filme entrasse em um looping pérpetuo.

É uma pena. A interpretação de Ebert faz Taxi Driver crescer ainda mais.

Mas, enfim, a quem pertence uma obra – aos autores ou a quem a viu e enxergou alguma coisa a mais? Entrevistando o diretor Sidney Lumet sobre seu filme “Assassinato no Expresso do Oriente”, Paulo Francis sacou: “É sobre Watergate, não é?”. Claro que não era. Tratava-se de um filme de entretenimento, bem feito, mas nada além disso. Lumet trucou e concordou. Se um intelectual estrangeiro queria enxergar algo de mais profundo em seu trabalho, para que negar? O que ele tinha a perder? A prova de que era um blefe de Lumet está no fato dele nunca ter mencionado novamente esta pretensa alusão ao escândalo de espionagem.

E, mais uma vez, a quem pertence uma obra depois de entregue ao público? Se quisermos enxergar Nixon nas aventuras de Hercule Poirot, quem é Lumet para nos dizer que não? Se quisermos pensar que Travis vê a morte estendendo a mão para ele no espelho do seu carro, quem é Scorcese para nos tirar esse gosto? Alguns filmes – mesmo os grandes, como Taxi Driver – podem ficar melhores com o que acrescentamos a eles depois que as luzes do cinema acendem. E eles abandonam seus criadores e passam a nos pertencer no exato momento em que são exibidos.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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