renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

ART TO DIE FOR

A (questionável) arte de alguns dos mais famosos criminosos do planeta


jodi arias 1.jpg

Por apenas US$ 39,00 você pode ter o duvidoso privilégio de possuir uma cópia limitada e autografada da gravura Picasso Calla Lilies Bouquet.

Mas não se deixe levar pelo nome – Picasso tem pouco a ver com o trabalho.

A autora é uma americana que ficou famosa, entre outras coisas, pela extraordinária beleza.

Seu nome é Jodi Arias, que se descreve em sua mini autobiografia no twitter como “Artista realizada. Leitora ávida. Amante dos animais. Imperfeita. Amiga”

Jodi Arias blonde hair green eyes.jpg

Bem, artista realizada pode ser um pequeno exagero.

E imperfeita um modesto understatement.

Entre as “outras coisas” que transformaram Jodi em celebridade está algo que ela fez em 4 de Junho de 2008. Depois de uma sessão erótica de fotos, ela esfaqueou 29 vezes seu amante Travis Victor Alexander e acrescentou um supérfluo tiro no rosto do corpo já sem vida.

Overkill, como chamam os especialistas.

Estas fotos foram um elemento fundamental para que o crime fosse desvendado.

A câmera digital de Jodi foi jogada na máquina de lavar, mas a polícia recuperou as imagens. As fotos calientes do casal foram tiradas pouco antes das duas da tarde. A última foto de Alexander vivo foi tirada às 17h29min. As fotos seguintes mostram Alexander já sangrando abundantemente no chão de seu banheiro. A pena de Jodi continua em discussão neste momento, mas deve ficar entre prisão perpétua e execução.

Assassinos costumam ser péssimos artistas.

A exceção – que, diz o clichê , confirma a regra – é Michelangelo Merisi o Amerighi da Caravaggio, que em 29 de Maio de 1606 matou um jovem chamado Ranuccio Tomassoni.

A falta de qualidade dos trabalhos não parece ser um obstáculo para os compradores.

O músico Nikki Stone comprou um quadro mostrando “Pogo, o Palhaço” assinado por John Wayne Gacy. Pogo era uma personagem criada por Gacy para entreter crianças e vizinhos em festas. Gacy criou ele mesmo a maquiagem de Pogo. Enquanto não entretinha crianças, Gacy encontrava tempo para matar e enterrar homens no porão de sua casa. Suas vítimas alcançaram o impressionante número de 33 pessoas.

gacy.jpg Stone pagou 3 mil dólares pela pintura de Gacy, mas arrependeu-se. Diz ele que desde que o quadro entrou em sua casa, seu cão morreu, sua mãe foi diagnosticada com câncer e diversos de seus amigos e familiares dizem ter experimentado fenômenos negativos, incluindo incêndios.

Johnny Deep, que também comprou uma das obras de Gacy, afirmou ter desenvolvido um “medo patológico de palhaços” e ter jogado fora o quadro.

Quem iria dizer que o trabalho de um serial killer poderia ter "energia negativa", como dizem os chegados ao misticismo?

gacy2.jpg

Um artista que conseguiu um pouco mais de sucesso foi Charles Manson. Ele foi condenado por conspiração para cometer assassinato em um crime bárbaro que vitimou – entre outros – a atriz Sharon Tate. Mas, quanto a Manson, cabem algumas observações. Ele já era músico antes da "celebridade". E, de acordo com John Douglas, um dos maiores profilers do FBI, há dúvidas se Manson chegou a matar alguém com suas próprias mãos. Douglas pensa que estes crimes ocorreram porque Manson perdeu o controle de seus seguidores e viu sua liderança contestada pelo assassino de verdade Tex Watson, garoto bonito, com nível universitário. Watson foi o principal executor na casa de Sharon Tate e Manson não teve alternativa senão a de estimular o crescendo de violência do grupo. Em outras palavras, John Douglas pensa que Charles Manson é uma fraude - e está longe de merecer o título de "O Homem Mais Perigoso da América", conquistado basicamente através de seus seguidores perturbados. Na década de 1980, Manson, já preso, fez diversas gravações na cadeia. Estas canções foram reunidas em álbuns como Commemoration, Live at San Quentin e The Way of the Wolf. Nenhum deles foi um sucesso e Phil Kaufman, responsável pelo lançamentos, foi à falência. Algumas das canções de Manson eram péssimas. Outras eram piores.

O mercado criado pelo aparentemente inesgotável fascínio dos norte-americanos por assassinos e criminosos insanos não é exatamente uma potência, como vimos.

Pelo menos, não é um investimento que eu recomendaria.

Mas ele sobrevive – e, aparentemente, quanto pior a obra e o artista, melhor.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Renzo Mora