renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

A Fina Arte de Encarnar a Voz Alheia

Sobre repetições, homens honrados e o ofício de escrever as palavras que serão ditas pelos outros


Em seu livro “A Arte da Política”, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu: “ A dedicação à TV… é crucial. A TV tem uma linguagem própria e cabe ao candidato o cuidado de não deixar que o pessoal do marketing político o transforme em algo que ele não é. Na TV, há uma série de detalhes a serem levados em conta. Por exemplo, o teleprompter, instrumento importante que, após algum treino, permite ao candidato falar com naturalidade a partir de um texto escrito, pode ser um complicador. Quem escreve os textos não é o candidato, por absoluta falta de tempo. As palavras utilizadas não são necessariamente as dele, a respiração que elas impõem não é a dele, nem as pausas nem o corte das frases.”

FHC esqueceu de citar o maior desafio: fazer as falas caberem dentro de um tempo rigidamente cronometrado.

Mas, se as palavras não vêm do candidato, quem as escreve?

Bem, não é o marketeiro da campanha.

Ele tem a função de amarrar temas, supervisionar pesquisas de opinião, supervisionar porções do vídeo em que o candidato não aparece, ver a campanha dos adversários.

E de tentar receber, o que nem sempre é fácil em campanhas políticas.

Logo, esta função de captar a voz do candidato cabe a um redator.

E o redator muitas vezes não fala diretamente com o candidato e não fica no estúdio durante a gravação (Eu, pelo menos, evito sempre que possível. E, se você fizer a bobagem de sair de sua sala para entrar no set, lembre: lá dentro, o diretor é Rei. Isso não é subserviência. É a hierarquia que faz a filmagem funcionar e você ir para a casa mais cedo).

Vale informar que o redator não escreve para o político apenas durante a campanha eleitoral.

Você possivelmente nunca ouviu falar de Theodore Chaikin “Ted” Sorensen. Mas já ouviu a frase “não perguntem o que o seu país pode fazer por você, perguntem o que você pode fazer por seu país” . Ela foi dita em público pela primeira vez em 20 de Janeiro de 1961, por John F. Kennedy, em seu discurso de posse. Mas foi escrita por Sorensen.

Segundo David Talbot, em seu livro Irmãos, “Sorensen era mais que o homem que escrevia os discursos do presidente – era um homem de grandes virtudes. Ajudou Kennedy a ficar em contato com a consciência liberal subjacente ao projeto político bem elaborado do presidente. Sabia como se valer da sagaz visão política de JFK para redigir seus discursos. Contratado aos 25 anos para escrevê-los e aconselhar Kennedy, então um político em ascensão que havia ingressado no senado em 1953, Sorensen logo aprendeu a lidar com seu empregador e canalizar seu pensamento. “Ted Sorensen está se tornando meu espelho, refletindo até o que estou pensando”, disse Kennedy…”

Neste discurso, uma preciosidade que ocupa menos de 2 páginas (brevidade é essencial em qualquer discurso), ele usa 4 vezes a expressão “Let both sides” (Deixe ambos os lados).

A repetição, que pode ser um vício estilístico, pode também fazer exatamente o contrário: enfatizar emprestando alguma poesia à aridez da fala da maior parte dos políticos.

Outro presidente, outro discurso, outra frase: “Os Estados Unidos da América são um país onde tudo é possível, e esta noite vocês são a prova”. Era a primeira vez que um negro assumia a presidência dos Estados Unidos. A frase não foi escrita por Barack Obama, que a pronunciou.

Seu autor era um jovem então com 27 anos chamado Jon Favreau.

Favreau se mostrou importante também no momento de desatar nós.

Quando o pastor de Obama, o reverendo Jeremiah Wright, apareceu na TV falando sobre o tratamento dado pelo governo aos afro-americanos (“o governo lhes dá drogas, constrói prisões, tira de circulação os reincidentes e quer que a gente cante ‘Deus salve a América’. Não, não, não. Não é Deus salve a America – é Deus castigue a América”), havia a necessidade de uma resposta imediata, forte - mas que também não sinalizasse um rompimento com a Igreja ou mesmo com Wright – o homem que Obama responsabilizava por tê-lo levado “a Jesus”.

No livro “Virada no Jogo”, os autores John Heilemann e Mark Halperin contam: “Obama afirmou que os comentários de Wright expressavam ‘uma visão profundamente distorcida de nosso país’ sendo ‘não apenas equivocada, mas desagregadora – em um momento em que precisamos de unidade’. Todavia, Obama se recusava a dar as costas ao seu pastor. ‘Não posso desautorizá-lo como não poderia desautorizar a comunidade negra’ disse ‘Não posso desautorizá-lo como não poderia desautorizar minha avó branca… que certa vez confessou seu medo dos homens negros com quem cruzava nas ruas… o profundo equívoco dos sermões do reverendo Wright não está em falar do racismo em nossa sociedade. Está em se manifestar como se nossa sociedade fosse estática; como se não tivéssemos feito nenhum progresso… Mas o que sabemos é que a América pode mudar. É essa a autêntica genialidade desta nação. O que já alcançamos nos dá esperança. A audácia da esperança. Com relação ao que podemos e devemos realizar amanhã’”

Notem: neste curto trecho, a palavra esperança é repetida duas vezes. Palavras fortes como audácia e amanhã também aparecem.

Redatores sabem que palavras fortes – audácia, esperança, amanhã, sonho, vontade – levantam um discurso morno.

O segredo está em como inseri-las sem transformar tudo em um clichê.

“O Brasil é imortal. Viva o Brasil” disse Getúlio Vargas ao povo que se aglomerava na sacada do Palácio do Catete para reclamar uma providência diante dos ataques nazistas às embarcações brasileiras. Como notou Mario Sergio Conti: “o ditador não falava de improviso. Escrevia seus discursos num estilo insosso e os lia sem ênfases”.

Talvez por isso, até hoje há quem questione a famosa carta testamento dirigida ao povo brasileiro e lida em seu enterro por João Goulart.

Existem, na verdade, duas cartas atribuídas a Vargas como tendo sido escritas imediatamente antes de seu suicídio: Uma manuscrita, concisa, e outra datilografada, que muitos dizem ser do jornalista José Soares Maciel Filho. Maciel Filho admitiu ter datilografado a versão lida para a imprensa, mas nunca assumiu ter mudado uma linha sequer.

No texto manuscrito, lia-se: “Velho e cansado, preferi ir prestar contas ao Senhor, não dos crimes que não cometi, mas de poderosos interesses que contrariei, ora porque se opunham aos próprios interesses nacionais, ora porque exploravam, impiedosamente, aos pobres e aos humildes. Só Deus sabe das minhas amarguras e sofrimentos. Que o sangue dum inocente sirva para aplacar a ira dos fariseus. Agradeço aos que de perto ou de longe me trouxeram o conforto de sua amizade. A resposta do povo virá mais tarde…”.

A versão datilografada por Maciel Filho é infinitamente mais forte – e parece pouco com os textos anêmicos que Vargas escrevia.

Não é o desabafo de um “velho cansado”, mas as palavras inspiradoras de um líder que se martiriza pelo povo que ama: “Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”

Esse texto, escrito em 1954 por um autor que segue desconhecido, usa com maestria o jogo de palavras que Kennedy repetiria alguns anos depois: “Não pergunte o que o país pode fazer por você, e sim o que você pode fazer pelo país”. “Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém.”

(PS – Nem Getúlio nem seu possível ghost writer falaram em “forças terríveis”. Quem o fez foi Jânio Quadros, em 1961, em uma imitação da missiva de Getúlio que, de acordo com muitos historiadores, era uma tentativa de golpe que não deu certo).

Jogos de palavras exigem cuidado. Podem ser confundidos com trocadilhos vazios. Mas redatores não devem contorná-los apenas pelo medo do eventual ridículo.

Um dos raros políticos que prescindia de redatores era Winston Churchill (Não por acaso ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1953).

Ele tinha assumido a posição de primeiro-ministro há apenas 3 dias quando leu diante da Câmara dos Comuns um dos discursos mais célebres do Século XX.

O discurso é breve – e, mais uma vez, quanto menor o discurso, mais eficiente ele tende a ser.

Ditadores como Fidel costumam falar por horas não porque tenham mais conteúdo para transmitir, mas pelo péssimo hábito de fuzilar quem os interrompe. Quem precisa de voto precisa da atenção de seu eleitorado. Quem precisa de atenção, fala o básico de forma eficiente.

Nele, Churchill assume a posição de inspirar os britânicos em sua batalha contra a ameaça nazista “Eu diria à Câmara, como disse a todos os que integraram este governo: Não tenho nada mais que oferecer do que sangue, trabalho, lágrimas e suor… e perguntarão: Qual nossa aspiração? Posso responder com uma palavra: vitória. Vitória a todo custo, vitória, apesar de todo o terror, vitória, por longo e duro que possa ser o caminho. Porque sem vitória não há sobrevivência.”.

Mais uma vez, a repetição de palavras serve como ênfase. Um editor talvez se sentisse tentado a modificar a frase, eliminando a repetição em nome da elegância (“Vitória, a todo custo, apesar do terror, por longo e duro que possa ser o caminho”). Mas é ela, a repetição, que dita o ritmo da fala, que injeta poesia.

Uma curiosidade de almanaque: embora Churchill escrevesse seus próprios discursos, não era ele quem os lia no rádio. Depois de apresentá-los na Câmara, ele deixava que um dublê os repetisse (mais precisamente, o ator Norman Shelley).

Ou seja – os políticos que falam não escrevem e o único que escrevia não falava.

A expressão “sangue, suor e lágrimas” também foi roubada – de George Gordon Byron, melhor conhecido como Lorde Byron.

Byron, por sua vez, a roubou de John Donne.

De qualquer forma, ter um líder que lia Byron ou Donne já era – vamos reconhecer – um avanço civilizatório brutal sobre a quase totalidade dos políticos – de ontem e de hoje.

Mas, voltando à repetição: Em uma das mais famosas falas de todos os tempos, Martin Luther King repete a abertura “sonho que…” cinco vezes.

Mais uma vez, um editor mais rigoroso teria passado a caneta sobre estas repetições.

Fica este palpite: Editores ansiosos poderiam ter arruinado algumas das falas mais poderosas da história.

Ninguém sabe exatamente quem criou o recurso da repetição.

Mas ele pode ser ouvido na fala que William Shakespeare criou em 1600 para ser dita por Marco Antônio no funeral de César.

Marco anuncia: “Eu não vim para roubar seus corações. Eu não sou um bom orador como Brutus. Sou um homem simples e direto, que amo os meus amigos.”. E então repete a expressão “honourable man” diversas vezes:

“Amigos, romanos, cidadãos dêm-me seus ouvidos.

Vim para enterrar Cesar, não para louvá-lo. O bem que se faz é enterrado com os nossos ossos; que seja assim com Cesar. O nobre Brutus disse a vocês que Cesar era ambicioso. E se é verdade era uma falta muito grave, e Cesar pagou por ela com a vida, aqui, pelas mãos de Brutus e dos outros. Pois Brutus é um homem honrado, e assim são todos eles, todos homens honrados.

Venho para falar no funeral de Cesar. Ele era meu amigo, fiel e justo comigo. Mas Brutus diz que ele era ambicioso. E Brutus é um homem honrado.

Ele trouxe muitos prisioneiros para Roma que, para serem libertados, encheram os cofres de Roma. Isto parecia uma atitude ambiciosa de Cesar? Quando os pobres sofriam Cesar chorava. Ora a ambição torna as pessoas duras e sem compaixão. Entretanto, Brutus diz que Cesar era ambicioso. E Brutus é um homem honrado.

Vocês todos viram que na festa do Lupercal eu, por três vezes, ofereci-lhe uma coroa real, a qual ele por três vezes recusou. Isto era ambição? Mas Brutus diz que ele era ambicioso, e Brutus, todos sabemos, é um homem honrado.

Eu não falo aqui para discordar do que Brutus falou. Mas eu tenho que falar daquilo que eu sei. Vocês todos já o amaram e tinham razões para amá-lo. Qual a razão que os impede agora de homenageá-lo na morte?

(pausa)…

“Ontem a palavra de Cesar seria capaz de enfrentar o Mundo; agora jaz aqui morta. Ah! Se eu estivesse disposto a levar os seus corações e mentes para o motim e a violência, eu falaria mal de Brutus e de Cassius, os quais como sabem, são homens honrados.

Não vou falar mal deles. Prefiro falar mal do morto. Prefiro falar mal de mim e de vocês do que destes homens honrados.”

Minha sugestão: Quando seu contratante reclamar do excesso de repetições, diga: “Bom, Shakespeare usava…”

Adaptado de meu blog com conselhos para roteiristas iniciantes - Palpites de Redator


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Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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