renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

10 Anos Sem Charles Bronson. É Chegada a Hora de Fazer Justiça ao Justiceiro.

Charles Bronson é muito maior do que costumamos lembrar. Desejo de Matar é a prova disso.


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Desejo de Matar – Death Wish – estreou em 1974. Era o auge da ditadura no Brasil e o filme foi imensamente repudiado por endossar um discurso supostamente fascista.

Charles Bronson, a estrela do filme, foi rotulado por parte da crítica nacional como um ator menor, o reacionário padrão que glorificava a violência em filmes burros e apelativos.

Olhando em retrospectiva, um país onde o Esquadrão da Morte agia livremente não oferecia mesmo o ambiente ideal para que o filme fosse apreciado com isenção intelectual.

Mas já é tempo de perceber que o problema estava com o país, não com o filme.

As questões ideológicas não incomodam só aqui no Bananão. Isso ocorre inclusive nos EUA, mesmo decorridos quase 40 anos de sua rodagem.

Bem, vamos admitir, suas sequências infinitamente inferiores – Death Wish 2, 3, 4 e – acredite – a 5, que coloca a personagem no... mundo da moda!!! - também não ajudaram muito o filme a crescer com o tempo. Mas os Tubarões 2, 3 , 4 ... 5000 não contaminaram a versão original e genial de Spielberg da mesma forma.

Por tudo isso, quase ninguém tem a coragem de elogiá-lo sem reservas, mesmo em seu país natal (“O filme tem um estranho fascínio, ainda que sua mensagem seja assustadora”, escreveu o venerável Roger Ebert, para ficar em um exemplo).

O cineasta e crítico Felipe Guerra talvez seja um dos poucos defensores incondicionais do filme - e seu longo, apaixonado e detalhado artigo é essencial para quem quer se aprofundar na história da produção. Quando lembramos 10 anos da morte de Bronson, em 30 de Agosto de 2003, vale a pena rever seu trabalho – e Death Wish em especial.

Quem é do ramo sabe o valor de Charles Dennis Buchinsky. DEATH WISH (34).JPG

Sergio Leone, por exemplo, dizia que ele era “o maior ator com quem já tinha trabalhado” – talvez pelo fato dele ouvir atentamente as instruções, depois sentar em seu canto e não dizer nenhuma palavra até que as câmeras fossem ligadas (o que, claro, é o sonho de todo diretor). Bill Murray diz ter baseado na persona bronsoniana sua premiada atuação em Lost In Translation. John Huston, entusiasta de sua energia, gostava de compará-lo a uma granada sem pino. Quentin Tarantino, em Reservoir Dogs, usa “Charles Bronson” como substantivo, sinônimo de cara durão (De fato, Bronson sabia ser ameaçador quando queria. Um assaltante em Roma encostou um revólver no ator e pediu seu dinheiro. Bronson virou para ele e disse “VOCÊ me dá seu dinheiro”. O assaltante, sensatamente, deu as costas e fugiu).

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Não que Bronson endossasse qualquer adulação. “Eu não sou meu fã”, costumava dizer. Aliás, seu desdém pela profissão, pelos críticos e pelo próprio trabalho eram uma constante em suas declarações à imprensa. “Atuar é uma das coisas mais fáceis que eu já fiz. Acho que é por isso que fiquei no ramo” é uma das suas frases famosas. Outra, ainda menos diplomática: “Eu não faço filmes para os críticos porque eles não pagam suas entradas”.

Alheios à sua visão depreciativa, os europeus foram seus primeiros descobridores. Entenderam seu estilo minimalista de interpretação e logo o batizaram de “Le Sacre Monstre”. O “Monstro Sagrado” dos franceses não estourou rapidamente em Hollywood.

Só virou estrela depois dos 40 anos. Death Wish aconteceu quando ele já tinha 53 anos, idade em que a maior parte dos atores está se despedindo da carreira. Desejo de Matar é – em resumo - a estória de um homem que tenta limpar a cidade de seus marginais, vingando a morte de sua esposa e o estupro de sua filha.

Mas existe muito mais. A atitude da personagem central é o resultado de um massacre lento e permanente. Ele chega a vomitar depois de atacar um criminoso na rua. Essa transição de típico nova-iorquino de cabeça aberta para vigilante (eternizando a piada de que um conservador é um liberal que foi assaltado) é sofrida. Ele vai de Woody Allen para Rambo, mas com as devidas escalas.

O ponto central do filme não são os assassinatos de marginais, mas a progressiva dissolução da sanidade de Bronson e de seus parâmetros morais. Nenhum outro durão – nem o Santo Clint nem os Stallones e Schwarzeneggers – sofre tanto com esse tipo de metamorfose ou fica tão perturbado com o ato de matar alguém. O final deixa claro que a personagem perdeu sua batalha e enlouqueceu. Nada glorioso para quem supostamente exaltaria o assassinato de marginais.

Claro que isso não é percebido por quem quer enxergar apenas uma apologia da justiça com as próprias mãos.

Há também, em outro nível, a ambígua reação da polícia (que quer se livrar do vigilante mas sem perder os benefícios de sua existência - uma notável queda da criminalidade).

O fascínio da imprensa com a personagem, desde os tabloides até a New Yorker, é outro ponto importante do filme. Muitos das cenas ocorrem em locais onde outdoors da mídia discutem seus atos.

Seus atos podem ser um horror para a sociedade civilizada, mas todos tiram um naco de sua doença.

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Tudo isso faz de Death Wish um filme muito mais complexo do que parece, com (OK, tentei evitar o clichê até agora, mas vamos lá) “camadas”.

Há dez anos perdemos Bronson. Está na hora de reconhecer os méritos do Il Brutto dos italianos , sintetizados exemplarmente em Desejo de Matar.

PS - O filme conta ainda com o apoio luxuoso de uma trilha assinada por ninguém menos que Herbie Hancock. Nada mal para uma fita "menor" de ação.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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