renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

F*&%-se, diz Charles Bronson

Como o mais famoso durão do mundo recusou o papel que poderia ter dado o único Oscar de sua vida


O Filme é “Amigos, Sempre Amigos”, de 1991 (City Slickers, no original).

Nele, um grupo de três amigos, em plena crise de meia-idade, decide fazer um passeio pelo Novo México no estilo de vida dos vaqueiros. É lá que eles encontram um velho cowboy durão, Curly, que os ensina uma coisa ou duas sobre a vida. A única opção dos produtores para o papel é Jack Palance.

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Palance é um dos mais terríveis vilões dos filmes dos anos 1950. Deus, ele é o pesadelo encarnado de Shane – Alan Ladd em “Os Brutos Também Amam”. Quem melhor para encarnar um pistoleiro típico de matinê de bang-bang?

No primeiro encontro para discutir City Slickers, o vilão mostra-se um homem culto e classudo. Mas recusa o papel. Diz que amou o roteiro, mas o período de filmagem conflita com outro compromisso já assumido. O grupo por trás da produção – o diretor Ron Underwood e o ator Billy Crystal - recorre ao plano B. Alguém tão intimidador quanto Palance: Ninguém menos que Charles Bronson. O roteiro é enviado para o agente do ator e, no dia seguinte, Crystal é informado de que receberá um telefonema de Bronson em pessoa. O telefone toca na hora marcada e Crystal atende. - F*&%-se – diz a voz inconfundível do implacável matador de centenas de filmes. Billy não sabe se ele está brincando, se é uma ameaça - quem diabos responde a uma oferta de trabalho com um “F*&%-se ”? Antes que Crystal possa se refazer, Bronson ataca novamente: - F*&%-se. Eu morro na página 64!! Como é que você me manda um troço destes? Você é muito atrevido! Eu não morro nos meus filmes! - Sr. Bronson – diz Crystal, tentando acalmar alguém que naquele momento mais parece o justiceiro de Desejo de Matar do que um ator convidado para um trabalho – eu lamento que o senhor pense desta forma. É um grande papel. - Não. Não é. Eu morro na página 64 – diz Bronson e desliga na cara de Crystal. O resto é história. Palance gostou tanto do roteiro que saiu do outro projeto para entrar no filme. Jack Palance levou o Oscar de melhor ator coadjuvante. Ao subir no palco para receber a estatueta, fez o que nenhum ator tinha feito antes: comemorou fazendo flexões – usando apenas um dos braços – e isso aos 73 anos!

Billy Cristal contou em suas memórias: “Eu só conseguia pensar no que Charles Bronson estava pensando quando foi dormir naquela noite”


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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