renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Lendo JFK

Mais de 40 mil livros foram escritos sobre o assassinato de Kennedy há 50 anos. Mas bem poucos valem a pena.


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A revista Esquire elencou os melhores romances escritos sobre a morte de John F. Kennedy, que completa 50 anos. Entre eles está o seminal Libra (1998), de Don Delillo, que levanta a hipótese do assassinato ter sido tramado inicialmente por agentes da CIA como um atentado destinado a fracassar (“A gente não pode acertar Castro. Então vamos acertar Kennedy”... “Mas não acertamos Kennedy. Erramos.”) para justificar uma ação mais agressiva contra Cuba. Uma das principais personagens é um agente da CIA chamado Nicholas Branch, que tenta sem sucesso juntar os cacos da avalanche de informações inúteis que despejam em sua sala anos depois do assassinato. Mas a novela é principalmente sobre Lee Harvey Oswald, uma engrenagem quebrada em uma máquina imensamente maior que ele.

esq-libra-lg-73090398.jpg Outro romance apontado pela revista é a monumental obra do cão do inferno, Tabloide Americano (1995), na qual o mestre James Ellroy monta uma densa teia que enreda a família Kennedy, Fidel Castro, Jimmy Hoffa, Howard Hughes e – claro – sua personagem favorita e bête noire de estimação, J. Edgar Hoover (aliás, perguntei uma vez ao próprio autor quem ele achava mais perigoso – O cabeça do FBI, o chefão da Máfia ou o opositor de Kennedy, Nixon. Ele me respondeu “Entre o Presidente Richard Mihous Nixon, o burocrata John EdGAY Hoover e o assassino Sam Giancana, o pior era Hoover”).

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James Ellroy e Renzo Mora

O livro de Stephen King, "Novembro de 63" (2012), recém-lançado no Brasil, obviamente não está no mesmo nível dos anteriores (nem é citado pela Esquire) – e deve muito à fórmula do filme “Efeito Borboleta”, de 2004, escrito e dirigido por Eric Bress e J. Mackye Gruber. Mas King, mesmo sem usar uma premissa muito original, é um grande contador de estórias – e seu Novembro é uma excelente distração, que se lê de um só fôlego. Aliás, ele é um dos poucos autores de ficção que credita o assassinato exclusivamente a Oswald. Para quem quer fatos, entretanto, o livro mais importante de todos os tempos sobre o tema é “Morte De Um Presidente” (1967), escrito no calor dos acontecimentos por encomenda da família Kennedy pelo autor William Manchester, que teve acesso irrestrito a todos os envolvidos.

Manchester quase morreu de exaustão para entregar o trabalho e a família do falecido presidente interditou a republicação da obra – hoje só disponível em sebos.

Sua pesquisa parece ter guiado o filme Parkland, elogiado pela reconstituição cuidadosa dos fatos e que narra os dias caóticos que se seguiram ao atentado (embora o principal consultor creditado tenha sido o jornalista Hugh Aynesworth, é possível ver quanto ele deve aos esforços pioneiros de Manchester)

Anatomia de um Assassinato – A história secreta da morte de JFK (2013), de Philip Shenon, começa sua narrativa justamente onde Manchester parou – ele desvenda as intrigas internas da Comissão Warren, montada para investigar o caso. O livro mostra os esforços da CIA, do FBI, do Serviço Secreto e especialmente da polícia de Dallas para encobrir as inúmeras falhas que possibilitaram a morte de Kennedy – principalmente os erros de avaliação que subestimaram a periculosidade de Oswald. O Serviço Secreto, cuja única função é zelar pelo presidente, ficou na farra até de madrugada no dia anterior ao desfile, além de ficar olhando para Kennedy durante a carreata ao invés de procurar por ameaças nas janelas ao redor.

Irmãos (2007), de David Talbot, intui, como Shenon, que pode haver algo mais na morte tanto de JFK em 1963 quanto na de seu irmão Robert em 1968. O melhor do livro são os bastidores da crise dos mísseis russos instalados em Cuba - até hoje o mais próximo que o planeta já esteve de uma guerra nuclear - e como JFK contrariou a máquina militar da direita americana, instalada em seu próprio gabinete, que exigia um ataque preventivo aos soviéticos.

E para quem não quer ver Kennedy tratado como santo o tempo todo existe o premiado Seymour Hersh, com seu O Lado Negro de Camelot, que não fala diretamente do assassinato mas faz um apanhado mais crítico dos 1000 dias em que JFK presidiu os EUA. Nenhum autor sério questiona que Kennedy tenha sido assassinado exclusivamente por Oswald. O conjunto de provas é incontestável – e vai desde testemunhas oculares até o os sulcos das balas recolhidas pelos peritos - que coincidem inquestionavelmente com os provocados pelo cano do rifle de Oswald. Lee Harvey começou a trabalhar no depósito de livros escolares do Texas (de onde fez os disparos) antes do trajeto de Kennedy pela cidade ser anunciado. Era impossível que ele tivesse sido plantado na Dealey Plaza apenas para ter a chance de atirar no Presidente.

Quem o conheceu questiona se algum serviço de espionagem – quer o cubano ou o soviético – colocaria uma missão tão importante nas mãos de um perdedor emocionalmente instável como Oswald.

Ainda assim, tanto Shenon quanto Talbot não fecham totalmente as portas para a possibilidade de uma conspiração – mesmo rejeitando a possibilidade de qualquer outro atirador no episódio. (Hersh está ao lado dos não conspiracionistas)

Talvez Lee Harvey – pensam eles – tenha sido usado por algumas das muitas forças que Kennedy contrariou – a direita americana, a Máfia, o governo cubano, os anticastristas...

Mas - convenhamos - nenhuma conspiração é tão sólida a ponto de sobreviver meio século sem nenhum vazamento.

Os fatos apontam exclusivamente para Oswald.

As alternativas só se sustentam nas fantasias espetaculares de mestres como Delillo e Ellroy.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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