renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Vidas Cinematográficas

Como funciona a máquina de criar e esmagar ídolos, vista de cima e de baixo. Muito baixo.


Duas vidas no cinema, dois livros. Terminei recentemente 'Ava Gardner: The Secret Conversations,' de Peter Evans e Ava Gardner Ava.jpg

e The Disaster Artist de Greg Sestero e Tom Bissell. disaster.jpg

As vidas não podiam ser mais diferentes: Ava, embora não fosse uma grande atriz, tem em seu currículo algumas obras-primas das telas. Sestero tem o duvidoso mérito de ter participado de “The Room”, que alguns críticos chamam de “Cidadão Kane dos filmes ruins”. O livro de Ava não é exatamente uma biografia. Trata da relação entre ela e o escritor Peter Evans, escolhido para ser o "ghost writer" de suas memórias. Ava não está muito feliz com a necessidade de “vender sua vida”. Mas, como ela diz para Evans: “Ou é o livro ou as joias. E eu sou meio sentimental quanto as joias”. Em outras palavras, Ava está quebrada. A mulher que já foi considerada com justiça “o mais belo animal do mundo” está falida, abatida por derrames que paralisaram parte de seu corpo e – durante algum tempo – roubaram seu controle da bexiga. ava-gardner.jpg

Ava, o animal mais belo do mundo

Menos que um livro linear de memórias, Evans conta seu processo de sedução da diva, tentando arrancar confissões da relutante atriz que interessem a algum editor e rendam rapidamente o dinheiro que ela precisa. Ava, ao mesmo tempo em que sonega informações, pressiona o escritor para concluir logo a obra. “O trigo no Egito está quase no final”, ela lembra a toda hora. Os telefonemas de Ava para o escritor de madrugada tornam-se uma rotina. É nestas horas, já embriagada, que ela tem mais disposição para conversar. Estas são as conversas mais fascinantes. Em uma narrativa recheada de palavrões, ela solta pequenas pílulas sobre sua vida com Mickey Rooney – na época de seu casamento o homem mais popular do mundo. O casamento não dá certo. Mesmo casado com a mulher mais linda do planeta, o baixinho Mickey é um galinha incorrigível. avamickeywedding.jpg

De Rooney ela vai para Howard Hughes – o homem mais rico (e talvez o mais louco) da América (“um racista filho da puta, embora tenha tratado muito bem de minha mãe quando seu câncer foi diagnosticado”... “O Howard Hughes de Las Vegas, o excêntrico recluso que só contratava mórmons, esse eu não conheci”).

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Depois vem seu segundo marido – o clarinetista Artie Shaw, que a humilha com seu QI altíssimo. E, de Shaw, o desembarque no Planeta Sinatra. Talvez seja mais apropriado dizer que Sinatra é que aterrissou no Planeta Ava. Na época do casamento, Sinatra estava quebrado, sem voz, sem agente, despedido da MGM. avafrank1.gif

Ava é quem paga as contas do casal. É talvez seu maior amor e a última criatura do mundo com quem ela poderia se relacionar. Ambos bebem desesperadamente, sentem ciúmes doentios um do outro, brigam a toda hora. ("Eu sinto falta de Francis, Ele era um filho da puta mas sinto saudades dele... Ele vai viver muito. Filhos da puta são sempre os melhores sobreviventes") Em dado momento, Ava pede a Evans que a ajude a morrer. Ela fala de uma clínica que ajuda as pessoas a se suicidarem. Evans nega. Ela diz que ele “não a ama”. “Eu estou cansada pra caralho de ser Eva Gardner” confessa a atriz em seu momento de maior fragilidade. A parceria – como todos os amigos de Evans o alertaram – não dura. Ao ouvir falar do livro, Sinatra entra no circuito, paga a Ava o dinheiro que ela esperava ganhar com o trabalho e faz Evans ser demitido sem grandes cerimônias. Ele só retoma o trabalho em 2012. Ava havia morrido em 1990. Mas o trabalho parecia condenado por forças maiores: Evans morre antes de colocar o ponto final em seu trabalho. É uma história triste. Em dado momento, Ava fala de seu derrame: “Ele deixou intacta a parte do meu cérebro capaz de sentir ódio, infelicidade, rancor. Só matou a parte capaz de sentir felicidade”. Em outro diapasão, temos a obra de Sestero.

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Greg Sestero

A história é tão improvável quanto o enredo de “The Room”. Os bastidores do filme são hilariantes. Os câmeras têm que se esconder para disfarçar as crises de riso diante dos momentos mais emocionais da interpretação de Tommy Wiseau – roteirista, produtor e ator principal do filme. Wiseau não consegue decorar as frases do roteiro que ele mesmo escreveu.

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Tommy Wiseau

Wiseau investe 6 milhões de dólares em sua obra. De onde saiu o dinheiro? Qual a atividade profissional de Wiseau? Onde ele nasceu? Por que decidiu seguir a carreira de ator? Nada disso é respondido. Mas acompanhar a rotina caótica da filmagem é impagável. Foi um dos poucos livros que me fez chorar de rir, sem exageros. Claro, o livro funciona melhor para quem já viu “The Room” - talvez o filme mais memorável deste século, ainda que pelas razões erradas - (Eu, não contente em ter a versão em DVD, comprei a edição ampliada em Blu-Ray), mas é uma leitura mais que recomendada.

Em seus terrenos opostos, os dois livros mostram o funcionamento de uma máquina chamada Hollywood. Sua capacidade de construir e destruir seus maiores ídolos, de acolher mesmo os mais excêntricos realizadores. Do centro do mais poderoso estúdio do mundo – a MGM, em seus dias de glória – até a mais chinfrim produção amadora, Hollywood abraça todos. Mesmo que depois os descarte sem a menor piedade. Sestero e Ava são pessoas excepcionalmente belas. Que a beleza - este bem supremo, ainda mais importante que a riqueza - não tenha assegurado um futuro mais tranquilo para nenhum deles é algo para se refletir. Los Angeles, a cidade dos anjos, tem seus (muitos) demônios revelados em duas obras deliciosas. O quadro, ainda que eventualmente divertido, não é muito bonito.

Sugestão de trilha sonora para o artigo: City of The Angels, homenagem um pouco dourada demais à Los Angeles, escrita por Fred Astaire e cantada pelo Mestre Tony Bennett


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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