renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

O Silêncio de Linda Ronstadt

Morre uma das maiores vozes da música. Sua dona, entretanto, permanece entre nós


Linda+Ronstadt+Linda.jpg

Linda Marie Ronstadt não pode mais cantar. Aos 67 anos de idade, o mal de Parkinson forçou sua aposentadoria. A voz de cristal que esteve ao lado de nomes tão diversos quanto Billy Eckstine, Johnny Cash, Frank Zappa e Philip Glass não emitirá nenhuma outra nota. Originalmente uma cantora de folk, Linda passou por todos os gêneros e cantou de tudo – de rock a opera, com escalas ocasionais em guarânias e boleros.

Linda Ronstadt Rolling Stone cover.jpg

Mas, em termos estritamente pessoais, ela será para mim eternamente a intérprete das três joias que registrou ao lado do maestro Nelson Riddle. Em 1983 ela convocou o quase esquecido Nelson, então com 62 anos, para gravar os grandes standards daquilo que se convenciona chamar de o Great American Songbook.

linda_ronstadt_october_1970a_ehermvv_sized.jpg

Riddle , falecido em 1985, permanece o maior arranjador da música popular mundial. Suas parcerias com Frank Sinatra, iniciadas em 1953, constituem o que há de mais precioso na história da canção.

NelsonSinatra.jpg

Nelson Riddle e Francis Albert Conhecido por seu desprezo pelo rock, Nelson ficou inicialmente relutante em trabalhar com Linda. Sua filha, que era fã da cantora, deu o sinal verde: “Não se preocupe, pai. Os cheques dela não vão voltar do banco”. De fato, a possibilidade de algum cheque envolvido na operação não ter fundos era nenhuma. Linda foi uma das artistas mais bem pagas de sua geração e os discos foram sucessos absolutos.

lindaNelson.jpg

Linda e Nelson em 1984

Foram três álbuns: What's New (de 1983, que rendeu US$ 3.7 milhões até 2010);

Lush Life (1984— US$ 1.7 milhões até 2010) e For Sentimental Reasons (1986— US$ 1.3 milhões até 2010). Só nos EUA, os discos venderam quase 7 milhões de cópias e apresentaram Riddle para toda uma nova geração.

Os dois chegaram a excursionar juntos durante 1984, indo ao Carnegie Hall de Nova York e passando pela Austrália e Japão.

Linda não era uma cantora de jazz. Ela não “suja” as notas como Amy Winehouse faz magnificamente ao cantar um clássico como “Someone To Watch Over Me”.

Não incorpora floreios como divas do porte de Sarah Vaughan ou Ella Fitzgerald. Sua voz está estritamente a serviço das notas que foram colocadas na pauta. Mas – vale ressaltar – estas notas poucas vezes foram tão bem servidas. A interpretação de Linda é direta, clara, potente, limpa e – paradoxalmente – sempre comovente.

Frank Sinatra e Linda Ronstadt em "Moonlight in Vermont"

Na capa do primeiro álbum, temos uma das imagens mais icônicas da música popular. Entendemos porque o governador da California Jerry Brown arriscou a carreira com um polêmico romance com a cantora no final dos anos 1970. A linda Linda está usando um vestido de debutante ao lado de um então revolucionário walkman.

Linda.jpg

É esta Linda, impressionantemente bonita, incandescentemente sexy, cantando You Go To My Head com a magnífica moldura criada por Riddle, que vou guardar enquanto lamento seu silêncio.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/// //Renzo Mora